Com as câmeras desligadas, Xi Jinping alerta Trump sobre Taiwan e reforça a tensão da guerra tecnológica sino-americana
No último encontro diplomático entre China e Estados Unidos, ocorrido em 14 de maio, em Pequim, o presidente chinês, Xi Jinping, discursou sobre a cooperação entre as duas potências globais diante de suas relações econômicas:
“Nossos interesses em comum superam nossas diferenças. Devemos ser parceiros, não adversários. Buscando sucesso mútuo e prosperidade, abrimos um novo caminho para a coexistência entre grandes potências nesta nova era”.
Entretanto, longe dos discursos protocolares e em um clima menos amistoso, Xi Jinping relembrou Donald Trump do possível conflito envolvendo a relação dos Estados Unidos com Taiwan. Em um encontro marcado por simbolismos e possíveis avanços geopolíticos, fica a pergunta: seria possível romper as relações da potência norte-americana com a nação taiwanesa?
A Guerra dos Chips: um confronto sino-americano
O que está em jogo no centro das discussões geopolíticas entre Estados Unidos e China não é apenas uma disputa armamentista ou territorial, mas a hegemonia tecnológica. Taiwan se tornou o núcleo do confronto pelo “novo petróleo” da guerra tecnológica: o chip.
Entre diversos acordos que convergem para os interesses das duas superpotências, como a criação de um Conselho de Investimentos e de um Conselho de Comércio — destinados a identificar setores estratégicos de investimento e reduzir barreiras tarifárias, respectivamente —, a questão dos semicondutores ainda permaneceu em aberto no encontro em Pequim.
A China busca a autossuficiência tecnológica e vê Taiwan como peça central nessa disputa. Além da indústria de semicondutores, o cientista político Maurício Santoro destaca a importância estratégica da ilha para as rotas marítimas globais:
“Taiwan também é muito importante do ponto de vista da navegação global. Taiwan fica exatamente no coração do Mar do Sul da China, que atualmente é a rota mais importante do comércio marítimo internacional. Então, quem controla Taiwan tem uma posição geográfica privilegiada para controlar também essas rotas marítimas”.
O conflito sino-americano, intensificado desde a década de 2010, após a revelação da dependência chinesa de tecnologias estrangeiras para a produção de semicondutores, parece estar longe de acabar. Mesmo respondendo por cerca de 20% da fabricação mundial de semicondutores, a China ainda depende de tecnologias holandesas, japonesas e taiwanesas, além de enfrentar restrições de exportação impostas pelos Estados Unidos.
Enquanto busca reduzir sua dependência externa, a China tenta manter sua integração ao mercado global. Os Estados Unidos seguem caminho semelhante ao ampliar sua produção doméstica com projetos como a Fab 21, no Arizona.
“Os americanos estão investindo muito em fortalecer a sua indústria doméstica do microchip. Inclusive, pressionaram muito as indústrias de Taiwan para construírem fábricas de microchips nos Estados Unidos”, ressaltou Maurício.
A relação comercial dos EUA com Taiwan
Embora a relação entre Estados Unidos e Taiwan seja extraoficial, definida na diplomacia como uma relação de ambiguidade estratégica, os laços econômicos entre os dois países permanecem sólidos e ajudam a explicar a sensibilidade das declarações de Xi Jinping para Washington.
Em 1979, com a transferência do reconhecimento diplomático americano de Taiwan para Pequim, o Taiwan Relations Act estabeleceu as bases para um relacionamento não oficial entre Estados Unidos e Taiwan. Ainda assim, a legislação determinou que qualquer ameaça à ilha seria considerada uma preocupação dos Estados Unidos, que manteriam mecanismos para garantir sua autodefesa.
“Não há um tratado de defesa, mas o Taiwan Act de 1979 determina que os EUA mantenham a capacidade de autodefesa taiwanesa, ao mesmo tempo que rejeitam a possibilidade de uma mudança de status na ilha. Essa ambiguidade serve aos interesses dos EUA”, afirmou o doutor em Relações Internacionais José Antônio Geraldes Graziani.
Ainda em 2026, os Estados Unidos e a República da China (Taiwan) firmaram o Acordo de Comércio Recíproco, uma parceria econômica bilateral voltada à facilitação das trocas comerciais entre os dois países. O pacto prevê a redução de barreiras alfandegárias, o aumento de investimentos e a ampliação do acesso de produtos norte-americanos ao mercado taiwanês.
