Imediatismo na Era Digital: os impactos na vida dos jovens

Imediatismo na Era Digital: os impactos na vida dos jovens

Por Daniela Trancoso de Sena : julho 22, 2026

Imagem:Pexels

Como o imediatismo, com a alta procura por respostas instantâneas no cotidiano gera ansiedade, comparação social e expectativas irreais de sucesso rápido.

Pedir comida, fazer uma transferência bancária, assistir a um filme ou conversar com uma inteligência artificial leva apenas alguns minutos. A rapidez proporcionada pela tecnologia transformou a forma como as pessoas consomem informação, se comunicam e lidam com a espera.

Quando a praticidade compromete o foco

A facilidade de ter tudo a um clique de distância dificulta a manutenção da atenção em atividades mais longas e fora do ambiente digital, como ler um livro ou realizar uma tarefa doméstica do dia a dia.

Isso ocorre devido à hiperconectividade entre plataformas online e ferramentas de IA, o que intensifica comportamentos de consumo impulsivo, leituras superficiais e o desenvolvimento de dependência psicológica relacionada ao uso excessivo dos meios digitais.

Tal cenário contrasta com a forma como o acesso à informação e ao entretenimento acontecia no passado. Como esses recursos eram mais limitados e menos imediatos, os métodos para as atividades eram distintos: para estudar, era preciso ir até uma biblioteca; a comunicação dependia de cartas e telefones fixos; e o entretenimento não era alimentado pelo fluxo constante de conteúdos curtos.

Esse ritmo antigo favorecia períodos mais prolongados de atenção e concentração, estimulando um envolvimento mais profundo com as tarefas realizadas.

‘FOMO’ e seus impactos na saúde mental infantojuvenil

A democratização do meio digital tem seus aspectos positivos, já que viabiliza a participação política, o acesso à informação, à educação e ao mercado de trabalho.

Porém, pesquisas da PubMed, site com literaturas científicas na área da saúde, apontam que o uso em excesso da internet está associado ao aumento de sintomas de ansiedade e depressão, além do crescimento da chamada Fear of Missing Out (FOMO), expressão em inglês que descreve o receio constante de estar perdendo experiências, acontecimentos ou oportunidades vivenciadas por outras pessoas.

Imediatismo

Ilustração representativa da “FOMO”/ fonte:magnific

Entre crianças e adolescentes, os efeitos tendem a ser ainda mais expressivos. Essa fase é marcada pela construção da identidade, da autoestima e das habilidades socioemocionais. A alta exposição a conteúdos idealizados gera comparação e uma busca incansável por aprovação, principalmente nas redes sociais.

Dentro dessa realidade, o adolescente desenvolve e pode sofrer em maior escala com sentimentos como inadequação e frustração, apontados pela psicóloga e pedagoga Elaine Cardoso, formada pela Ulbra e pela PUC:

“A busca constante pelos aplicativos alimenta essa necessidade de conteúdos imediatos, gerando indivíduos cada vez mais frustrados.”

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), 50% dos transtornos mentais começam antes dos 14 anos, reafirmando como este período de construção de identidade é sensível e vulnerável aos impactos causados por fatores sociais e tecnológicos.

A lógica do “agora”: como o imediatismo redefine expectativas e comportamentos

Além dos impactos na saúde mental, o imediatismo digital altera a percepção sobre esforço, sucesso e realização. A exposição contínua a conteúdos que valorizam resultados rápidos e vidas idealizadas gera expectativas difíceis de alcançar, favorecendo a insatisfação. O Fato é reafirmado pela pedagoga Fátima Ferreira, de 58 anos, formada pela USP:

“Hoje as pessoas estão mais violentas e agressivas porque acabam introjetando em seu inconsciente o mundo fictício do ambiente virtual, onde há prêmios irreais e pessoas que ostentam dinheiro, beleza e felicidade sem o esforço verdadeiro e o tempo necessário para atingir esses objetivos. Na maioria das vezes, esses padrões são inalcançáveis.”

Essa lógica também se manifesta no consumo de produtos e serviços. A possibilidade de resolver tarefas em poucos segundos, como pedir comida, fazer compras ou realizar pagamentos, tornou a agilidade uma expectativa diária.

Empresas como Mercado Livre, iFood e Amazon investem cada vez mais em entregas em até duas horas, modalidades flash e pagamentos por aproximação justamente para atender a essa demanda. Quanto mais rápido o serviço, maior a chance do consumidor comprar novamente. Como consequência, a satisfação imediata torna-se supervalorizada, influenciando comportamentos impulsivos e reduzindo a tolerância à espera.

