Novelas de frutas: drama pesado em embalagem fofa

Novelas de frutas: drama pesado em embalagem fofa

Por Ana Beatriz Carvalho, Ana Laura Azeredo, Beatriz Borba e Maria Eduarda Toti : julho 10, 2026

Redes sociais( Imagem: Kasia Palitava/Pexels)

Como aparência doce e divertida, as chamadas “novelas de frutas” escondem enredos marcados por misoginia, traição e violência

A Cultura de Massa e sua captura afetiva

Deise Mancebo, doutora em História e Filosofia da Educação pela PUC-SP, em seu artigo “Globalização, cultura e subjetividade: discussão a partir dos meios de comunicação de massa” (publicado na revista Psicologia: Teoria e Pesquisa), apresenta conceitos teóricos cruciais para compreender como os meios de comunicação moldam as percepções do público. A autora discute que a cultura contemporânea não opera de forma ingênua; pelo contrário, ela frequentemente disfarça lógicas econômicas profundas e padroniza comportamentos sob a máscara do entretenimento.

Mancebo argumenta que a cultura não se consolidou como um refúgio ou uma alternativa ao capitalismo, mas sim como uma de suas expressões mais perfeitas. Na engrenagem globalizada, o bom funcionamento do mercado depende diretamente da consolidação de uma “sociedade de imagens voltadas para o consumo”. Nesse cenário, o afeto, o lazer e o entretenimento são transformados em mercadorias de circulação rápida, onde a estética serve como o principal vetor de engajamento e esvaziamento crítico.

É precisamente nessa lógica que se inserem as chamadas “novelas de IA” e a tendência das imagens realistas e lúdicas que viralizaram nas redes. Disfarçadas em embalagens “fofas”, coloridas e aparentemente inofensivas, como frutas antropomórficas ou estéticas infantis, essas produções digitais muitas vezes escondem e normalizam padrões de comportamento majoritariamente violentos e misóginos.

O formato “doce” é visualmente atrativo, gera curiosidade e funciona como uma estratégia de captura afetiva da Indústria Cultural. Ao captar o olhar do espectador através do lúdico, o algoritmo gera um engajamento veloz. Assim, a estetização fofa amortece o impacto do absurdo, transformando narrativas pesadas e lucrativas em conteúdo altamente digerível e de consumo banalizado. O que parece ser apenas o ápice da tecnologia e da criatividade visual é, em sua origem, a reiteração de velhas violências e ideais estruturais mercantilizadas para a era do clique rápido.

Reinvenção do clássico

Não é segredo que o povo brasileiro tem uma paixão antiga: o melodrama. As novelas fazem sucesso no país desde 1951, transformando-se em fenômeno cultural ao longo das décadas seguintes. Títulos como Avenida Brasil, Vale Tudo e O Clone apresentaram um espelho da sociedade, cativando o público ao transmitirem metonímias de suas tradições familiares, desafios cotidianos e pilares culturais, gerando identificação e forte vínculo emocional.

É a partir da estrutura das novelas, já aclamada pelos brasileiros, que surgiram as “novelinhas de frutinhas”, uma sósia digital. Seguindo estrutura semelhante, como uma embalagem ultraprocessada para os meios digitais, os arcos de traição e redenção foram replicados.

Nada disso é à toa, por acaso ou uma coincidência. Segundo o teórico da cultura Theodor Adorno, em seus estudos sobre a Indústria Cultural, a padronização é o motor do entretenimento de massa. A teoria desenvolve a ideia de que a arte e a cultura passam por uma transformação social com o avanço do capitalismo e nazifascismo no Pós 2° Guerra Mundial, momento em que havia fabricação de produtos em série visando majoritariamente o lucro.

Quando o objetivo maior passa a ser vender cada vez mais, estruturas são solidificadas para cativar o público em uma alienação disfarçada de entretenimento, anestesiando o pensamento analítico.

A inteligência artificial leva esse conceito ao limite absoluto: ela não apenas padroniza o formato; ela automatiza a produção, eliminando a subjetividade humana em favor de um produto que entrega, de forma cirúrgica, o estímulo emocional esperado.

