Nos últimos dez anos, a forma de discutir política tem migrado gradualmente da televisão e de ambientes mais restritos para as redes sociais. Embora os modelos tradicionais de veiculação de conteúdo político ainda existam, hoje a internet desempenha um papel central no debate sobre pautas que afetam a sociedade diariamente.
“No cenário atual, as tecnologias digitais impõem-se como elemento decisivo nas novas modalidades do processo de comunicação, permeado por diferentes combinações da relação homem-máquina-homem. Esse fator deve ser considerado para pensarmos na análise da nova modalidade do ‘estar juntos’ nestes tempos cibernéticos”, explica Lucilene Cury, professora da Escola de Comunicações e Artes da USP, doutora em Ciências da Comunicação e coordenadora do grupo de estudos Cibernética Pedagógica: Laboratório de Linguagens Digitais.
Nos últimos anos, ganharam espaço nas redes os podcasts, mesacasts e canais do YouTube que promovem debates entre participantes, geralmente de campos políticos opostos. Ao oferecerem uma infinidade de assuntos políticos a apenas um toque de distância, que podem ser consumidos a qualquer momento, essas plataformas são capazes de atrair grandes públicos e, por isso, têm sido amplamente utilizadas como ferramentas de discussão política.
Inspirado em produções estrangeiras como o Jubilee, nos Estados Unidos, e o Le Crayon, na França, o canal brasileiro Spectrum é um dos principais produtores desse tipo de conteúdo no país. O projeto importou a proposta de realizar uma “Zona de Fogo”, colocando uma figura relevante do cenário político e social cercada por 20 pessoas com opiniões opostas. Em cada episódio, predomina um formato que estimula argumentações acaloradas, aborda pautas polêmicas e aposta no entretenimento por meio de embates retóricos.
Política como entretenimento
Os conteúdos relacionados à política têm sido fortemente influenciados pela cultura do entretenimento, predominante em plataformas digitais populares, como TikTok, YouTube e Instagram. Esse fenômeno é conhecido como “infotenimento”, prática que combina informação e entretenimento com o objetivo de transmitir conhecimento de maneira mais leve e reter a atenção do público.
“As pessoas querem ver o debate enquanto algo que as entretenha. Querem ver a treta, o circo pegar fogo, as pessoas viralizando, se tornando memes“, afirmou Paulo Juventude, vereador da cidade de São Roque pelo PSOL e participante de um dos debates organizados pelo Spectrum.
Para Lucilene Cury, muitos jovens preferem se entreter a estudar. Por essa razão, meios de comunicação utilizam intencionalmente a estratégia de apresentar a informação em formatos associados ao lazer para atrair um público maior.
Diante desse cenário, muitos canais já produzem conteúdos adaptados à lógica de engajamento e viralização das redes, estimulando interações e situações propícias a se transformarem em cortes com potencial viral. Essa fragmentação, no entanto, permite que a edição siga uma lógica de “lacração”, ridicularizando a visão do outro e podendo conduzir o espectador a interpretações enviesadas.
Paulo Juventude acrescenta que alguns políticos já compreenderam o entretenimento como um aspecto central da nova forma de fazer política. Eles constroem suas imagens por meio de interações e dinâmicas com o público que posteriormente podem render cortes para as redes sociais. Essas estratégias favorecem uma aproximação com o público jovem.
“Mas o problema desses debates é que os cortes são feitos pelos políticos, o formato da edição é deles, são eles que decidem a forma como vão se apresentar como debatedores. E tudo isso é muito bem pensado”, relata o vereador.
Esses recortes são frequentemente retirados de contexto e podem distorcer situações e influenciar — intencionalmente ou não — a opinião do espectador. Ao selecionar cenas e falas específicas, parte da riqueza argumentativa do debate original pode se perder, dando lugar a um embate de narrativas predominantemente performático.
Consumidor ou cidadão?
Lucilene Cury ressalta que essa cultura do entretenimento está muito mais voltada para um público consumidor do que para um público cidadão.
“Então você tem muitas visualizações, isso gera lucro, a pessoa fica mais famosa e ganha mais com isso também. Perde-se um pouco dessa priorização com o cidadão, da conscientização política.”
Quando a identidade do cidadão é utilizada como ferramenta de propaganda política, ele passa a ser tratado também como consumidor. Nesse contexto, cortes e outros recursos são utilizados para chamar a atenção do espectador, uma vez que sua audiência pode ser convertida em visibilidade e retorno financeiro.
Conforme a pesquisadora, “será que se pretende um consumidor ou um cidadão? Se pretende um consumidor.”
O sociólogo e cientista político Edgar Grande, formado na Universidade de Munique, também aborda a questão da comunicação de risco:
“A midiatização das sociedades contemporâneas também implica que a comunicação de riscos e a interpretação da legitimidade política estão sendo submetidas à lógica específica dos meios de comunicação de massa e suas necessidades de criar e dramatizar as notícias.”
A análise contempla a ideia de que a sociedade atual depende da mídia para compreender riscos e legitimar atores políticos, ficando sujeita às lógicas de algoritmo e audiência.
O sociólogo ainda relata que, como consequência das mudanças recentes nos sistemas de comunicação, a interpretação midiatizada da realidade social se caracteriza por ciclos de atenção mais breves, crescente autorreferência e uma lógica mercantil de elaboração de notícias. “Isso tem várias consequências para o estudo da governança de risco”, afirma o pesquisador.
