A tradução literária leva obras do português ao mundo, entre desafios de fidelidade, mercado e tecnologia atual
A literatura brasileira vem conquistando prestígio internacional há décadas, impulsionada pela crescente circulação de obras traduzidas. Segundo o relatório “Priorização de mercados”, da Câmara Brasileira do Livro (CBL) em parceria com a ApexBrasil, livros brasileiros já chegam a mais de 40 países, com destaque para Portugal, Espanha, Estados Unidos e França.
Nossas obras são percebidas no exterior por meio do longo processo da tradução literária, que permite o alcance estrangeiro sobre a literatura brasileira. Autores como Clarice Lispector, Machado de Assis e Jorge Amado já ganharam diversas premiações ao redor do mundo graças às versões traduzidas de suas obras. Porém, o escritor mais conhecido internacionalmente é Paulo Coelho, sendo considerado um dos autores mais traduzidos do mundo, em que suas obras são percebidas em mais de 80 idiomas diferentes.
Mas afinal, como funciona o processo da tradução literária?
A tradução literária é a responsável pela circulação de livros ao redor do mundo, sendo essencial para a literatura nacional, e muito desejada por autores em começo de carreira. Esse processo é longo, e requer a ajuda de diversos profissionais especializados, como agentes literários, editores ou revisores, e claro, o tradutor.
A primeira fase do processo é a negociação dos direitos autorais, na qual a editora interessada entra em contato com o autor e, por meio de um contrato, adquire os direitos de publicação da obra. O agente literário entra em vigor no momento em que o contrato é selado, pois ele fica responsável pela intermediação do autor e do editor. Esse profissional é essencial para que o tradutor possa exercer seu papel, porque é através do agente que o livro será representado em outros países – principalmente por causa dos direitos negociados com o autor. Ele recebe as informações, e a partir delas, realiza a leitura do livro, para que assim, crie uma proposta para as editoras.
A agente literária e jornalista, formada pela Faculdade Cásper Líbero, Gabriela Colicigno, relatou que o trabalho de um agente também é vender o autor, e que entra em contato com esses criadores para apresentar catálogos e ideias. Ela acrescenta:
“Geralmente, para o exterior, a gente monta um catálogo em inglês com os livros, um resumo deles, se já foi publicado no Brasil, números de vendas, se os direitos já foram vendidos para os outros lugares… Esse material é enviado para as editoras estrangeiras, que vão dar uma olhada e vão selecionar os livros que elas querem avaliar.”
Depois, começam as trocas de conteúdos entre o agente literário e o editor responsável pela obra em questão. Os especialistas irão discutir sobre as informações previamente coletadas pelo agente, como as visões do autor sobre a tradução e os acordos realizados. De acordo com Victor Almeida – editor da Editora Planeta -, “O agente e o editor são dois grandes defensores do autor. O agente é o defensor do autor como profissional, e o editor, é o grande defensor do autor da editora.”, sendo assim, os dois profissionais trabalham em prol do escritor, garantindo que a obra esteja apta para a tradução e comercialização.
O editor trabalha junto ao criador na produção da obra, desde a aquisição até a consolidação do texto para a produção. É ele que defende o livro nas vendas, na produção de capas, na revisão e em diversas etapas da publicação. Victor aponta que os editores recebem prévias do manuscrito, e que geralmente chegam na língua inglesa (por se tratar do idioma oficial), e através delas, conseguem ter uma visão geral sobre o conteúdo da obra. Com essa prévia lida, o editor realiza uma série de pesquisas, em conjunto com o autor, para começar a produção de fato da obra.
Esse especialista é considerado o ‘guardião’ da originalidade do texto, pois atua com a garantia de que a tradução não irá alterar o seu sentido principal. Isso porque o editor se preocupa com a qualidade daquela escrita, para que chegue ao mercado nas melhores condições. Por isso, o profissional se mantém em constante contato com o agente e com o tradutor, mas principalmente com o autor.
