Especialistas apontam como a cultura da magreza se reorganiza nas redes sociais e intensifica impactos na saúde mental, na alimentação e na relação com o corpo.
A circulação de conteúdos nas redes sociais têm evidenciado a retomada de padrões estéticos centrados na magreza, agora associados a discursos de saúde, disciplina e bem-estar. O que se apresenta como tendência ou estilo de vida reconfigura uma cultura que não é novidade: a valorização de um corpo “ideal” como referência de aceitação social, sustentada por setores como as indústrias farmacêutica, fitness, estética e alimentícia. Segundo levantamentos difundidos pelo portal EBJ News em 2026, o ecossistema global de beleza e cuidado pessoal já supera a marca de 600 bilhões de dólares em faturamento anual, com tendência de se aproximar dos 700 bilhões na próxima década, enquanto o mercado global de remédios para emagrecimento deve alcançar os 150 bilhões de dólares em vendas anuais no mesmo período.
Para as especialistas ouvidas na reportagem, a psicóloga Viviane Andrade, a nutricionista e psicóloga Andrea Romero e a psiquiatra Maria Francisca Mauro, o fenômeno não representa uma novidade, mas sim a adaptação de um padrão histórico às dinâmicas do ambiente digital. Após um breve período em que o discurso público parecia avançar em direção à aceitação e à pluralidade dos corpos – marcado pela chamada era da “quebra de tabus” (que ocorreu principalmente entre 2013 e o final da década de 2010) –, conteúdos que ridicularizam corpos fora do padrão voltaram a ganhar espaço nas plataformas, agora sob discursos de “bem-estar”, “rotina saudável” e “autocuidado”.
Em “O Mito da Beleza”, a jornalista e escritora Naomi Wolf analisa como padrões estéticos funcionam historicamente como mecanismos de controle social sobre mulheres. Para a autora, a indústria da beleza transforma inseguranças em consumo e reorganiza constantemente os critérios do que é considerado aceitável.
Influência digital e a reconfiguração dos padrões
Para a psicóloga Viviane Andrade, que pesquisa padrões de beleza há mais de duas décadas, os influenciadores digitais ocupam hoje um papel central na construção de referências de comportamento e aparência:
“Hoje a gente tem os influenciadores como autoridade máxima. Então, eu acho que é um papel muito grande de ajuda, mas de deseducação também. Isso deixa a pessoa muito angustiada diante dos padrões que se colocam”, afirma a entrevistada
Essa influência é potencializada pelos algoritmos das plataformas. Um estudo publicado no arXiv em 2024, Functional Misalignment in Human-AI Interactions on Digital Platforms, aponta que sistemas de recomendação tendem a priorizar conteúdos que geram engajamento emocional, incluindo insegurança, comparação corporal e ansiedade. Na prática, conteúdos ligados ao emagrecimento, transformação corporal e rotina fitness tendem a circular mais, intensificando a exposição constante a padrões estéticos específicos.
Segundo Viviane, embora as redes tenham ampliado esse fenômeno, a imposição da magreza possui raízes históricas:
“No século XIX, a gordura estava associada à beleza e ao status. A magreza ganha força no século XX, quando a mulher entra no mercado de trabalho e há uma mudança no modo de vestir e de se comportar”, explica Viviane
A transformação acompanha o avanço do capitalismo industrial, que passa a associar corpos magros à disciplina, produtividade e controle. Ao longo das décadas, esse padrão assumiu diferentes formas. Nos anos 1990, a estética conhecida como Heroin Chic popularizou corpos extremamente magros, aparência fragilizada e traços associados ao vício e à exaustão. Já nos anos 2000, revistas e programas de entretenimento reforçaram a obsessão pela “barriga negativa”, expondo celebridades consideradas “fora do padrão” em manchetes sobre ganho de peso, celulite e aparência.
