Álbum da Copa 2026 fica mais caro e difícil de completar, mas nostalgia e pertencimento mantêm a tradição viva entre gerações
Com quase mil figurinhas e pacotinhos sendo vendidos a R$7,00, completar o novo álbum da Copa do Mundo pode pesar no bolso do colecionador. Mas a tradição, a nostalgia e o querer pertencer ao momento são o que mantêm o hábito vivo entre diferentes gerações.
O Álbum da Copa Mudou: está maior, mais caro e mais difícil
A alegria de encontrar o craque favorito e o alívio de colar a última figurinha estão de volta, mas com um peso a mais no bolso. Em 2026, o álbum da Copa do Mundo FIFA não será apenas o maior da história, será também o mais caro. Com a expansão para 48 seleções, o colecionador terá de encarar mais de 100 páginas e quase mil figurinhas para completar. Com pacotinhos estimados em R$7,00, um aumento de 75% em relação a 2022, completar o álbum vai exigir mais que sorte: exigirá estratégia.
Mas por que, mesmo que completar o álbum seja equivalente a um salário-mínimo, as vendas continuam em massa?
Do “fenômeno do completismo” à arte de troca nas ruas, Esquinas procurou saber como a tradição das figurinhas sobrevive à inflação e o que a psicologia diz sobre a obsessão por preencher espaços vazios.
Uma Tradição que Ficou Mais Cara
Desde as primeiras edições da Copa do Mundo, o álbum de figurinhas era procurado. A ideia de ter um livro com figurinhas de diversos craques atravessa gerações desde que a Panini publicou seu primeiro álbum oficial, na Copa de 1970, realizada no México. O tempo passou, mas a tradição não mudou. Agora, os colecionadores terão uma dificuldade maior para completar o álbum apenas pelo poder de compra. O que antes exigia um investimento de R$700 para ser concluído agora projeta um custo que beira os R$1.500, o equivalente a um salário-mínimo nacional.
Nas últimas décadas, o preço de cada pacotinho de figurinha da Copa foi aumentando. Na Copa do Mundo de 1998, realizada na França, cada pacotinho custava R$0,40 (R$ 3,12 nos dias de hoje). Em um salto no tempo, na Copa de 2022, realizada no Catar, o pacotinho custava cerca de R$4,00 (R$ 4,88 nos dias de hoje). Já na Copa do Mundo de 2026, que será realizada no Canadá, Estados Unidos e México, o preço será de R$7,00.
O preço das figurinhas tem registrado grandes aumentos nas últimas décadas, refletindo não só a inflação, mas também mudanças no comportamento dos consumidores, a perda do poder de compra, transformações no mercado editorial e a dimensão do público em relação ao grande evento esportivo.
Na década de 1990, completar o álbum de figurinhas era considerado uma atividade acessível para a maioria das famílias brasileiras. Os pacotes eram vendidos a preços baixos e continham uma quantidade razoável de cromos. Com o tempo, o aumento do número de seleções e o surgimento de figurinhas colecionáveis fizeram o preço da coleção disparar.
A partir da Copa do Mundo de 2010, realizada na África do Sul, o aumento se tornou mais perceptível. A valorização do dólar impactou diretamente os custos de insumos, que, na maioria das vezes, são importados. Além disso, o uso das marcas oficiais também se tornou mais caro com o passar do tempo, o que gerou uma alta significativa nos pacotinhos e motivou críticas e debates.
Colecionar também é pertencer
Apesar das críticas, a procura por figurinhas em bancas de jornal, livrarias e pontos de troca continua alta, mostrando que, mesmo com o preço elevado, o hábito segue vivo. A troca de figurinhas, que há décadas era considerada algo infantil, hoje atrai também muitos adultos, impulsionando um sentimento de nostalgia.
O youtuber e colecionador Léo dos Santos, do canal ‘Léo Figurinheiro’, vive um dilema. Apesar de ter acesso profissional e a possibilidade de completar rapidamente o álbum, ele faz questão de manter a essência do processo. Para sua coleção pessoal, ignora a facilidade do próprio negócio e prefere a “raça” das trocas e negociações. “Eu prezo muito por isso e tento transparecer esse romantismo para o público que me acompanha, como forma de estimular o hábito”.
Léo acredita que, mesmo com o preço alto, a procura pelo álbum continuará em larga escala, muito por conta da presença constante do produto em diferentes espaços, como bancas e mercados, além da influência social. “Todo mundo vai fazer um pouquinho. Vai ser difícil você bater na porta de alguém e perguntar se comprou alguma figurinha da Copa e ela dizer que não”.
Esse comportamento tem explicação. A psicóloga de consumo Isabela López, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), afirma que o fenômeno é impulsionado pelo FOMO (Fear of Missing Out), o medo de ficar de fora. Segundo ela, o colecionismo deixa de ser apenas um hobby quando a pressão do grupo e a dificuldade em lidar com a “incompletude” assumem o controle. “A pessoa deixa de avaliar racionalmente o impacto financeiro e passa a agir sob influência de regras mentais e da busca por recompensa”, explica.
O Valor da Raridade
Grande parte do valor do álbum está nas chamadas “Legends”. Implementadas na edição de 2022, essas figurinhas são os cromos mais raros e, dependendo da sua raridade, podem custar mais que o dobro do investimento básico para completar a coleção.
Para Léo, essa dificuldade é justamente o que mantém o interesse. “As Legends trouxeram esse desafio. O prazer do colecionismo está nas coisas difíceis, que, quando você conquista, é uma vitória real”.
Por outro lado, para Isabela, essas figurinhas representam uma mudança no sentido do colecionismo. O que antes era sustentado por um valor simbólico agora passa a seguir uma lógica de mercado e status. “O objeto deixa de ser valorizado pelo que representa e passa a ser supervalorizado pela sua escassez”.
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Um Legado Geracional
Mas por que as pessoas ainda compram tantas figurinhas? A resposta está na nostalgia. A tradição de colecionar álbuns atravessa gerações, e quem começou ainda jovem continua, mesmo com mais idade, buscando reviver a experiência de colar uma figurinha.
Léo vê esse crescimento com naturalidade: “Os adeptos ao colecionismo seguem aumentando. Provavelmente teremos mais adeptos do que nos anos anteriores”.
Essa tentativa de reviver o passado, no entanto, não é totalmente alcançável. Como explica Isabela, trata-se de uma busca por uma sensação que o dinheiro não consegue recuperar completamente. “É uma tentativa de recuperar uma experiência que não é plenamente alcançável”.
Esse valor simbólico desafia a lógica econômica. Trata-se de um consumo guiado por significados emocionais e afetivos, em que o valor da figurinha é medido pela memória que ela carrega.
Ainda assim, é preciso estabelecer limites. “Você não pode comprometer seu financeiro em um hobby. O saudável está na organização de cada um”, alerta Léo.
No fim, a verdadeira vitória não está necessariamente em completar o álbum, mas em preservar o prazer do processo. Como define Isabela, o colecionismo saudável exige a “capacidade de parar sem sofrimento”. Afinal, a figurinha mais valiosa continua sendo aquela que não custa a nossa paz de espírito.