Para Fátima, a tecnologia deixou de apenas facilitar a rotina e passou a influenciar a forma como as pessoas constroem expectativas sobre a vida:

“A tecnologia é grande responsável nesse meio, já que a mesma, que deveria estar a serviço do desenvolvimento da humanidade, hoje tornou-se uma ferramenta destruidora justamente por ajudar a criar esse mundo irreal e fictício, que desumaniza, vicia as pessoas.”

Essa distância entre o que se vê online e a vida real cria o que especialistas chamam de “lacuna de expectativa”. Quando o indivíduo não consegue atingir em poucos meses o que vê em um vídeo de 15 segundos, surge um ciclo de autocobrança, raiva e sentimento de injustiça. É nesse ponto que a frustração pode se transformar em revolta contra si mesmo ou contra a sociedade.

Mas, se cada vez mais as pessoas estão sendo induzidas a viver no “agora”, será que ainda sabem esperar pelo “depois”?

É possível reaprender a esperar em um mundo que cobra tudo “para ontem”?

Desacelerar o cérebro parece um contrassenso em uma sociedade acostumada a receber respostas cada vez mais imediatas. No entanto, especialistas defendem que a tolerância à espera pode ser reaprendida.

Para isso, é necessário um trabalho de educação emocional transmitido às novas gerações desde o início do desenvolvimento. O diálogo dentro de casa e, em alguns casos, o acompanhamento psicológico são ações fundamentais para a mudança de hábitos.

Elaine Cardoso aponta que um cenário de mudança é possível com orientação, diálogo e estabelecimento de limites:

“Caso contrário, seremos uma sociedade cada vez mais doente emocionalmente, onde os quadros de depressão e ansiedade ocorrerão com mais intensidade, e os vínculos sociais serão quase inexistentes.”

Os estudos da neurociência apontam a eficiência do método de reeducação em relação ao uso da tecnologia. Segundo a pedagoga Fátima, a formação crítica sobre a era digital torna-se urgente e precisa ser rapidamente implantada. Porém, ela traz à tona a necessidade de mudanças institucionalizadas e obrigatórias na base da sociedade, inclusive com sanções: “Em uma realidade capitalista e consumista, não há esse interesse ou preocupação”, explica.

VEJA MAIS EM ESQUINAS

Do Algoritmo à Sala de Aula: os impactos reais do fenômeno “red pill” nas escolas

A vida em assinaturas: por que tudo virou mensalidade?

Ativismo digital: a nova linguagem da Geração Z

Como o imediatismo digital afeta a capacidade individual de sustentar processos que exigem tempo?

A velocidade do espaço digital muda a forma como as pessoas lidam com a espera. Em plataformas como o TikTok, basta deslizar a tela para receber um novo vídeo em segundos, criando um looping de novidades. Esse padrão faz com que atividades de retorno demorado, como ler um livro ou aprender um instrumento, pareçam menos estimulantes e tediosas quando comparadas à recompensa imediata das redes.

O estudo “Regimes de visibilidade na era das mídias sociais: transformações e continuidades”, publicado na plataforma SciELO, aponta que essas redes incentivam a busca constante por visibilidade e reconhecimento, mudando a maneira como os indivíduos interagem e consomem informações.

Para Fátima Ferreira, esse cenário traz impactos que ultrapassam o ambiente virtual, afetando diretamente as relações humanas:

“É algo péssimo. Prejudica a formação das pessoas, atrapalha a interação e a comunicação entre elas. É como uma nociva ‘lavagem cerebral’ que destrói cada vez mais as relações sociais e os vínculos afetivos, tornando a sociedade cada vez mais doente, isolada, dependente e viciada em plataformas digitais”, afirma.

Em complemento, a psicóloga Elaine Cardoso destaca que esses efeitos também são percebidos no campo emocional: “O imediatismo digital afeta a parte emocional no que diz respeito aos aspectos da paciência, calma e atenção, principalmente o foco”, aponta, destacando fatores que dificultam a permanência da concentração em atividades que exigem dedicação.

De acordo com o artigo “O IMEDIATISMO DA GERAÇÃO DIGITAL E SEUS IMPACTOS NA EDUCAÇÃO”, o uso da tecnologia, aliado ao fortalecimento de habilidades cognitivas e socioemocionais, é apontado como o caminho para promover uma aprendizagem significativa diante das transformações contemporâneas.

Embora a tecnologia tenha transformado a forma de estudar, trabalhar e se relacionar, especialistas defendem que aprender a conviver com a espera será uma habilidade cada vez mais valiosa. Em um cenário dominado pela velocidade, desenvolver pensamento crítico, concentração e equilíbrio no uso das plataformas digitais pode ser um dos principais desafios das novas gerações.

A combinação entre os avanços tecnológicos e os fundamentos pedagógicos tradicionais representa o caminho mais promissor para assegurar uma formação sólida no século XXI.

Editado por Mariana Lima

Encontrou algum erro? Avise-nos.