Se antes o maior desafio ao montar um currículo era escolher o que colocar no papel, hoje a batalha é decifrar o que o algoritmo quer ler
Entre formulários padronizados e testes virtuais, a primeira triagem do mercado corporativo deixou de ser feita apenas por olhos humanos. Agora, quem ajuda a decidir se uma candidatura avança ou vai para a lixeira digital são os chamados ATS (Applicant Tracking Systems), softwares utilizados para organizar e filtrar grandes volumes de currículos a partir de critérios definidos pelas empresas. É nesse filtro inicial que a busca por emprego ganha uma nova barreira: passar primeiro pela máquina.
A régua dos dados e o apagamento do contexto
Na teoria, a automação promete tornar os processos seletivos mais objetivos e menos sujeitos a impressões pessoais. Formação acadêmica, cargos anteriores, domínio de idiomas e competências técnicas podem ser organizados e comparados com os requisitos estabelecidos para uma vaga.
O problema surge quando a trajetória profissional não segue uma linha reta. Mudanças de carreira, projetos autônomos, experiências informais e habilidades desenvolvidas fora de ambientes tradicionais exigem contexto para serem compreendidos e nem sempre cabem com facilidade em um campo predefinido de formulário.
A questão é entender se processos seletivos cada vez mais orientados por dados conseguem reconhecer essas particularidades ou se determinados perfis acabam desfavorecidos por não se encaixarem nos critérios que o sistema é capaz de medir.
Por trás do filtro: a rotina do RH
Essa barreira digital não surgiu por acaso, mas da necessidade de lidar com um volume cada vez maior de candidaturas. A inteligência artificial pode estar presente antes mesmo de um candidato enviar seu currículo. Segundo a especialista em Recursos Humanos Marta Leterio, a tecnologia pode auxiliar desde a construção da descrição de uma vaga até a triagem dos documentos recebidos.
A partir das informações fornecidas pelo recrutador sobre o perfil procurado, a ferramenta pode ajudar a estruturar a oportunidade e, posteriormente, localizar candidatos que correspondam aos critérios estabelecidos.
Na etapa de triagem, Marta explica que recorre a palavras-chave específicas para cada vaga. Não existe, segundo ela, uma lista universal de termos que determine quem será selecionado. Os critérios mudam de acordo com a função e com aquilo que a empresa procura. As respostas dadas pelos candidatos a determinadas perguntas também podem ser utilizadas como parte desse filtro.
A tecnologia ganha espaço principalmente diante do grande volume de inscrições. A especialista afirma receber mais de mil currículos para uma única vaga, o que torna inviável uma análise inicial totalmente manual. Nesse cenário, o software funciona como um filtro para reduzir a quantidade de candidaturas até chegar a um grupo que possa ser avaliado com mais atenção pela equipe de RH.
Os limites da automação: o candidato pasteurizado
Diante dessa barreira digital, os candidatos passaram a recorrer às mesmas ferramentas. Se o recrutador usa softwares para filtrar currículos, quem busca emprego também passou a utilizar modelos de inteligência artificial, como o ChatGPT, para elaborar e adaptar o documento a diferentes oportunidades.
A tecnologia permite ajustar o currículo de maneira mais precisa para cada vaga, mas também pode fazer com que diferentes candidatos utilizem palavras, estruturas e estratégias de apresentação muito parecidas. Experiências distintas passam a ser descritas pelos mesmos termos. A contradição é imediata: ao tentar agradar ao algoritmo a qualquer custo, o profissional corre o risco de apagar a própria voz.
Esse limite também é perceptível para quem recebe os currículos. Marta Leterio afirma que consegue identificar quando um documento foi produzido de maneira excessivamente automatizada. Para a especialista, o problema não está no uso da ferramenta em si, mas em entregar um texto pronto sem compreensão ou revisão humana.
A recomendação ganha ainda mais importância para quem busca o primeiro emprego. O candidato precisa ler cada palavra sugerida pela ferramenta, verificar se as informações correspondem à sua trajetória e participar ativamente da construção do próprio perfil, evitando terceirizar a apresentação de sua história para uma máquina.
VEJA MAIS EM ESQUINAS
Ato de Sobrevivência: o aumento das barreiras migratórias diante do fluxo global de refugiados
Discord além dos jogos: os desafios da segurança digital
São Paulo sem carro: é possível depender só do transporte público?
Caminhos futuros: o resgate da escrita em meio aos códigos
A percepção de quem está na ponta do recrutamento mostra um dos principais impasses desse novo modelo. Como resume Marta, o desafio atual é “escrever um currículo inteligente que seja para uma pessoa e para uma máquina”. Quando todos usam a mesma tecnologia para parecer impecáveis, o currículo perfeito pode deixar de impressionar e passar a levantar suspeitas.
Para romper esse ciclo em que máquinas produzem textos que serão inicialmente avaliados por outras máquinas, o caminho não passa por demonizar ou proibir a inteligência artificial, mas por compreender o papel de cada parte no processo.
Para a especialista, a fronteira da máquina aparece na entrevista. Seja em uma conversa inicial online de 20 minutos ou em uma etapa presencial, é no diálogo direto que surgem aspectos comportamentais, reações e nuances de comunicação que um filtro de texto dificilmente consegue captar. “Na hora de conversar, na hora da entrevista”, destaca Marta sobre o momento em que a sensibilidade humana se torna essencial.
Para quem está procurando emprego, uma alternativa é tratar a tecnologia como ferramenta de apoio — para organizar ideias, estruturar tópicos ou revisar a escrita —, e não como autora final da própria trajetória. Se a descrição de uma experiência soa corporativa demais, artificial ou cheia de jargões que jamais fariam parte de uma conversa real, parte da individualidade já foi perdida. Trocar expressões genéricas, como “perfil estratégico”, por exemplos concretos de problemas resolvidos, projetos realizados e trabalhos disponíveis em portfólio pode ajudar a demonstrar competência de maneira mais clara.
Ao mesmo tempo, as empresas precisam avaliar o peso dado aos filtros automatizados. A inteligência artificial pode ser útil para organizar grandes bancos de dados e reduzir tarefas burocráticas, mas o julgamento sobre quem avança em um processo seletivo não deve depender apenas de parâmetros matemáticos. Em um mercado cada vez mais marcado por respostas automáticas, o diferencial pode estar justamente na capacidade humana de ouvir, interpretar trajetórias e enxergar a pessoa por trás da tela.