O papel do tradutor
Após a junção dos profissionais mencionados, o texto será enviado a um tradutor, juntamente com todas as informações da obra. Esse processo costuma ser mais longo, pois o tradutor precisa compreender o conteúdo, e realizar pesquisas acerca da temática. A tradutora, formada em Letras e Tradução pela Unibero, Tatiana Guedes, relata: “Quando a gente recebe um livro para traduzir, no geral, a gente só tem uma sinopse do livro, ou o PDF/Word, e não dá tempo de ler ele inteiro, não tem como. O prazo geralmente não dá para a gente ler. Então, é seguir com base no que tem na sinopse e nos primeiros capítulos, e aí você seguir adiante.”
A escolha do tradutor geralmente é baseada no idioma e no nível de fluência do capacitado; mas para além disso, o tradutor ideal é aquele que é capaz de traduzir não só palavras, mas o sentimento e o contexto que o escritor traz em sua obra.
Atualmente, no Brasil, essa profissão está sendo cada vez mais apoiada pelo governo nacional, principalmente após a criação de iniciativas como o Programa de Apoio à Tradução e à Publicação de Autores Brasileiros no Exterior, orientado pela Fundação Biblioteca Nacional (FBN), em conjunto com a Secretaria de Formação Cultural, Livro e Leitura, Ministério da Cultura (MinC), e Instituto Guimarães Rosa, do Ministério das Relações Exteriores (MRE). Esses programas incentivam o aumento da procura pela área, impulsionando também o crescimento de obras traduzidas no país. Mas, por outro lado, os tradutores sentem que é um mercado muito fechado, como dito pela tradutora Tatiana:
“Nunca foi um mercado fácil, hoje em dia tá mais complicado, tem muito profissional, não tem tanta demanda. É um mercado que a gente chama de fechado porque é muito por indicação. Se você tem, por exemplo, um mês para traduzir um livro, e você tem um tradutor que você já conhece, vai ser muito difícil você querer se arriscar com outra pessoa, e talvez você perder um prazo.”
Para Mônica Kalil, tradutora da língua francesa para o português, o processo da tradução é complexo, pois é necessário se preocupar com adaptações culturais e linguísticas do idioma base. Ademais, esse percurso requer uma vasta pesquisa sobre as informações contidas no texto, pois muitas vezes apresentam marcas linguísticas próprias daquele autor, e saber traduzir de uma forma que não altere o seu sentido é um grande desafio. Mônica acredita que seu maior obstáculo são as gírias, que são únicas em seu país de origem, mas quando presentes em uma obra, precisam se adaptar a outras gírias da língua tradutora. Já Tatiana Guedes diz que existem palavras únicas do nosso vocabulário, e que na hora de traduzir, é necessária diversas explicações sobre um único vocábulo.
A tradução de um livro costuma demandar muito tempo do tradutor, mas isso irá variar de acordo com a quantidade de palavras e páginas; além do mais, o cliente pode exigir um prazo determinado, o que encurta ou prolonga a duração da tradução. Em média, um profissional é capaz de traduzir 2.000 palavras diariamente, mas isso também dependerá do profissional. Kalil menciona que costuma pesquisar muito durante o processo para enriquecer sua tradução, e por isso, gasta mais tempo do que a média. Mas, em contrapartida, Tatiana Guedes diz que costuma traduzir algumas obras por mês, ou seja, ela precisa recalcular seu tempo médio de tradução, para que atenda todas as exigências de prazo que as é designada.
Logo após a entrega do texto traduzido, o editor volta à cena: ele irá conferir aquela produção, e garantir que o texto esteja alinhado com os princípios da autora. Geralmente, é inserido um novo personagem para essa missão, que é justamente o revisor, no qual sua função é revisar a obra com a finalidade de o manter fluido e gramaticalmente correto. Após o processo da revisão, a obra entra em uma análise ainda mais profunda, e passa pelas mãos de todos os profissionais envolvidos nesse processo, para que assim, a obra seja publicada pela editora interessada.