NOVELAS

Formato visual das novelinhas de frutas (Imagem: feita por IA)

Sob o pretexto de ser apenas um passatempo inocente ou “divertido”, somado à estrutura já conhecida e adotada das telenovelas, essas produções se infiltram no novo imaginário e desarmam o senso crítico do espectador. Ao fazer isso, elas conseguem introduzir e naturalizar enredos de teor misógino, traição e violência contra a mulher. O público consome a misoginia de forma passiva porque ela vem mascarada pela leveza estética.

A estética “fofa” atua como um cavalo de Troia, baixando a guarda do espectador enquanto o algoritmo bombardeia o feed com estímulos de alto engajamento. Enquanto o povo se cega pela aparência inofensiva, ausente de consciência para o fato de que se entrega e vicia cada vez mais às telas, ideais preconceituosos, conservadores e estagnados são sorrateiramente implementados no subconsciente, moldando a forma de enxergar o mundo sem que nem perceba.

A influência que gera consequências

As novelas de frutas conquistaram rapidamente o público infantil com histórias envolventes, personagens coloridos e enredos que apresentam soluções simples para conflitos do cotidiano. O formato dinâmico, a linguagem acessível e o humor fizeram com que esse tipo de conteúdo alcançasse milhões de visualizações em diferentes plataformas digitais, tornando-se um verdadeiro fenômeno entre crianças, adolescentes e até adultos.

No entanto, à medida que a popularidade cresceu, também aumentaram os questionamentos sobre as mensagens transmitidas pelas produções. Nas redes sociais, pais, educadores e internautas passaram a discutir se o entretenimento oferecido é adequado para o público que o consome. O debate ganhou força diante das cenas e diálogos que romantizam tanto ódio gratuitamente.

Entre as principais críticas estão a presença de misoginia, a romantização da traição, a violência gratuita e a utilização de discursos de ódio como parte do desenvolvimento das histórias. Em muitos casos, esses comportamentos são apresentados de forma normalizada, sem que haja uma reflexão clara sobre suas consequências, o que levanta preocupações quanto ao impacto que podem causar em crianças que ainda estão desenvolvendo seu senso crítico.

Embora se trate de uma obra de ficção, a Teoria da Aprendizagem Social, desenvolvida pelo psicólogo e professor Albert Bandura destaca que crianças aprendem comportamentos observando modelos significativos, ou seja, os mais novos podem ser influenciados por aquilo que consomem com frequência. Sob essa perspectiva, a exposição repetida a conteúdos que romantizam violência pode favorecer a reprodução ou normalização dessas condutas.

Durante a infância, valores, comportamentos e formas de interação social ainda estão em construção, tornando esse público mais suscetível à reprodução de atitudes observadas em personagens que admiram e acompanham diariamente.

Outro fator que contribui para essa discussão é a facilidade de acesso às plataformas digitais. Com apenas alguns cliques, crianças podem assistir a horas de conteúdo sem qualquer mediação, ampliando a exposição a mensagens que não convém para sua idade, como cenas que contém conteúdo sexual não explícito. Esse cenário reforça a importância da supervisão familiar e da classificação indicativa como ferramentas para orientar o consumo de mídia.

Diante desse contexto, especialistas defendem que o diálogo entre pais, responsáveis e crianças é uma das principais formas de minimizar possíveis impactos negativos. Conversar sobre o que é assistido, explicar a diferença entre ficção e realidade e incentivar o desenvolvimento do pensamento crítico são atitudes que ajudam o público infantil a interpretar as histórias de maneira mais consciente.

Segundo o psicólogo suíço Jean Piaget, a capacidade de realizar análises abstratas e avaliar criticamente diferentes perspectivas amadurece progressivamente ao longo da adolescência. Antes disso, a interpretação dos acontecimentos tende a ser mais concreta, tornando a mediação de adultos especialmente importante diante de conteúdos complexos.

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O cenário está mais perto do que imaginamos

Se o conteúdo desperta preocupação, ela não se manifesta da mesma forma em todas as faixas etárias. A idade do espectador altera não apenas a intensidade da influência exercida pelas chamadas novelas de frutas, mas também a maneira como ela acontece.

