Há 33 anos, acontecia o primeiro jogo da principal liga de futebol profissional japonesa, a J.League. No Estádio Nacional do Japão, Verdy Kawasaki (atual Tokyo Verdy) e Yokohama Marinos (atual Yokohama F. Marinos) se enfrentaram em um clássico que marcaria a história esportiva do país com a profissionalização do futebol.

Logo da J.League
Foto: Divulgação/J.League
A REINVENÇÃO DO FUTEBOL JAPONÊS
Em um país em que o beisebol é o esporte mais popular, o futebol permaneceu de lado por um longo período. Antes da inauguração da J.League, em 1993, já existia, desde 1965, a JSL (Japan Soccer League), uma liga de futebol amadora composta por times exclusivamente corporativos e jogadores que também eram funcionários dessas empresas. Fujitsu FC, Shin-Mitsubishi Heavy Industries, Mazda SC e Yomiuri SC são alguns dos nomes dos antigos clubes.
Em 1990, surgiu a ideia de consolidar uma liga profissional que fosse diferente do modelo do beisebol. Ao invés de times corporativos, haveria uma identificação regional entre torcedores e clubes. Assim, em 1991, foi registrada a Japan Professional Football League (conhecida como J.League). Não seria permitido que empresas fossem donas dos clubes, nem que seus nomes estivessem incluídos nas equipes. A partir disso, em 1992, a J.League foi formada por dez clubes que cumpriram as exigências: Verdy Kawasaki, Kashima Antlers, Yokohama Marinos, Shimizu S-Pulse, JEF United Ichihara, Sanfrecce Hiroshima, Yokohama Flügels (que não existe mais), Gamba Osaka, Nagoya Grampus Eight e Urawa Reds. A JSL mudou seu nome para JFL (Japan Football League) e, ainda amadora, passou a servir como segunda divisão do futebol japonês.

Mudança de nome dos times.
(Imagem feita no Canva)
O fim do futebol corporativo deu início a um futebol comunitário, cheio de identidade cultural e regional, fundamental para o crescimento do esporte no país, como afirma Tiago Bontempo, jornalista especializado em futebol japonês e autor do livro “Samurai Azul”.
“A ideia era fazer algo diferente do beisebol. Eles queriam tirar essa imagem dos times corporativos e fazer com que os japoneses torcessem para o time da região. O próprio criador da liga, Saburo Kawabuchi, falava que queria criar uma ‘revolução social’. Nisso, os japoneses também aprenderam a torcer por futebol, então foram estudando o futebol estrangeiro e acabaram sendo muito influenciados pelas torcidas brasileiras, argentinas e europeias.”
Com o aumento da popularidade do futebol, os japoneses começaram a aprender como torcer pelo esporte, já que antes não existia essa cultura de torcida. Aos poucos, passaram a pesquisar e estudar mais sobre o assunto, sendo muito influenciados pelas torcidas brasileiras, argentinas e europeias. Nos cantos das torcidas, por exemplo, o Shimizu S-Pulse tem inspiração em músicas brasileiras, enquanto o Yokohama F. Marinos utiliza referências argentinas.
Elias Falarz, também jornalista especializado em futebol japonês e dono do Hinomaru Podcast, destaca como a identidade cultural do país fortalece a torcida:
“O Japão tem algo muito bonito vindo da cultura deles, que é o amor pelas raízes, pela sua terra. Eles são literalmente bairristas. Então foi uma transição natural para as pessoas desenvolverem amor e dedicação ao futebol. Não importa se o time joga a sétima, a quarta ou a primeira divisão, eles estarão ali nas arquibancadas torcendo com paixão.”
Por trás da vontade de popularizar o futebol no país, havia planejamento e investimento. Da mesma forma que jogadores como Pelé, Eusébio e Cruyff foram contratados para jogar na NASL (North American Soccer League), visando promover o esporte nos anos 70, o Japão também apostou em jogadores nos últimos anos da carreira, em sua maioria brasileiros. Os principais nomes da época — e até hoje lembrados — foram Ruy Ramos, Dunga, Alcindo, Gary Lineker, Kazu Miura e, claro, Zico, ídolo do Flamengo e do Kashima Antlers, apelidado pelos japoneses de “Deus do Futebol”.
O “DEUS DO FUTEBOL” NO JAPÃO
Isso mesmo: no Japão, não é Pelé o “Rei do Futebol”, mas Zico. O impacto do craque brasileiro no país foi enorme. Ele elevou o nível do futebol e ajudou a colocá-lo em evidência. Antes mesmo da profissionalização da liga, Zico chegou ao Kashima Antlers, em 1991, em uma contratação que seria o ponto de virada para o fortalecimento do futebol japonês.
Por trás da contratação de Zico, a J.League tinha receio de que o Kashima Antlers “passasse vergonha” e chegasse à liga apenas para apanhar. O clube foi o último a ser escolhido para disputar a primeira temporada da competição por nunca ter participado da primeira divisão da JSL e por estar localizado em Kashima, no interior de Ibaraki, longe dos grandes centros e com aproximadamente 60 mil habitantes. Durante o processo de candidatura para a J.League, o presidente da liga chegou a dizer ao clube: “Acho melhor vocês desistirem, porque as chances de vocês serem aprovados são de 0,0001%”. A frase ficou marcada na história do Kashima Antlers, que não apenas entrou na competição, mas se tornou o maior campeão do Japão. Foi o próprio presidente da liga quem sugeriu levar Zico para o clube e, apesar de já estar aposentado, o brasileiro aceitou.
Nas palavras do próprio Zico, ele fez de tudo no clube, menos ser presidente. Como o futebol no Japão ainda não era profissional, ninguém sabia muito bem o que fazer, e foi ele quem ensinou tudo. Ele chegava e decidia a formação do time, as substituições e dava dicas para melhorar a estrutura do clube nos mínimos detalhes.
“É como se tivesse construído o Kashima do zero, porque o time não tinha estrutura nenhuma, mas tinha dinheiro para investir. O que fez o Zico se tornar esse grande ídolo lá, não só em Kashima, mas no Japão inteiro, foi principalmente o que ele fez fora de campo”, explica Tiago Bontempo.
O profissionalismo e as habilidades do brasileiro encantaram o povo japonês e inspiraram a geração que atualmente ganha destaque no futebol mundial. Apesar de não ter conquistado títulos em sua passagem pelo Kashima Antlers (1991-1994), período em que se aposentou definitivamente, os feitos de Zico foram tantos que ele se eternizou na história do futebol japonês. Não à toa, na entrada do Kashima Soccer Stadium há uma estátua do “Deus do Futebol”, além de diversas referências ao brasileiro no museu do clube, localizado no próprio estádio.
MAIS QUE UMA LIGA
Aproximadamente 60 mil torcedores estavam presentes no Estádio Nacional de Tóquio naquele esperado 15 de maio de 1993, data que marcou o início oficial da J.League e de uma nova paixão cultural.

