Coberturas de guerras mostram como imagens, enquadramentos e narrativas da mídia influenciam a percepção da sociedade sobre os conflitos
Os conflitos mundiais se transformam com o passar do tempo, acompanhando o desenvolvimento das tecnologias e das formas de comunicação. Mas como essas mudanças alteram o mundo em que vivemos e, principalmente, a maneira como enxergamos os conflitos atuais? A Guerra do Vietnã e a invasão do Iraque, apesar de ocorrerem em momentos distintos da história contemporânea, mostram que a batalha vai muito além das zonas físicas de guerra. A disputa por influência, imagem e informação está diariamente presente no cotidiano da população por meio das diferentes mídias. Manchetes, fotografias, reportagens e relatos tornam-se instrumentos utilizados pelos diferentes lados de um conflito na tentativa de convencer o restante do mundo sobre determinada narrativa, transformando até mesmo a empatia em objeto de disputa.
A atuação da mídia nos conflitos
Os conflitos mundiais são revelados e reconhecidos principalmente por meio da mídia, que exerce poder de influência e desempenha um papel fundamental na propagação de informações e, consequentemente, na formação da opinião pública.
As diferentes mídias — redes sociais, televisão, rádio, entre outras — funcionam como uma das principais janelas pelas quais observamos o mundo. Dessa forma, possuem grande influência na construção de narrativas que chegam à população, apresentando as informações a partir de determinados enquadramentos. Como explica o doutor em Ciências Sociais e estudioso de mídia Luís Mauro:
“Como toda janela, ela vai enquadrar um pedaço. A maneira como esse pedaço é escolhido define muito do que as pessoas vão entender da realidade”.
Esse processo pode impactar diretamente a percepção do público e até a defesa de determinado lado de um conflito.
O fato de o público, muitas vezes, não conhecer os diferentes lados envolvidos também interfere diretamente na opinião que se forma. Uma mesma cobertura pode produzir percepções distintas dependendo da agência, do veículo ou das informações que chegam à sociedade. Esse processo está relacionado às visões de mundo dominantes, às relações de poder, à localização geográfica e à relevância atribuída a determinados acontecimentos.
Por isso, os critérios de noticiabilidade também não são completamente neutros. Eles são produtos de uma maneira de relatar os fatos, condicionada pela história, pelos valores e pelas disputas existentes em cada sociedade. Informações e fotografias coletadas em conflitos podem construir diferentes narrativas sobre um mesmo acontecimento, adquirindo caráter informativo, opinativo ou explicativo.
Para Wagner Souza e Silva, professor universitário da Escola de Comunicações e Artes (ECA-USP), vivemos uma revolução midiática na qual existe uma crescente preocupação em conquistar a atenção do público por meio da circulação de imagens e das narrativas construídas a partir delas. Surge, assim, uma verdadeira “disputa por imagem”. Nesse cenário, uma das maiores dificuldades está justamente em filtrar o volume de informações que bombardeiam o cotidiano, especialmente nas redes sociais.
Mas como filtrar essas informações quando aquilo que chega ao público já sofre diferentes influências? Quando se trata de conflitos internacionais, a posição geopolítica é um dos fatores determinantes. A escolha sobre aquilo que recebe maior relevância — e até sobre quais episódios são apresentados como mais brutais — pode variar de acordo com a posição socioeconômica e geopolítica dos envolvidos.
Além da localização, existe a questão da propaganda, capaz de gerar engajamento em escala mundial e reforçar a disputa por imagens e narrativas. Trata-se de uma estratégia utilizada há décadas em conflitos entre diferentes potências.
Historicamente, também existe uma banalização da violência que acompanha os conflitos. A questão ganhou força especialmente após a Guerra do Vietnã, quando registros visuais e relatos detalhados sobre o sofrimento da população transformaram a maneira como imagens brutais passaram a ser encaradas. Se antes o foco estava principalmente na transmissão do fato, sem tanta preocupação com a violência apresentada, atualmente existe maior cuidado na exposição dessas cenas.
