Midterms e eleições gerais no Brasil: como se relacionam e se influenciam - Revista Esquinas

Midterms e eleições gerais no Brasil: como se relacionam e se influenciam

Por Fábio Soares e Léo Albiero : agosto 11, 2026

Além dos impactos institucionais, as duas eleições compartilham um elemento comum: a influência crescente das redes sociais sobre o debate político. Foto: BarBus/Pixabay

Eleições nos EUA podem influenciar o cenário brasileiro e redefinir os rumos do trumpismo e do bolsonarismo em 2026

Previstas para o dia 3 de novembro, as Midterms renovam todas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e um terço do Senado americano, além de cargos estaduais, como governos e legislaturas locais. É justamente por isso que elas funcionam como o principal mecanismo de freios e contrapesos da democracia americana: permitem ao eleitor alterar a composição do Legislativo no meio do caminho, sem esperar quatro anos, ampliando ou reduzindo a capacidade do presidente de governar com maioria própria.

Esse cálculo de forças faz com que Caio Mello, jornalista pós-graduado em Ciência Política e editor de Economia do Canal Meio, classifique as Midterms como um termômetro decisivo para o governo Trump.

“Se os republicanos mantiverem a maioria, isso funcionará como uma chancela para que Trump continue governando nos próximos dois anos da mesma forma que governou nos primeiros. Nesse cenário, a tendência é a continuidade das incertezas, das disputas comerciais, dos conflitos diplomáticos e da tensão internacional. Já uma vitória democrata, com recuperação de parte do Legislativo, limitaria a capacidade de ação de Trump. Ele provavelmente continuaria usando uma retórica agressiva, mas encontraria mais obstáculos institucionais para transformar esse discurso em medidas concretas”.

“Existe ainda a possibilidade de ele contestar resultados e aumentar a tensão política interna, algo que já vimos acontecer após as eleições de 2020. Portanto, uma derrota republicana poderia levar Trump a elevar o tom do discurso, mas reduzir sua capacidade prática de implementar determinadas ações. Isso teria reflexos indiretos em vários países, inclusive no Brasil”, conclui Mello.

O resultado das Midterms também pode acelerar uma mudança em curso dentro do trumpismo, segundo Caixeta. Há uma expectativa de avanço democrata que sinalizaria vantagem para a disputa presidencial de 2028, e um dos principais temores republicanos é a hipótese de sucessão por JD Vance, vice-presidente sem o mesmo carisma midiático do presidente, mas visto como ainda mais conservador. Questionado se seria o sucessor natural do partido, Nathan Caixeta, mestre em Desenvolvimento Econômico pela Unicamp, foi direto: “É o que está sendo preparado.”

A nova face do trumpismo

Vance encarna, para ele, o avanço do chamado neo-reacionarismo dentro do governo: uma corrente que combina conservadorismo radical com uma aliança estratégica entre poder político e bilionários da tecnologia. Diferentemente do nacional-populismo de 2016, ligado a Steve Bannon e à alt-right, essa vertente aposta em uma reforma conduzida pelo alto da sociedade, unindo desenvolvimento tecnológico a um discurso de “limpeza moral”. Ganhou força, segundo Caixeta, por unir radicalismo ideológico à proximidade com as grandes empresas, o que torna Vance, ligado ao grupo há anos, seu herdeiro natural.

O espelho internacional

Embora aconteçam em países diferentes e com poucas semanas de intervalo — as eleições gerais brasileiras ocorrem entre 4 e 25 de outubro —, as duas disputas compartilham protagonistas, discursos e interesses políticos. O resultado da eleição americana pode influenciar diretamente a narrativa da direita brasileira, especialmente pela proximidade entre o trumpismo e o bolsonarismo.

Para Caio Mello, a volta de Trump à Casa Branca em 2025 devolveu ao bolsonarismo um aliado internacional importante.

“O fato de Donald Trump ocupar a presidência dos Estados Unidos dá uma certa legitimidade ao bolsonarismo. Ele deixa de parecer um movimento isolado e passa a ter um espelho internacional”.