A pressão estética também se manifesta no ambiente profissional. Segundo o estudo “Por trás da aparência: um estudo sobre mulheres e os desafios dos padrões estéticos no mercado de trabalho”, idealizado pela The Body Shop e aplicado pelo Instituto Plano de Menina, 88% das mulheres entrevistadas já se sentiram pressionadas no trabalho por não corresponderem ao peso considerado ideal pela sociedade.
Em outra pesquisa encomendada pela The Body Shop, 69% das mulheres brasileiras relataram ter sofrido pressão estética no ambiente profissional, enquanto 45% afirmaram ter alterado a aparência para evitar prejuízos na carreira. Peso corporal e cabelo estão entre os principais alvos da cobrança.

Pesquisas apontam que 88% das mulheres entrevistadas sofreram pressão estética no trabalho, enquanto 69% relataram cobranças sobre a aparência e 45% mudaram a aparência para evitar prejuízos na carreira./ Imagem: Feita por IA
Para Viviane, trata-se de um movimento cíclico. “A gente teve um período em que isso melhorou, mas está piorando agora”, observa. Segundo a pesquisadora, não há exatamente um retorno da cultura da magreza, mas uma reorganização de algo que nunca deixou de existir:
“De alguma maneira, isso estava mascarado. Agora, a magreza volta a prevalecer”, conclui
Promessa de transformação e impactos
Essa dinâmica se intensifica com a promessa de transformação rápida. A ideia de que alcançar um corpo ideal leva automaticamente a uma vida melhor circula com força nas redes sociais. Rotinas de influenciadores que conciliam disciplina, produtividade e aparência são apresentadas como modelos replicáveis, reforçando a associação entre estética, sucesso e autocontrole.
A influenciadora Manu Cit exemplifica essa lógica. Enquanto cursava medicina, compartilhava nas redes uma rotina marcada por treinos intensos, alimentação regrada e alta produtividade. O cotidiano incluía acordar ainda de madrugada para pedalar, além da prática de modalidades como triatlo, musculação e natação. A exposição constante dessa rotina cria a sensação de que desempenho físico, equilíbrio emocional e sucesso pessoal seriam resultados acessíveis a qualquer pessoa disposta a seguir o mesmo padrão de disciplina.
Nesse contexto, o corpo deixa de ser apenas aparência e passa a funcionar como prova de empenho individual e competência pessoal. A cultura fitness se expande para o que especialistas chamam de cultura wellness, na qual influenciadores assumem o papel de referência não apenas sobre exercício físico, mas também sobre alimentação, produtividade, saúde mental e estilo de vida.
Para além da nutrição, consolida-se a ideia de que o corpo é um fator determinante para conquistas pessoais:
“Uma dieta vai te dar um corpo magro, só isso. Ela não vai te dar um novo emprego, ela não vai te dar um namorado para você se casar, ela não vai te dar mais amigos. O pior é essa fantasia que se cria diante de um padrão de beleza ou de magreza”, explica Viviane
Segundo a psicóloga, constrói-se uma lógica em que a insatisfação com o próprio corpo é constantemente estimulada para, depois, ser convertida em consumo. A popularização de medicamentos como Ozempic e Mounjaro intensificou o debate sobre o controle clínico do peso com medicalização.
Originalmente indicados para diabetes tipo 2, esses medicamentos passaram a ser usados para emagrecimento estético em prescrições off-label, ou seja, quando um remédio é utilizado para finalidades não previstas originalmente em bula.
A psiquiatra Maria Francisca Mauro alerta para os limites dessa lógica:
“O problema é quando esses recursos passam a ser tratados como solução universal para autoestima, sofrimento psíquico e relação com o corpo.”, pondera
Nesse processo, constrói-se uma lógica em que a insatisfação com o próprio corpo é estimulada para, em seguida, ser convertida em consumo. Isso é exemplificado com a alta demanda de pedidos de canetas emagrecedoras, segundo dados o valor gasto em tais produtos chega a 9 milhões de reais.