Com as novas tecnologias, no entanto, essa banalização ganhou outra dimensão. Mesmo com avisos de conteúdo sensível e restrições impostas pelas plataformas, imagens gráficas continuam facilmente acessíveis. Em alguns casos, a própria censura desperta a curiosidade dos usuários, que procuram esses conteúdos na internet. As cenas de violência passam, então, a funcionar como verdadeiros espetáculos de horror e produtos de consumo, contribuindo para a insensibilização do público diante da repetição constante de imagens chocantes.
Com essa normalização, a reação das pessoas tende a deixar de ser exclusivamente de espanto. Embora exista solidariedade em relação aos conflitos e às vítimas, as preocupações do cotidiano acabam dividindo espaço com essas tragédias. Isso não significa que a empatia tenha desaparecido, mas que a exposição constante à violência fez com que ela passasse a integrar, de alguma forma, o cotidiano das pessoas.
Contexto histórico e atualidade
Durante a Guerra do Vietnã, entre 1955 e 1975, parte da mídia ocidental reproduziu argumentos favoráveis à necessidade de uma intervenção armada em território vietnamita. Posteriormente, essa cobertura tornou-se alvo de críticas e controvérsias, principalmente pelas informações divulgadas sobre o conflito, pela desumanização da população vietnamita e pela forma como eram retratadas as perdas de soldados ocidentais.
Durante a Segunda Guerra Mundial, a França perdeu o controle de seus territórios na Indochina para o Japão. Após a derrota japonesa, os franceses tentaram retomar o domínio colonial da região com apoio dos Estados Unidos. Nesse período, ganhou força o Viet Minh, movimento de resistência nacionalista e comunista criado para lutar pela independência do Vietnã.
Parte da mídia das potências ocidentais envolvidas, especialmente França e Estados Unidos, alinhou-se à narrativa oficial de seus governos. Movimentos de libertação, como o Viet Minh, eram frequentemente apresentados de maneira negativa, com termos como “terroristas”, “insurgentes” e “bandidos”, contribuindo para deslegitimar suas ações e justificar o apoio financeiro e militar norte-americano à presença francesa na região.
A relação dos jornalistas com fontes e informações sofreu novas transformações após o incidente do Golfo de Tonquim, confronto naval ocorrido em agosto de 1964 e utilizado como justificativa para ampliar a participação direta dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã. Naquele momento, grande parte da imprensa norte-americana reproduziu a versão apresentada pelo governo de Lyndon B. Johnson.
A intervenção era apresentada como um ato necessário para proteger o Vietnã do Sul. Soldados norte-americanos apareciam como jovens corajosos enviados para defender a liberdade, enquanto o envio de milhares de homens para o conflito também começou a alimentar questionamentos e protestos contra a guerra.
Com a expansão da cobertura televisiva, além das músicas e representações cinematográficas sobre o conflito, a opinião pública começou a se transformar. A Ofensiva do Tet, em 1968, tornou-se um dos momentos centrais dessa mudança. Jornalistas enviados ao país registraram diretamente os horrores da guerra, enquanto denúncias envolvendo armas como o Agente Laranja e o napalm e massacres de civis, como o de My Lai, ajudaram a modificar o tom da cobertura. A imagem dos Estados Unidos como libertadores passou a ser cada vez mais questionada diante da violência e do prolongamento do conflito.
“Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo.” A frase de George Santayana ajuda a representar a transição entre as experiências da cobertura do Vietnã e os conflitos posteriores no Oriente Médio. Décadas depois, a violência passaria a ser transmitida praticamente em tempo real, muitas vezes por meio de imagens cuidadosamente selecionadas que apresentavam o combate como um espetáculo tecnológico, aparentemente limpo e controlado, embora ainda profundamente brutal.
Nos anos 1990, disputas envolvendo o petróleo e tensões políticas na região contribuíram para a Guerra do Golfo (1990–1991), conflito desencadeado após a invasão e anexação do Kuwait pelo Iraque. Uma coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos iniciou uma operação militar contra as forças iraquianas, marcada por intensos bombardeios durante a Operação Tempestade no Deserto. Posteriormente, o Iraque também enfrentou duras sanções e restrições internacionais.