Cada país tem sua realidade, mas o jornalista lembra que a cartilha da extrema direita se repete em lugares como a Hungria de Orbán e a Índia, com o apelo a um passado idealizado: nos EUA, o “Make America Great Again”; no Brasil, a nostalgia do bolsonarismo pela ditadura militar.

O peso do apoio de Trump

As eleições brasileiras deste ano chegam com uma disputa entre dois principais favoritos: Lula e Flávio Bolsonaro. Segundo a pesquisa Futura/Apex, realizada entre os dias 8 e 12 de junho, o atual presidente do Brasil, Lula, tem 48,1% das intenções de voto, contra 42,9% do senador Flávio Bolsonaro em uma simulação do segundo turno.

Apesar da proximidade ideológica, o apoio de Trump não traz apenas vantagens a Flávio Bolsonaro. Segundo Mello, a associação ao presidente americano pode gerar desgaste eleitoral: uma pesquisa recente da AtivaWeb Datalab mostrou que cerca de 78% das menções a episódios envolvendo Trump e os Bolsonaro nas redes foram negativas — índice alto mesmo considerando a polarização do debate brasileiro.

“O brasileiro costuma reagir mal à ideia de interferência estrangeira. Existe uma percepção de que os problemas do Brasil devem ser resolvidos pelos próprios brasileiros”.

Para o jornalista, o desafio do candidato bolsonarista é equilibrar o apoio de Trump sem transmitir submissão aos interesses norte-americanos. “Uma coisa é defender boas relações com os Estados Unidos. Outra muito diferente é transmitir uma imagem de dependência ou entreguismo”, diz. Entre os dias 25 e 28 de maio, Flávio visitou a Casa Branca e pediu que facções criminosas fossem classificadas como terroristas pelos EUA. Dias depois, veio o tarifaço contra o Brasil e um ataque direto ao Pix — episódios que tiveram recepção negativa entre eleitores e levaram o próprio Flávio a escrever a Trump pedindo que não impusesse mais tarifas.

A disputa por trás do Pix

O ataque ao Pix esconde uma disputa mais profunda do que parece. Para Caixeta, o incômodo americano não é com a taxa cobrada por transação, mas com o controle dos dados: bandeiras como Visa e Mastercard têm na informação, não na tarifa, seu ativo mais valioso, e um sistema público tão eficiente quanto o Pix reduz a capacidade dessas empresas de controlar esse fluxo. A preocupação cresce com a possibilidade de o modelo se espalhar pelo BRICS, retirando parte da economia mundial das estruturas ligadas ao sistema financeiro americano. “É isso que gera preocupação”, resume.

Ainda assim, ele acredita que a disputa deve seguir o roteiro de outras queixas comerciais recentes: tensão inicial, discurso duro e, depois, negociação — uma escalada permanente tende a custar mais caro aos próprios Estados Unidos.

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Política como identidade

Além dos impactos institucionais, as duas eleições compartilham um elemento comum: a influência crescente das redes sociais sobre o debate político. Para Caio Mello, os algoritmos reforçam bolhas ideológicas e dificultam o diálogo entre grupos com visões diferentes. “A política deixa de ser apenas uma disputa de ideias e passa a se tornar uma identidade”, afirma.

Essa lógica não fica restrita à direita: Caixeta lembra que o próprio racha entre Trump e Elon Musk nasceu da mesma cultura de enfrentamento. “Dois bicudos não se beijam”, resume — divergências que antes seriam resolvidas em uma reunião hoje viram guerra pública nas redes.

Caixeta acredita que esse padrão deve se repetir depois de novembro, independentemente do resultado: Trump tende a moderar o tom em temas com maior apoio popular, mas pode aumentar a agressividade onde ainda vê espaço para demonstrar força, sobretudo na política externa. “Tudo vai depender do tamanho das dificuldades internas que ele encontrar após as Midterms”, resume o economista.

Quando as urnas americanas abrirem, os brasileiros já terão escolhido seu próximo presidente — mas o resultado eleitoral nos EUA chega a tempo de pesar sobre os dois meses de transição até a posse, em janeiro de 2027, ajudando a definir o tom com que trumpismo e bolsonarismo vão continuar a se observar e a se influenciar.

Editado por Enzo Cipriano

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