Essa lógica interfere diretamente na relação com a alimentação, transformando o ato de comer em um campo de medo e punição. Aquilo que antes era incentivado como necessário passa a ser associado ao excesso, ao controle e ao medo de engordar. A comparação corporal se intensifica, abrindo espaço para distorções de imagem e transtornos alimentares.
A nutricionista e psicóloga Andrea Romero observa que esse processo ocorre em paralelo a mudanças mais amplas no comportamento alimentar. “A primeira coisa é a conscientização. Hoje se fala mais sobre gordofobia, algo que antes nem era nomeado”, pontua.
A gordofobia é definida como um sistema de opressão estrutural que se manifesta na aversão, desvalorização e hostilização de pessoas gordas, sendo fruto de uma pressão social que impõe padrões de beleza excludentes. Esse preconceito caracteriza-se pela marginalização desses corpos, negando-lhes acessibilidade e impedindo o exercício pleno de direitos básicos, como o acesso digno ao cuidado em saúde e ao mercado de trabalho.
Andrea Romero explica que discursos alimentares restritivos intensificam a culpa e são gatilhos para a maioria dos transtornos, que raramente começam sem um histórico de dietas. No Brasil, esse cenário é agravado por mudanças no padrão alimentar, onde o crescimento do consumo de ultraprocessados em detrimento de refeições tradicionais, como o arroz e o feijão, é associado por pesquisadores ao conceito de “nutricídio”. Esse termo descreve a precarização alimentar em territórios periféricos, onde alimentos frescos são menos acessíveis, empurrando populações vulneráveis para produtos industrializados.
Para ela, é importante a educação alimentar e o acompanhamento profissional:
“Não se trata de fazer dieta por um período, mas de construir uma relação sustentável com a comida ao longo da vida”, afirma Andrea
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Corpo feminino, vigilância e consumo
Conforme Naomi Wolf em “O Mito da Beleza”, os padrões estéticos funcionam como instrumentos de regulação social feminina, substituindo a antiga “mística da domesticidade” que confinava a mulher ao espaço doméstico.
Ao ocupar o espaço público e profissional, parte da energia feminina passou a ser direcionada para uma “terceira jornada de trabalho”: a busca incessante por um ideal de beleza inalcançável, que atua como estratégia de contenção da autonomia e da ascensão feminina. Nesse cenário, o corpo transforma-se em capital simbólico e econômico.
A pressão estética funciona, então, como um mecanismo contínuo de vigilância. Comentários sobre peso, comparações e vídeos virais que expõem características naturais do corpo reforçam uma lógica permanente de monitoramento da aparência. As redes sociais intensificam esse processo ao transformar padrões estéticos em conteúdo de entretenimento, circulação e consumo.
Para a psicóloga Viviane, a redução no consumo de redes sociais e o abandono de comentários sobre o corpo alheio são maneiras de melhorar a relação com o corpo.
A nutricionista e psicóloga Andrea Romero reforça que o problema se agrava quando a relação com o corpo passa a ser pautada pelo controle excessivo, manifestado em dietas restritivas e prática exagerada de atividade física.
Esse cenário sustenta a persistente, porém não necessariamente correta, associação entre magreza e saúde. Para a psiquiatra Maria Francisca Mauro, essa relação representa uma simplificação perigosa: indicadores reais de saúde e bem-estar independem da adequação estética, enquanto a tentativa de alcançar um padrão imposto pode produzir sofrimento psíquico intenso e frequentemente invisibilizado.
A discussão sobre os padrões de beleza evidencia a necessidade de desvincular a magreza da ideia de saúde e reconhecer os impactos da pressão estética sobre a vida das mulheres. A construção de uma relação com o corpo livre de cobranças excessivas passa também pelo acesso à informação e ao acompanhamento profissional.
Além disso, tratar sobre a valorização da magreza expõe os limites de um modelo que atribui à aparência responsabilidades que vão além da saúde. Romper com essa lógica exige mudanças na forma como o corpo feminino é representado, avaliado e tratado na sociedade.