Impacto comportamental
Esses tipos de vídeos exercem influência sobre o comportamento de quem os assiste. Segundo a psicóloga e jornalista Monica Martinez, esses conteúdos podem moldar a maneira como parte do público enxerga a política. “Quando se faz um corte, você tira todo o contexto e aquilo fica muito manipulável. Sabemos que isso é feito para gerar um impacto rápido, vai funcionar igual a um gancho que atrai a atenção das pessoas”, avalia.
Quando o conteúdo é consumido de forma muito fragmentada e sem contexto, limita-se a possibilidade de que o indivíduo construa conexões mais amplas e desenvolva outras perspectivas sobre a situação abordada. No campo da psicologia, esse processo pode ser relacionado à “mudança de atitude”: ao optar por informações fragmentadas, o sujeito deixa de vivenciar um processo mais lento de elaboração psicológica, o que pode restringir o desenvolvimento de uma visão mais crítica.
Esse fenômeno também pode ser compreendido, dentro da psicologia analítica, como um “rebaixamento do nível mental”, em que o comportamento individual tende a se alterar e a se simplificar quando o sujeito está inserido em uma multidão.
Monica explica que, enquanto isoladamente a pessoa é guiada por valores morais e éticos conscientes, no coletivo esse nível de consciência pode ser reduzido, favorecendo reações mais impulsivas e menos reflexivas. Para a estudiosa, esse processo se relaciona ao chamado “efeito manada”, no qual o grupo influencia diretamente a percepção e a tomada de decisão dos envolvidos.
A psicóloga detalha ainda que os algoritmos podem contribuir para isolar espectadores em bolhas ideológicas, favorecendo a entrega de conteúdos alinhados às opiniões que eles já possuem. O fenômeno pode gerar engajamento para o autor da publicação, mas, em vez de promover um diálogo saudável com o público, também pode ampliar a animosidade política e ideológica.
Portanto, é necessário considerar os impactos desses vídeos sobre o público, especialmente entre as novas gerações, cuja forma de consumir assuntos políticos é diretamente influenciada pelas dinâmicas das redes sociais. Porém, “apesar de não ter essa profundidade, ter viés e ter inverdades, é mais democrático”, afirma Lucilene Cury.
Ela ainda ressalta que “as pessoas vão escolhendo uma polarização. Podem escolher um pouco mal, mas pelo menos podem [escolher]”. Dessa forma, torna-se necessário buscar uma relação equilibrada entre os jovens e os debates políticos, evitando a banalização das discussões e a aversão a temas controversos, sem abrir mão do diálogo democrático.
VEJA MAIS EM ESQUINAS
Midterms e eleições gerais no Brasil: como se relacionam e se influenciam
No coração da guerra: o olhar de jornalistas que cobriram conflitos internacionais
A internet democratiza o saber
Paulo avalia que, apesar da presença do entretenimento, o debate pode funcionar como um espaço para que as pessoas se encontrem, dialoguem, reflitam e, eventualmente, mudem de opinião ou cheguem a conclusões conjuntas. “É uma cultura que deve ser promovida”, complementa o vereador.
Ele afirma se sentir satisfeito com a presença desses debates na internet, já que mais pessoas passam a se interessar por política, entram em contato com argumentações contrárias e encontram oportunidades de participar de canais com grande projeção, nos quais podem debater ideias e apresentar suas próprias percepções. “Eu acho isso sinceramente fantástico”, expressa Paulo.
Lucilene apresenta uma perspectiva semelhante: “As pessoas não tinham voz antes. Então, por um lado, é bom, já que todo mundo tem essa chance.”
A entrevistada concorda com a ideia de que pode valer a pena abrir mão de parte da formalidade e da profundidade dos debates tradicionais com o objetivo de democratizar o acesso às discussões:
“A profundidade é o problema. Mas, na minha opinião, eu acho que tudo vale a pena, porque vai se divulgando. Se há profundidade, é questionável, né? Porque cada um escreve o que quer. E, às vezes, as pessoas não têm (profundidade). Mas, pelo menos, dá voz para quem não sai no jornal, por exemplo, porque, alguns anos atrás, era mais difícil, mais restrito.”
Ela explica que, apesar da falta de profundidade, da presença de vieses e até de informações falsas, esses canais fazem com que se fale mais sobre política do que anteriormente. “É mais democrático”, ressalta Lucilene. Essa mudança pode contribuir para ampliar a participação de diferentes grupos no debate público.
Assim, esses novos modelos abriram espaço para que debates relevantes alcancem mais camadas da sociedade e deem voz a grupos que antes encontravam menos oportunidades de participar dessas discussões. Para parte do público, esses conteúdos também podem representar uma das principais portas de entrada para temas políticos.
Entretanto, é essencial compreender que eles não devem ser a única fonte de aprendizado sobre política. O público precisa desenvolver senso crítico para identificar conteúdos manipulados ou retirados de contexto, construir suas próprias opiniões e não se limitar a um conhecimento superficial. A democratização do debate pode ampliar o acesso à política, mas a formação de uma visão crítica também exige contato com conteúdos mais densos, contextualizados e aprofundados.