Mais de uma década depois, em 2003, milhões de norte-americanos acompanharam pela televisão a invasão do Iraque. A intervenção foi justificada, entre outros argumentos, pela suposta existência de armas de destruição em massa, que posteriormente não foram encontradas. Ao mesmo tempo, parte da cobertura reforçava uma imagem heroica dos soldados norte-americanos e contribuía para associar o Iraque ao cenário político criado após os ataques de 11 de setembro de 2001.
Esse ambiente garantiu forte apoio público inicial à chamada Guerra ao Terror durante o governo de George W. Bush. Apesar da ausência de provas de uma ligação direta entre Saddam Hussein e os ataques às Torres Gêmeas, o governo norte-americano conduziu uma campanha que apresentava a intervenção militar como necessária para a segurança nacional e global.
Por outro lado, a rede catariana Al Jazeera ganhou projeção internacional ao apresentar outra perspectiva sobre a guerra. Sua cobertura mostrou com maior frequência os impactos da intervenção norte-americana sobre a população civil e os territórios atingidos, oferecendo ao público uma narrativa diferente daquela predominante em parte da mídia ocidental.
Ao mesmo tempo, jornalistas independentes enfrentavam dificuldades para acessar determinadas zonas de conflito. O acesso muitas vezes dependia do acompanhamento das forças militares, o que limitava a possibilidade de observar a guerra por diferentes perspectivas e dificultava a produção de uma cobertura mais ampla.
Assim como havia ocorrido no Vietnã, o prolongamento do conflito contribuiu para aumentar a desconfiança da população em relação à continuidade da invasão. As justificativas apresentadas inicialmente começaram a ser questionadas, principalmente diante da ausência das armas de destruição em massa anunciadas antes da guerra.
Com o avanço do conflito, investigações mais críticas ganharam espaço. Organizações não governamentais, veículos jornalísticos independentes, comitês parlamentares e organismos internacionais contribuíram para revelar abusos cometidos durante a guerra. Entre os episódios mais marcantes estavam as imagens de prisioneiros iraquianos submetidos a situações degradantes, que ampliaram a rejeição pública à narrativa apresentada inicialmente sobre a intervenção.
O episódio ficou conhecido como escândalo de Abu Ghraib. A partir dele, movimentos antiguerra, mídias alternativas e organizações de defesa dos direitos humanos ampliaram a exposição das consequências do conflito e aumentaram a pressão pública sobre o governo norte-americano pela mudança de postura e pela retirada das tropas.
Esses episódios mostram que, independentemente da época ou da dimensão de um conflito, as narrativas exercem influência sobre a opinião pública. O enquadramento e a maneira como uma história é apresentada produzem impactos diretos na percepção da sociedade. A disputa por imagem e informação, portanto, não nasceu com as redes sociais — elas apenas ampliaram sua velocidade e seu alcance.
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A ética jornalística
“Jornalistas certamente devem considerar o possível impacto de suas reportagens. A Rede de Jornalismo Ético (Ethical Journalism Network) defende que o princípio da humanidade é um dos mais importantes para a profissão”, afirma Vitor Souza Blotta, professor doutor do CJE da Universidade de São Paulo e coordenador do Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade (ECA/IEA-USP), em entrevista para a matéria. A reflexão destaca a preocupação constante em evitar danos às pessoas afetadas pelas reportagens, sobretudo grupos mais vulneráveis e com menor reconhecimento social.
A ética é um dos pilares fundamentais do jornalismo e assume importância ainda maior na cobertura política e de conflitos, justamente pelo impacto que reportagens, imagens e apurações podem exercer sobre a sociedade. O jornalista carrega a responsabilidade de participar da construção da narrativa que chegará ao público, sempre considerando também a linha editorial e os critérios adotados pelo veículo.
Em meio a um conflito, o profissional encarregado de noticiá-lo precisa buscar precisão, equilíbrio e responsabilidade ao comunicar à sociedade aquilo que está acontecendo. Na prática, porém, essa tarefa nem sempre é simples.
Ao refletir sobre a imparcialidade profissional, Vitor explica:
“O princípio da imparcialidade é visto como um critério de inclusão das opiniões e posições relevantes sobre os fatos a serem reportados. No jornalismo, a objetividade e a imparcialidade são possíveis, mas a neutralidade é mais enganosa do que precisa. Sempre há um enquadramento presente, o importante é ter clareza e transparência em relação a esses enquadramentos”.