O acordo é apontado como um dos mais estratégicos da trajetória comercial recente das duas nações. Taiwan abriga uma das mais importantes indústrias de semicondutores do mundo. Cerca de 90% dos semicondutores avançados são fabricados pela TSMC (Taiwan Semiconductor Manufacturing Company).
Na prática, isso significa que uma parcela significativa da produção global de chips e microprocessadores — utilizados em celulares, automóveis e equipamentos eletrônicos — está concentrada em uma única região do planeta.
As Big Techs americanas mantêm forte dependência da indústria taiwanesa. Apple, Tesla e Microsoft, por exemplo, utilizam chips produzidos na ilha. A questão ganha ainda mais relevância quando se observa que, entre os convidados de Donald Trump presentes no Grande Salão do Povo, estavam Elon Musk, CEO da Tesla, e Tim Cook, diretor-executivo da Apple.
China x Taiwan: um conflito histórico
Com os conflitos recentes entre China e Taiwan, é impossível ignorar a bagagem histórica que sustenta essa disputa.
Mas como surgiu a rivalidade entre as duas nações?

Primeira guerra Sino-Japonesa, soldados japoneses.
Foto: Wikimedia
Taiwan ainda busca ampliar o reconhecimento internacional de sua soberania, sendo reconhecida oficialmente por apenas 12 países. A ligação da ilha com a China remonta a 1885, quando o Império Qing incorporou Taiwan como província.
Em 1895, após a Primeira Guerra Sino-Japonesa, Taiwan passou ao controle japonês pelo Tratado de Shimonoseki. A ilha retornaria ao domínio chinês apenas em 1945, após a derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial.
Em 1949, após a Guerra Civil Chinesa, o Partido Comunista Chinês (PCC), liderado por Mao Tsé-Tung, fundou a República Popular da China. O partido nacionalista Kuomintang (KMT), liderado por Chiang Kai-shek e apoiado pelos Estados Unidos, refugiou-se em Taiwan, onde manteve a estrutura da República da China.
Atualmente, Taiwan não integra a Organização das Nações Unidas (ONU), que reconhece a República Popular da China como representante legítima da China.
Em 2005, Pequim aprovou a chamada Lei Antissecessão, que reafirma Taiwan como parte inalienável do território chinês sob o princípio de “Uma Só China”. A legislação também autoriza o uso de meios não pacíficos caso haja uma tentativa formal de independência da ilha.
Em 2022, autoridades chinesas voltaram a citar a Lei Antissecessão ao criticar a aproximação entre Washington e Taipei.
Diferentemente de Joe Biden, que se mostrava mais disposto a defender militarmente Taiwan em caso de conflito, Trump tem mantido um discurso contrário à independência formal da ilha, apesar dos fortes laços econômicos entre os dois parceiros.
Na época, Xi Jinping reforçou o alerta de que questionar a soberania territorial chinesa seria “brincar com fogo”:
“Aqueles que brincam com fogo só vão se queimar. Espero que o lado dos EUA possa ver isso claramente.”
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A Armadilha de Tucídides
Com um acordo em discussão com Taiwan e possíveis avanços diplomáticos com sua principal adversária, os Estados Unidos se encontram diante de um dilema geopolítico delicado: entrar em conflito com seu maior concorrente na corrida pela hegemonia tecnológica ou comprometer uma relação econômica estratégica com o principal polo mundial de semicondutores.
Nesse contexto, o discurso de Xi Jinping sobre evitar uma Armadilha de Tucídides parece cada vez mais distante da realidade.
O conceito, inspirado na análise do historiador grego Tucídides sobre a Guerra do Peloponeso, sustenta que o temor de uma potência estabelecida diante da ascensão de uma potência emergente pode tornar um conflito praticamente inevitável.
O encontro em Pequim não apenas expôs a dependência norte-americana do mercado chinês, que ainda não encontrou um substituto à altura para suas importações, como também gerou reflexos econômicos imediatos, incluindo turbulências nos mercados financeiros.
Entre os acordos que buscavam solucionar as tensões provocadas pelo tarifaço, um fenômeno histórico da política internacional parece ganhar forma: a disputa entre uma potência hegemônica e uma potência emergente.
Sobre a reorganização da hegemonia estadunidense no cenário global, o economista Nathan Caixeta afirmou:
“Quando se senta para conversar, hoje, as outras potências militares têm condição de falar: ‘opa, eu não vou entrar nesse jogo, vai ter que negociar’. E, na verdade, nesses termos, os Estados Unidos viram que a sua capacidade bélica já foi empatada em muitos setores, ao que se tem disponível no mundo”.