No coração da guerra: o olhar de jornalistas que cobriram conflitos internacionais - Revista Esquinas

No coração da guerra: o olhar de jornalistas que cobriram conflitos internacionais

Por João Vitor Scavacin : julho 8, 2026

Em meio à guerra, chega um momento em que já não há mais abrigo, comida, água ou rota segura. Foto: Baraa Obied/Pexels

Relatos de correspondentes revelam como a guerra transforma a rotina e coloca jornalistas diante de riscos constantes

O jornalismo costuma ser lembrado pelas imagens que chegam à televisão, às capas dos jornais e às notificações no celular. Antes disso, porém, existe o trabalho de profissionais que atravessam fronteiras, convivem com bombardeios, sirenes e deslocamentos forçados para registrar acontecimentos que mudam a história. Em cenários marcados pela violência e pela incerteza, o correspondente internacional precisa informar enquanto também enfrenta os mesmos riscos da população ao seu redor.

As guerras entre Israel e Hamas e entre Rússia e Ucrânia colocaram esse desafio novamente em evidência. A partir dos relatos de Denise Odorissi, Mathias Brotero, João Alencar e Leandro Stoliar, esta reportagem apresenta os bastidores da cobertura jornalística em zonas de conflito e mostra como esses profissionais conciliam o compromisso de informar com decisões que envolvem segurança, ética e sobrevivência.

Da rotina à guerra

Quando o conflito entre Israel e Hamas ganhou uma nova dimensão em outubro de 2023, Denise Odorissi já morava em Tel Aviv como correspondente internacional da Record. O cenário de tensão, que até então fazia parte do cotidiano da região, passou a integrar também sua rotina profissional, colocando a jornalista diante da cobertura mais desafiadora de sua carreira.

Desde muito cedo, Denise sonhava em trabalhar com jornalismo internacional, mas atuar no coração de um conflito nunca esteve em seus planos.

“Mas eu sempre me interessei pelas guerras, como boa editora de internacional, porque as guerras moldam a história do mundo”, contou a jornalista.

Porém, a correspondente não sabia o que estava por vir nos dias que antecederam outubro de 2023. Cerca de três meses antes do ataque do Hamas contra Israel, Denise presenciou foguetes cruzando o céu da região onde morava. O episódio acabou se tornando uma prévia das mudanças que viveria meses depois. Segundo a jornalista, naquele momento tudo pareceu um “alarme falso”, já que nada “demais” aconteceu.

“Quando você mora no Oriente Médio, você sabe que pode… tecnicamente, o Oriente Médio é um lugar em guerra. Israel está em guerra com vários países”, destacou Denise.

A experiência deixou a jornalista em alerta. Naquele momento, ela pensou:

“Pronto, já vi como é que é, então tá, tudo bem, na próxima vez eu já não vou ficar tão nervosa. Só que aí, a próxima vez, já foi a guerra.”

Guerra

Denise Odorissi
Foto: Divulgação/Denise Odorissi

As primeiras sirenes

No dia anterior ao ataque, Denise retornava de férias, enquanto sua equipe permanecia em recesso.

Ao chegar em Tel Aviv, foi direto para casa descansar. Na manhã seguinte, acordou assustada com um som que não esperava: as sirenes tomavam conta da região. Mesmo cedo, era impossível ignorá-las.

Em seguida, pegou o celular para entender o que estava acontecendo.

“Nossa, é sirene, é ataque.”

Imediatamente, Denise correu para um pequeno quarto sem janelas em seu apartamento, utilizado como abrigo. Durante cerca de um minuto e meio, permaneceu protegida enquanto acompanhava pelo celular as primeiras informações que surgiam.

A jornalista lembra de ter visto uma sequência de notícias, publicações nas redes sociais e mensagens particulares relatando o que acontecia em Israel.

“Invasão ao território, os kibutzim atacados, a festa de não sei o que. Gente, o que está acontecendo?”, recordou.

Pouco depois, veio o pronunciamento do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, informando que o país estava em guerra contra o Hamas.

Segundo Denise, naquele instante ficou claro que sua rotina mudaria completamente.

