Algoritmos e redes sociais criam bolhas que fazem eleitores de campos políticos opostos enxergarem a disputa eleitoral de formas distintas
As últimas eleições brasileiras foram marcadas por transformações sociais, políticas e, principalmente, tecnológicas. Em pouco mais de uma década, a internet deixou de ser uma exceção e passou a fazer parte da rotina de praticamente todo o país.
Em 2023, 92,5% dos domicílios brasileiros tinham acesso à internet, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do IBGE. Dez anos antes, em 2013, esse percentual era de 48%.
A expansão do acesso também transformou a maneira como os brasileiros consomem informação e acompanham a política. Nesse ambiente, ganharam espaço as chamadas “bolhas”, comunidades digitais nas quais os usuários têm pouco contato com opiniões diferentes das suas.
Com os algoritmos selecionando parte do conteúdo que chega a cada pessoa, dois usuários podem abrir a mesma rede social e encontrar retratos completamente distintos do país. Em um cenário eleitoral marcado pela polarização, essa diferença levanta uma questão: eleitores com visões políticas opostas estão acompanhando a mesma eleição?
Uma eleição, diferentes realidades
O primeiro turno das Eleições Gerais de 2026 está marcado para 4 de outubro. Mais de 158 milhões de eleitores estão aptos a escolher presidente, governadores, senadores e deputados federais, estaduais ou distritais.
Embora todos participem formalmente do mesmo processo eleitoral, a experiência de cada eleitor pode ser diferente.
Para a doutora em ergonomia da informação pela Universidade Politécnica da Catalunha e professora titular da Universidade Federal de Mato Grosso, Andréa Ferraz Fernandez, não é possível afirmar que brasileiros vivam eleições efetivamente diferentes, já que o processo e o resultado são os mesmos para todos. A percepção da disputa, no entanto, pode mudar radicalmente.
Segundo a professora, pessoas em campos políticos opostos podem ter “a ilusão de que vivem em realidades distintas, segundo seus espectros políticos”.
Parte dessa percepção está ligada ao funcionamento das plataformas digitais. Ao selecionar conteúdos com base no comportamento e nos interesses dos usuários, os sistemas de recomendação podem criar ambientes nos quais determinadas ideias aparecem com maior frequência, enquanto opiniões divergentes têm menos espaço.
Para Andréa, esse mecanismo ajuda a construir uma espécie de “mundo particular” para cada usuário. Como consequência, o eleitor pode interpretar aquilo que recebe pelas redes como um retrato amplo da sociedade, quando, na realidade, está exposto apenas a uma parcela dela.
Quando o outro lado desaparece
À medida que essas bolhas se consolidam, eleitores de campos políticos diferentes passam a consumir não apenas informações distintas, mas também interpretações diferentes sobre os mesmos acontecimentos.
O doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP Paulo Niccoli Ramirez afirma que essa dinâmica pode consolidar uma leitura fragmentada da realidade. Para ele, outra mudança importante está na duração das campanhas políticas.
Se antes a disputa eleitoral ganhava maior intensidade nos meses que antecediam a votação, as redes sociais permitiram que políticos mantivessem contato permanente com seus apoiadores. Publicações, vídeos, transmissões ao vivo e outros conteúdos fazem com que a comunicação entre representantes e eleitores continue mesmo fora do período oficial de campanha.
Na avaliação de Ramirez, essa proximidade pode criar uma “fidelidade inquebrantável” em parte do eleitorado, fazendo com que o apoio a determinado político seja mantido mesmo diante de acontecimentos que poderiam colocar essa escolha em dúvida.
Apoio e rejeição caminham juntos
A força dessa identificação política ficou evidente na eleição presidencial de 2022. No primeiro turno, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL) concentraram 91,63% dos votos válidos.
A polarização, entretanto, não se manifesta apenas pelo apoio. Poucos dias antes do primeiro turno de 2022, pesquisa Datafolha apontava que 52% dos entrevistados diziam não votar em Bolsonaro de jeito nenhum, enquanto 39% afirmavam o mesmo sobre Lula.
Os números ajudam a mostrar uma característica importante desse cenário: a identificação com um candidato pode conviver com uma forte rejeição ao campo político adversário.
Essa divisão continua presente na disputa de 2026. Pesquisa Datafolha divulgada em setembro mostra Lula e Flávio Bolsonaro (PL) tecnicamente empatados na corrida presidencial, com 39% e 36% das intenções de voto, respectivamente. O levantamento também registrou rejeição de 47% para ambos.
Para Ramirez, a rejeição entre os dois campos tem origens distintas. Na interpretação do pesquisador, parte do eleitorado bolsonarista associa Lula a críticas construídas pelo antipetismo ao longo dos últimos anos.
“Os bolsonaristas rejeitam Lula por verem nele a possibilidade de ascensão do comunismo ou a condescendência com a corrupção.”
Por outro lado, Ramirez considera que uma parcela do eleitorado lulista “rejeita Flávio Bolsonaro por enxergá-lo como um agente contrário aos direitos humanos e alinhado aos interesses dos Estados Unidos”.
As percepções divergentes aparecem até na interpretação dos mesmos acontecimentos. Em outro levantamento Datafolha de setembro, 58% dos eleitores de Flávio Bolsonaro disseram enxergar predominância de políticos de esquerda entre os envolvidos na crise entre o STF e o Banco Master. Entre os eleitores de Lula, 48% afirmaram enxergar predominância da direita.
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O impacto das bolhas no debate público
Para Andréa, a polarização observada nas redes não pode ser analisada separadamente do modelo de funcionamento das plataformas digitais. Na avaliação da pesquisadora, empresas de mídias sociais possuem interesse econômico em manter os usuários conectados e engajados por mais tempo.
A professora considera a polarização “tudo menos natural” e relaciona parte do fenômeno à atuação dessas plataformas. Para ela, deixar de se comunicar com quem pensa de maneira diferente não afeta apenas a capacidade individual de confrontar ideias, mas também o próprio debate democrático.
“O efeito da desistência do processo de comunicação entre pessoas com pensamento diferente entre si é o aumento da polarização e dos grupos com interpretações de realidade totalmente distintas”, afirma.
Às vésperas das eleições de 2026, o eleitor brasileiro estará diante da mesma urna, das mesmas candidaturas e do mesmo resultado oficial. O caminho percorrido até chegar ao voto, porém, pode ser completamente diferente.
Entre algoritmos, redes sociais e comunidades digitais cada vez mais segmentadas, lulistas e bolsonaristas podem acompanhar os mesmos acontecimentos e atribuir a eles significados opostos. A eleição é uma só. A realidade que chega à tela de cada eleitor, não necessariamente.