Na primeira infância, especialmente entre os três e seis anos, a assimilação tende a ocorrer por imitação. Nessa fase do desenvolvimento, a criança ainda está construindo referências sobre o que considera certo ou errado e reproduz com facilidade comportamentos observados repetidamente na mídia. Gritos, agressões dramatizadas, demonstrações exageradas de ciúme ou falas violentas podem ser incorporados ao repertório infantil sem que haja compreensão sobre o contexto ou as consequências dessas atitudes.

Já entre os adolescentes, o impacto assume outra configuração. Embora, em geral, consigam reconhecer o caráter fictício ou humorístico dessas produções, isso não impede que determinados padrões sejam gradualmente naturalizados. Por mais que os adolescentes possuam maior capacidade de distinguir ficção e realidade, isso não significa que sejam imunes à influência da mídia. À luz da Teoria da Aprendizagem Social de Albert Bandura, indica que a exposição repetida a determinados modelos pode contribuir para sua normalização, especialmente quando esses comportamentos aparecem sem consequências negativas ou são associados ao sucesso, ao humor ou ao romance.

A repetição constante de relacionamentos marcados por possessividade, humilhação, traição e disputas afetivas pode contribuir para que esses elementos sejam percebidos como componentes normais (ou até desejáveis) de vínculos amorosos, justamente em uma fase em que a construção da própria identidade e das relações interpessoais ainda está em curso.

De acordo com o psicólogo russo Lev Vygotsky, o desenvolvimento humano ocorre por meio das interações sociais e da mediação cultural. Nesse sentido, os conteúdos consumidos nas plataformas digitais passam a integrar o conjunto de referências utilizadas por crianças e adolescentes para compreender normas sociais, papéis de gênero e formas de relacionamento.

Para o jornalista Gustavo Ardanuy, há ainda um aspecto que costuma passar despercebido pelos adultos: a sexualização recorrente presente nesse tipo de conteúdo. Segundo ele, “é muito perigoso devido à sexualização frequente das frutinhas”, recurso que acaba sendo mascarado pela estética infantil, colorida e aparentemente inofensiva das produções.

O problema, segundo Ardanuy, não se limita à linguagem visual. Os próprios conflitos apresentados nas histórias pertencem a um universo distante da infância.

“Normalmente, muitos dos tópicos abordados nas novelas são associados a temas adultos, como adultério e questões monetárias”, explica.

Dessa forma, enquanto a aparência remete a um conteúdo infantil, os roteiros reproduzem narrativas centradas em infidelidade, vingança, disputas financeiras e relacionamentos abusivos, apenas adaptadas para personagens caricatos e cenários lúdicos.

Esse descompasso entre forma e conteúdo reforça um desafio importante para famílias e educadores: a mediação não pode ser igual para todas as idades.

Com crianças pequenas, especialistas apontam que a supervisão direta e a limitação do acesso continuam sendo as estratégias mais eficazes.

Já entre adolescentes, o caminho passa pelo diálogo e pelo desenvolvimento do pensamento crítico, incentivando questionamentos sobre os comportamentos retratados, a forma como são romantizados e sua distância das relações saudáveis vividas fora das telas.

Em ambos os casos, permanece um ponto em comum: as produções raramente apresentam consequências ou contrapontos para as atitudes violentas e discriminatórias que exibem. Assim, a responsabilidade de contextualizar essas mensagens acaba recaindo sobre pais, responsáveis e educadores, que precisam preencher uma lacuna deixada pelo próprio conteúdo. Sob a perspectiva de Vygotsky, a aprendizagem ocorre por meio da mediação social.

Assim, o diálogo entre adultos e crianças desempenha papel fundamental na interpretação dos conteúdos consumidos.

A responsabilidade de contextualizar essas mensagens acaba recaindo sobre pais, responsáveis e educadores, que precisam preencher uma lacuna deixada pelo próprio conteúdo. Em vez de apenas restringir o acesso, pesquisadores destacam a importância de conversar sobre as narrativas assistidas, discutir suas consequências e estimular o pensamento crítico.

Editado por Mariana Lima

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