“Aí, nesse momento, quer dizer, o primeiro-ministro oficialmente declara que está em guerra. Então, bom, vamos cobrir uma guerra.”

Você está preso àquilo

Há uma diferença entre o jornalista enviado temporariamente para uma cobertura e aquele que vive no local onde o conflito acontece. Denise morava em Tel Aviv. Não havia a perspectiva de permanecer apenas alguns dias na região e depois retornar ao Brasil. Sua casa, sua rotina e sua vida estavam ali.

“Não dá, você está numa guerra, não tem descanso e não tem perspectiva de sair, não tem perspectiva de acabar aquilo”, enfatizou.

Ao descrever aquele momento, Denise explicou que sua preocupação ia além do trabalho.

“Se a casa cair mesmo, eu vou ter que sair correndo daqui. Eu vou sair com a minha mochila e com a minha cachorra. E vou deixar toda a minha vida para trás, porque eu moro aqui.”

Depois de deixar o quarto onde havia se protegido, a jornalista saiu em busca de equipamentos de segurança, como coletes à prova de balas e capacetes. Também reuniu os equipamentos de trabalho necessários para transmitir informações, entre eles câmeras e gravadores.

Pouco tempo depois, precisaria entrar ao vivo.

“E eu tinha vida pessoal. Tinha que dar um jeito com a minha cachorra, que ia ficar sozinha. E, assim, em uma hora e meia eu estava ao vivo no jornal da manhã.”

Luz, câmera e ação: “40 pessoas invadiram o território, 300 mortos”

No túnel da morte

No mesmo conflito entre Hamas e Israel, o jornalista Mathias Brotero, baseado em Washington, D.C., chegou como correspondente internacional a Tel Aviv em 9 de junho de 2024. Após diversos bombardeios e alertas relacionados ao conflito, Mathias enfrentou situações que o levaram até o chamado túnel da morte.

Guerra

Mathias Brotero
Foto: Divulgação/Mathias Brotero

Certo dia, Mathias voltava para casa, no bairro árabe de Jaffa, em Tel Aviv, após produzir uma pauta, quando foi surpreendido por um ataque armado. O jornalista viu agentes de segurança e tropas israelenses mobilizados na busca pelos autores da ação, que abriram fogo contra um bonde e mataram cerca de oito pessoas.

“Era uma situação de muita tensão. A gente corria junto com as forças de segurança, tentando entender o que tinha acontecido e se os criminosos tinham sido mortos ou não”, afirmou.

Tripé armado, câmera ligada, jornalista no enquadramento e tudo pronto para entrar ao vivo. Mathias relatava ao público brasileiro o ataque que havia acabado de acontecer em Tel Aviv. Enquanto isso, o cinegrafista que gravava a passagem do repórter rapidamente direcionou a câmera para o céu. Segundo Mathias, foguetes ou interceptadores do sistema de defesa israelense cruzavam a região. Naquele momento, ocorreu o segundo ataque do Irã contra Israel. Cerca de 200 mísseis foram lançados em direção ao país.

“De um ataque armado, passei a cobrir o segundo ataque do Irã contra Israel”

Em seguida, o repórter e o cinegrafista correram para um abrigo após o toque da sirene. Primeiro, entraram em um açougue, onde permaneceram por alguns minutos junto com outras pessoas que também buscavam proteção.

“Daí saímos de lá, tocou a sirene de novo, a gente foi para outro abrigo, debaixo de uma escada, em outro lugar. Saímos de lá e aí, sim, conseguimos encontrar um abrigo dentro de um bunker, em um prédio. Você tem um ataque em Tel Aviv e, desse ataque, cerca de 20 minutos depois, você está cobrindo o ataque do Irã”, relembrou.

O acesso ao túnel

Diversos jornalistas entraram na Faixa de Gaza durante a cobertura da guerra, mas Mathias Brotero foi o único repórter brasileiro a chegar ao chamado túnel da morte, uma área de acesso extremamente restrito.

“Durante essa cobertura, eu me arrisco a dizer que fui certamente o único repórter brasileiro a chegar nesse túnel”, afirmou.