A chegada de livros brasileiros ao exterior é de extrema importância para a valorização da nossa cultura, especialmente pelo fato do estrangeiro reconhecer a nossa arte.
Foto por Gabriela Abrahão de Oliveira
A visão do autor acerca de sua obra traduzida
O escritor, tradutor e designer gráfico Samir Machado comunica que ter sua obra traduzida em outros países, por outras pessoas e culturas, é uma sensação de gratidão.
“Quase como uma sensação de estar fora do corpo, por assim dizer, vendo o texto com o distanciamento de outra língua”.
O autor se popularizou por obras como “O Crime do Bom Nazista” – vencedor do prêmio Jabuti 2024, na categoria Romance de Entretenimento, “Homens Elegantes” e “Tupinilândia”. Suas obras já tiveram traduções de idiomas como o inglês, francês e o italiano, sendo muito reconhecidas mundo afora.
Ele relata que, durante a tradução de editoras estrangeiras acerca de suas obras, nem sempre se manteve em contato com os tradutores, mas sempre se deixou à disposição.
“Com a tradução em inglês, o Rahul Berry me consultou para tirar algumas dúvidas sobre o Crime do Bom Nazista – em especial, uma piada intraduzivel para outra lingua que não fosse o português – e as orientações que passei para ele, aproveitei para passar também aos tradutores de francês e inglês. Com a tradução do Homens Elegantes ao italiano, me adiantei e preparei um arquivo com algumas orientações mais específicas.”
Samir também comenta sobre a chegada de um livro brasileiro ao exterior, e que muitas vezes, livros tão particulares da língua e cultura brasileira podem gerar um certo interesse para o público internacional. Ele nos diz que alcançou muitos leitores de fora do país, e que em termos de vendas, suas obras foram muito mais compradas no exterior, ao invés do seu país de origem. Porém, Samir Machado e todos os mencionados, que compõem o processo da tradução, compartilham o mesmo pensamento: a literatura abre portas para uma identidade brasileira mais forte, e quanto mais obras nacionais circularem no ambiente internacional, mais nossa cultura é valorizada e respeitada. Por isso, o escritor aprecia tanto o prestígio de suas obras no exterior, pois trazem novos interessados pelo o que o Brasil tem para oferecer ao mundo.
As inteligências artificiais na tradução literária
Em pleno século XXI, é notório que o aumento da tecnologia facilitou o trabalho de diversos profissionais, principalmente pela agilidade e conhecimento que ela trouxe. Hoje, uma simples IA pode realizar a transcrição de um texto em segundos, e também pode revisar manuscritos longos de forma rápida. Porém, mesmo que prático, as inteligências artificiais não substituem a experiência de um ser humano, pois não possuem a capacidade do contato humano – parte importante do processo, uma vez que é preciso estar em constante contato com o autor da obra.
Em 2025, a plataforma Amazon divulgou que utilizará a presença de IA para traduzir textos no Kindle, denominada de Kindle Translate. Essa ferramenta promete facilitar a publicação de obras, pois será possível alcançar leitores de todo o mundo em um simples clique. Embora esteja em fase beta – ou seja, somente os idiomas inglês, espanhol e alemão estão disponíveis para tradução -, essa tecnologia gera um grande sucesso entre usuários da plataforma, visto que menos de 5% dos livros na loja da Amazon estão disponíveis em mais de um idioma. Ainda que essa ferramenta seja benéfica a longo prazo, ela não substitui o trabalho dos profissionais por trás de um livro físico, à vista que uma pesquisa realizada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) aponta que 80% da população brasileira opta pela leitura física, sendo assim, 20% opta pela opção digital de livros.