15 de maio de 1993, dia do jogo de estreia da J.League, no Estádio Nacional de Tóquio.
Foto: Divulgação/J.League
Verdy Kawasaki e Yokohama Marinos se enfrentaram no jogo de estreia da J.League, com vitória do Marinos por 2 a 1. O show dos brasileiros aconteceu no dia seguinte, 16 de maio de 1993. O Kashima Antlers enfrentou o Nagoya Grampus Eight, que não teve chances: goleada de 5 a 0 para o Kashima, com direito a hat-trick de Zico e mais dois gols de Alcindo.
Junto da liga, nasceu também a esperança de conquistar uma Copa do Mundo. Para isso, foi criado um plano chamado “Visão de 100 Anos”. O projeto estabelece objetivos como desenvolver uma liga sustentável e bem-sucedida, melhorar a infraestrutura dos clubes e a formação de atletas, além de voltar a sediar e conquistar uma Copa do Mundo até 2092, ano do centenário da criação da J.League.
O Japão leva a “Visão de 100 Anos” muito a sério. Dos anos 1990 até os dias atuais, os objetivos de popularizar o esporte e elevar o nível dos clubes e atletas já se refletem nos resultados. Jogadores como Kaoru Mitoma (Brighton), Takefusa Kubo (Real Sociedad) e Ritsu Doan (Eintracht Frankfurt), que fazem sucesso na Europa, são exemplos disso. A J.League também tem conseguido se manter sustentável financeiramente. Caso um clube permaneça no vermelho por mais de três anos consecutivos, perde sua licença para disputar a competição.
“Mais do que tornar a liga mundialmente conhecida, eles estão trabalhando para fortalecer o futebol japonês. Também existe a ideia de que, quando grande parte desses jogadores que estão na Europa se aposentarem, possam retornar ao Japão como técnicos e dirigentes. Acho que a visão internacional da J.League ainda é muito limitada. Dá para perceber que eles ainda não têm noção do potencial da liga”, comenta Tiago.
“Com o tempo, o país corrigiu pontos fracos, como a ingenuidade e os problemas defensivos. Ainda falta melhorar a parte ofensiva e revelar mais goleadores, como acontece no Brasil, apesar da evolução já ser grande. Para a liga ganhar mais relevância, o Japão precisa conquistar competições importantes e fazer boas campanhas”, complementa Elias.
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O DESAFIO DO FUSO HORÁRIO
Há, porém, outros fatores que dificultam o aumento da visibilidade do futebol japonês, como aponta Elias Falarz:
“O principal fator infelizmente não pode ser mudado: o horário. É muito difícil para o resto do mundo assistir aos jogos ao vivo por causa da diferença de fuso horário. E claro, ainda existe preconceito e arrogância com o futebol japonês. É preciso que alguns lugares saiam um pouco do pedestal e olhem mais para outros países.”
Também é preciso considerar a barreira linguística. Apesar da existência da J.League International, canal em inglês dedicado à cobertura da liga, a falta de conteúdo em outros idiomas dificulta a divulgação para países não falantes da língua inglesa.
Trinta e três anos depois do jogo inaugural, mais do que apenas uma liga em desenvolvimento, a J.League dá uma aula de como um bom planejamento pode transformar não só o esporte, mas também a cultura de um país. Para quem se interessa pelo futebol japonês, isso ainda parece ser apenas o começo: a “Visão de 100 Anos” ainda tem muito potencial a explorar.