A jornada de Mathias até o local começou em uma base militar localizada a poucos quilômetros de Gaza. De lá, seguiu para Rafah, no sul do território palestino, uma das regiões mais afetadas pelos combates. No local, teve acesso a um túnel identificado pelo Exército israelense. O percurso incluía cerca de 20 metros até o ponto mais baixo, seguido por um corredor que levava a uma porta bloqueada.

Segundo o Exército israelense, as passagens subterrâneas eram utilizadas pelo Hamas para diferentes operações, incluindo o transporte de armamentos. O túnel fica na divisa entre o Egito e a Faixa de Gaza.

No interior do túnel, Mathias se deparou com uma cena que marcaria sua experiência como correspondente de guerra. Segundo o jornalista, no local estavam os corpos de seis reféns capturados durante o ataque de 7 de outubro de 2023.

“Tudo isso acontece porque você tem um correspondente naquele lugar”, disse Mathias.

Por questões de segurança, ele não pôde descer completamente até o interior da estrutura. Ainda assim, relatou a intensidade da experiência.

“No momento em que você cobre uma pauta dessas, a adrenalina está a mil. Então você tem um grande objetivo, que é aquela cobertura. Você tem pouco tempo para fazer aquela cobertura porque, como é um lugar perigoso, um lugar em guerra, ainda que você esteja cercado de agentes de segurança, você entra, grava e sai.”

“No fim, somos uma grande classe que tem um grande objetivo: cobrir a notícia”

De Tel Aviv a Kiev: um ano antes

A mais de 2 mil quilômetros do conflito narrado anteriormente, estava o repórter especial da emissora francesa BFM-TV e autor do livro Ao Vivo da Ucrânia, João Alencar, a caminho de Kiev, capital da Ucrânia.

Mais de um ano antes do ataque do Hamas contra Israel, em 7 de outubro de 2023, outro acontecimento marcava o cenário internacional. Em 24 de fevereiro de 2022, a Rússia iniciou uma ofensiva militar contra a Ucrânia, incluindo bombardeios à capital, Kiev. A partir daquele momento, o conflito ganhou uma nova dimensão e passou a mobilizar jornalistas de diferentes países.

Era 23 de fevereiro de 2022 quando João Alencar embarcou de Paris rumo a Moscou como enviado especial da BFM-TV. O jornalista chegava à Rússia em um momento de crescente tensão entre Moscou e Kiev. Apesar disso, muitos analistas ainda acreditavam que, caso um conflito se concretizasse, ele teria curta duração.

Hospedado em um hotel na capital russa ao lado de outros jornalistas, João havia dormido por apenas algumas horas quando acordou e ligou a televisão.

“Pulo da cama e olho pela janela do 23º andar do hotel em Moscou. A capital russa nunca pareceu tão tranquila. Ligo a TV, eis a imagem do presidente Vladimir Putin em praticamente todos os canais”, contou.

Em pronunciamento transmitido nacionalmente, Vladimir Putin afirmou que a ofensiva tinha como objetivo “desmilitarizar e desnazificar a Ucrânia“, justificando a ação pela situação no leste ucraniano.

Donbass: “Lado errado da guerra”

Após as primeiras 24 horas da ofensiva, João percebeu que estava, como definiu, “do lado errado” da fronteira.

Imediatamente, ele e o jornalista Jérémie Paire, que o acompanhava na cobertura, entraram em contato com a redação e se colocaram à disposição para seguir até Kiev.

A primeira reação do editor foi de hesitação.

“Vocês têm certeza?”

Minutos depois, veio a resposta.

“Parem tudo o que estiverem fazendo e sigam para o aeroporto. Há um voo para Varsóvia no início da noite, em quatro horas. É possível?”

João voltou ao hotel, pegou as malas e retornou ao aeroporto, onde havia desembarcado apenas dois dias antes.

No dia seguinte surgiu a solução. Em 26 de fevereiro, embarcou de Moscou para Viena e, depois, seguiu para Varsóvia. Da capital polonesa, ele e um colega partiram de carro rumo a Kiev, em uma viagem de aproximadamente 800 quilômetros.