Para que um sistema inteligente opere, é necessário um especialista por trás para programá-lo, mas é preciso se atentar: as IA ‘s cometem erros, e um erro pode atrapalhar todo o processo de uma tradução. Por isso, profissionais qualificados se destacam ao publicar textos traduzidos de forma humanizada comparado com traduções inteligentes, mas a ferramenta é válida durante as pesquisas e pequenas revisões ortográficas. Nesse viés, o editor Victor Almeida acentua:
“É por isso que hoje eu sou uma pessoa que defende muito newsletter, blog, tudo que foi criado por um ser humano. Porque quanto mais sincero e honesto é a forma como você cria a sua comunicação, mais você vai ter uma resposta também sincera.”
Em complemento, Mônica Kalil conta que as inteligências artificiais podem ajudar o trabalho do tradutor em textos técnicos, mas que a tradução requer um cuidado de interpretação maior – capacidade que ferramentas inteligentes possuem maior dificuldade. “Mas em literatura, cada tradutor é um leitor, e cada leitor interpreta de uma maneira, então a máquina não interpreta, o que a máquina faz é pegar modelos, de frases parecidas em vários textos que ele coleta pelo mundo afora, mas ele não está interpretando aquilo.”
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O “Oscar” da literatura
Considerado o ‘Oscar’ dos livros, o The Nebula Awards 2026 tem quatro brasileiros indicados. O Prêmio Nebula é um dos mais renomados e reconhecidos do mundo literário, concedido pela Science Fiction and Fantasy Writers of America (SFWA) aos melhores trabalhos de ficção científica e fantasia publicados nos Estados Unidos. Criado em 1966, o prêmio avalia tanto obras literárias quanto roteiros. Sua importância é justamente valorizar a literatura mundo afora, mas ela se torna ainda mais importante quando um livro brasileiro está em indicação.
Na categoria Best Novella (melhor novela), estão indicados But Not Too Bold (Tor Books), de Hache Pueyo — originalmente publicado como Bem Mal Me Quer (Editora Dame Blanche) —, e Disgraced Return of the Kap’s Needle (Dark Matter Ink), escrito em inglês pelo autor brasileiro Renan Bernardo. Já na categoria Best Comic (melhor quadrinho), concorrem os autores Matheus Lopes e Bilquis Evely. Evely foi vencedora do Prêmio Eisner em 2025 pelo quadrinho Helen of Wyndhorn (Dark Horse). Dito isso, vale a pena acompanhar esse marco na literatura nacional, para que exaltemos sempre nossos autores e obras brasileiras.
Leitura complementar: indicações de leituras
Durante entrevistas com as personalidades mencionadas nesta publicação, eles destacaram suas melhores indicações de livros para nossos leitores! Confira já:
A agente literária, formada pela Cásper Líbero, Gabriela Colicigno, relatou que geralmente indica livros de seus autores, e sua melhor sugestão são os livros “Fortunato Poeira”, de Anna Martino e “Flores para Algernon”, de Daniel Keys, cuja agente diz ter vendido para territórios iranianos.
Com isso, Victor Almeida, da Editora Planeta, menciona a autora Ursula K. Le Guin, que aborda títulos de fantasia e ficção científica. Entretanto, recomenda um livro chamado “Eu Guardo Meus Exoesqueletos Dentro de Mim”, uma distopia queer de Marissa Crane.
Mônica Kalil aponta algumas vezes em sua entrevista o livro “O Astrálogo”, de Albertine Sarrazin – livro francês que teve sua tradução para o português no Brasil a alguns anos após a data da publicação original.
A tradutora Tatiana Guedes nos indica a leitura “Língua Nativa”, da Suzette Haden Elgin, e a tradutora é Jana Bianchi. Sendo um livro de ficção científica, a intérprete diz que é uma leitura enriquecedora.
E por fim, o autor de obras como “Tupinilândia” e “O Crime do Bom Nazista”, Samir Machado recomenda o livro “Civilizações”, de Laurent Binet, em tradução de Rosa Freire d’Aguiar.

Livro “O Astrálago”, de Albertine Sarrazin.
Foto por Gabriela Abrahão de Oliveira