“Era a nossa última noite tranquila, sem sirenes. Em paz”, recordou.

Enfim, em Kiev

Nos primeiros sessenta minutos em Kiev, João ouviu três sirenes e cinco explosões ao longe.

Ele atravessou a cidade em direção a um hotel próximo à Praça Maidan, onde vários jornalistas estrangeiros estavam hospedados.

“A lembrança da vida ordinária que seguia em Moscou era o oposto da Kiev que se barricava, vazia, sem vida cotidiana, quase silenciosa”, relatou.

Com o passar dos dias, não descer aos bunkers a cada sirene tornou-se uma prática comum entre muitos jornalistas hospedados no local. Na prática, os alertas eram tão frequentes que, se fossem buscar abrigo a cada novo alarme, passariam grande parte do tempo confinados.

“Somos jornalistas, em guerra, não podemos esquecer nosso papel”

A partir das 20h, horário em que entrava em vigor o toque de recolher na capital, João planejava suas entradas ao vivo no estacionamento interno do hotel.

Às 21h, enquanto estava no nível da rua, uma explosão fez o chão tremer. Todos se assustaram. Era a primeira vez que ouviam um impacto tão próximo.

João desceu para o subsolo do prédio e buscou informações em grupos ucranianos no Telegram.

As primeiras informações oficiais indicavam que o alvo havia sido a estação ferroviária central de Kiev, que estava vazia devido ao toque de recolher. Horas depois, o governo ucraniano informou que o míssil russo provavelmente tinha como alvo um prédio do Ministério da Defesa, localizado nas proximidades da estação, mas acabou sendo desviado pelo sistema de defesa antiaéreo da capital. O projétil caiu a poucos metros da principal estação ferroviária da cidade, em mais um episódio que marcou os primeiros dias da guerra.

“Quando o ataque vem do céu, ninguém está protegido. Nem mesmo as crianças. Nem mesmo os hospitais. São duas guerras pela vida”, enfatizou o jornalista.

Guerra

João Alencar
Foto: Divulgação/João Alencar

“Grava que a gente vai morrer”

Continuamos em 2022, ano em que o jornalista Leandro Stoliar, enviado especial do Jornal da Record, mergulhou na cobertura da guerra entre Rússia e Ucrânia. Em Mariupol, uma das cidades mais afetadas pelos combates, Leandro viveu momentos dramáticos. Em um deles, tomado pelo desespero, virou-se para o cinegrafista e disse:

“Começa a gravar, porque a gente vai morrer.”

Mas, antes de enfrentar o risco de vida, ele percorreu um longo caminho. Tudo começou com uma ideia.

Leandro dedicou parte de sua carreira a estudar as tensões entre Rússia e Ucrânia — países historicamente marcados por disputas que, mais tarde, culminariam na guerra. Em determinado momento, procurou seu editor-chefe para propor uma série de reportagens diretamente da Ucrânia, destacando a relevância jornalística do contexto de instabilidade vivido pela região.

A reação inicial foi de dúvida.

“Mas o que você vai fazer na Ucrânia? O que tem na Ucrânia?”

Leandro reuniu fontes, dados e informações para justificar a pauta. O projeto foi analisado pela direção de jornalismo da emissora e, dois meses depois, recebeu aprovação.

O jornalista chegou a Mariupol dez dias antes do início da guerra e permaneceu na Ucrânia durante 22 dias.

“Ninguém sabia que haveria uma guerra. Ninguém sabia se Putin realmente invadiria o país em pleno século 21. Então, nesses dez dias, consegui mostrar uma Ucrânia que ninguém viu. Que os outros repórteres não conseguiram mostrar.”

Durante esse período, percorreu cidades como Kiev, Kharkiv e Zaporizhzhia. Estava em Mariupol quando começaram os ataques russos e foi o único repórter brasileiro presente na cidade naquele momento.

“Mariupol hoje é uma cidade devastada. Não existe mais. Saiu do mapa. Foi destruída pela guerra”

Na manhã de 24 de fevereiro, por volta das cinco horas, Leandro dormia em um hotel em Mariupol, cidade localizada próxima à fronteira. Diversos jornalistas internacionais também estavam hospedados no local.

De repente, foi acordado às pressas por uma pessoa que exigia sua saída imediata do edifício.

A justificativa era urgente.

“Disseram que eu precisava sair do hotel imediatamente porque a Rússia estava invadindo o país”, contou.

Naquele momento, o presidente russo, Vladimir Putin, havia anunciado o início da ofensiva militar contra a Ucrânia.

Leandro já estava com as malas prontas, preparado para uma eventual emergência. Ao deixar o hotel, encontrou os primeiros sinais da guerra.

“Era muito próximo. Dava para ver os mísseis cruzando o céu bem acima do prédio. Mísseis, caças, tiros… enfim, tudo o que se pode imaginar. O pacote completo”, relatou.

Sem capacete, colete balístico, motorista ou qualquer outro equipamento de proteção, o jornalista viu-se diante de um dilema.

Fazer a reportagem ou sobreviver.

Para Leandro, não havia dúvida.

“Essa é a principal missão de um correspondente de guerra. Repórter morto não faz matéria.”

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Dias antes, Leandro havia contratado um motorista local, confiando em seu conhecimento da região. Quando a situação se agravou, pediu ao tradutor que ligasse para ele.

Era hora de sair da cidade.

Após diversas tentativas, nenhuma resposta.

O silêncio aumentava a tensão.

Em um momento de desespero, Leandro virou-se para o cinegrafista.

“Olha, a gente vai morrer. Se prepare, porque a gente vai morrer. Começa a gravar, porque a gente vai morrer.”

Sem equipamentos de proteção, impulsionado apenas pela necessidade de registrar o que acontecia, Leandro começou a percorrer as ruas narrando o cenário ao redor: jovens armados com fuzis, caças sobrevoando a cidade, mísseis cruzando o céu e disparos por diferentes pontos.

Dez minutos se passaram até que o motorista atendesse à ligação. Para o jornalista, porém, a espera pareceu durar muito mais.

Durante a conversa, Leandro ofereceu 500 euros para que o motorista buscasse sua equipe.

“Quando a guerra começa, você percebe que o dinheiro não serve para nada. Está tudo fechado, nada funciona. Dinheiro só serve para queimar”, refletiu.

Quando o carro finalmente chegou, em meio aos disparos, o motorista levou a equipe até Zaporíjia, cidade localizada a cerca de uma hora de Mariupol.

Como o aeroporto já havia sido atingido, eles seguiram até a estação ferroviária. De lá, viajaram para Kiev.

“Graças a esse cara, a gente sobreviveu”, afirmou.

Guerra

Leandro Stoliar
Foto: Divulgação/Leandro Stoliar

Hora de ir embora

Em meio à guerra, chega um momento em que já não há abrigo, comida, água ou uma rota considerada segura.

Para Leandro Stoliar, esse foi o momento de deixar a Ucrânia.

A produção da Record, em São Paulo, conseguiu localizar um trem que seguia em direção à Polônia.

Leandro embarcou e passou cerca de 24 horas sem comer nem dormir.

Dentro do vagão, o uso de celulares era proibido. Caças sobrevoavam a região e qualquer luz ou ruído poderia denunciar a localização do trem.

Sempre que uma aeronave era identificada nas proximidades, os maquinistas interrompiam a viagem.

O trem permanecia parado sobre os trilhos.

Durante essas pausas, passageiros deitavam no chão e permaneciam em silêncio absoluto, na tentativa de evitar qualquer identificação.

O vagão estava lotado.

Entre adultos e crianças, o medo era evidente.

Após cruzar a fronteira, Leandro permaneceu cinco dias na Polônia antes de retornar ao Brasil.

Sua cobertura chegava ao fim.

Para ele, era a volta para casa.

Para muitas famílias que estavam naquele trem, porém, a viagem representava apenas o início de uma nova vida marcada pela incerteza.

Ainda assim, permaneciam vivas.

Naquele momento, isso bastava.

Editado por Enzo Cipriano

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