Reutilização de roupas, mudanças na produção e desafios ambientais colocam em debate o futuro da indústria da moda.
O Fashion Month, período que reúne as quatro principais Semanas de Moda do mundo, movimentou Nova York, Londres, Milão e Paris entre 9 de setembro e 6 de outubro. Com desfiles e lançamentos das coleções de primavera-verão 2027, a temporada apresentou as próximas tendências do setor, mas também abriu espaço para discussões que vão além do consumo e do glamour.
Durante a Semana de Moda de Milão, o Brasil marcou presença com dez marcas de moda sustentável, apresentando peças produzidas com seda, tecidos naturais, bordados feitos à mão e técnicas de tingimento com frutas. Entre os destaques estavam Alina Amaral, Ana de Jour e Camila Machado Ateliê.
A participação brasileira reflete um movimento mais amplo: a sustentabilidade, antes tratada como uma tendência paralela, começa a ganhar espaço nas discussões e estratégias da indústria internacional da moda.
Da necessidade à alternativa sustentável
O termo fast fashion, traduzido como “moda rápida”, designa um modelo de produção e consumo baseado na fabricação acelerada de roupas e acessórios, geralmente comercializados a preços reduzidos e substituídos em intervalos cada vez menores. Esse sistema ganhou força na década de 1990, quando grandes marcas passaram a ampliar suas coleções e acelerar o lançamento de novas tendências.
Nas últimas décadas, a produção e o descarte acelerados de roupas se tornaram desafios ambientais. Grande parte dos resíduos têxteis apresenta dificuldades de reciclagem devido à composição dos materiais, como o poliéster, que pode levar séculos para se decompor. Como consequência, muitas peças acabam acumuladas em aterros sanitários.
Outro problema está nas fibras sintéticas utilizadas na fabricação das roupas, que liberam microplásticos durante as lavagens. Essas partículas podem alcançar rios e oceanos, contribuindo para a poluição dos ecossistemas aquáticos.
Nesse cenário, práticas como o reaproveitamento, a reciclagem e a compra de roupas de segunda mão passaram a ganhar visibilidade. Entretanto, o hábito de reutilizar peças não surgiu com o debate ambiental.
Em entrevista à Revista Esquinas, a historiadora da moda Caroline Lardoza explica que a troca e o reaproveitamento de roupas fazem parte da sociedade há muito tempo, inicialmente associados à necessidade econômica.
“Esse hábito sempre esteve na nossa cultura, mas partia de um lugar de necessidade e de sobrevivência, especialmente em épocas de crise. As pessoas ajustavam roupas e passavam para os mais novos.”
Segundo a historiadora, a pandemia de Covid-19 representou um momento de transformação para esse mercado. As restrições de circulação e o aumento do desemprego contribuíram para mudanças nos hábitos de consumo, enquanto práticas como o upcycling, que consiste em transformar materiais ou produtos descartados em novas peças, ganharam espaço.
Ao mesmo tempo, parte dos antigos bazares passou a adotar uma identidade associada às boutiques vintage, com preços mais elevados. Para Caroline, essa transformação também afastou consumidores que tradicionalmente recorriam aos estabelecimentos por necessidade.
A mudança evidencia uma contradição: embora a moda circular seja apresentada como alternativa ao consumo excessivo, seus benefícios nem sempre são acessíveis a todos. Romper com o modelo do fast fashion exige, portanto, mais do que escolhas individuais. Enquanto a sustentabilidade estiver associada a preços elevados, continuará sendo um privilégio para parte da população.
A economia por trás da moda circular
A transição para a moda circular também envolve transformações econômicas e estruturais. No artigo “Economia circular, sustentabilidade e indústria da moda: uma análise bibliométrica“, as pesquisadoras Tanice Andreatta, Bruna Toillier e Simone Camara analisam o crescimento das discussões acadêmicas sobre o tema.
O levantamento identificou 81 documentos científicos internacionais relacionados à economia circular na indústria da moda. Enquanto apenas dois trabalhos foram registrados em 2016, o número chegou a 19 em 2020 e a 41 em 2021, demonstrando o avanço do interesse científico pela questão.
Diferentemente da economia linear, baseada na extração de recursos, produção, consumo e descarte, a economia circular propõe prolongar a vida útil dos produtos e reduzir a geração de resíduos. O objetivo é diminuir a dependência de matérias-primas e os impactos ambientais associados à fabricação de novas peças.
Em 2017, a organização Global Fashion Agenda lançou, durante o Copenhagen Fashion Summit, um compromisso internacional para incentivar a transição da indústria da moda para práticas mais sustentáveis.
Batizada de 2020 Circular Fashion System Commitment, a iniciativa reuniu 94 empresas, responsáveis por aproximadamente 12,5% da produção mundial do setor na época.
O acordo estabeleceu quatro frentes de atuação: desenvolvimento de produtos com princípios de economia circular, ampliação da coleta de roupas usadas, incentivo à revenda de peças de segunda mão e aumento da utilização de fibras recicladas pós-consumo.
As medidas demonstravam que a transformação do setor precisaria ultrapassar iniciativas individuais, como a compra em brechós, e alcançar a estrutura produtiva das empresas.
De acordo com pesquisas de Moorhouse e Morada, citadas no artigo, a adoção plena de práticas circulares poderia permitir a reciclagem de até 95% dos resíduos gerados anualmente pela indústria da moda.
Apesar das expectativas, os resultados do compromisso internacional revelaram dificuldades no cumprimento das metas. Entre os principais obstáculos identificados pelas pesquisadoras estão as limitações tecnológicas, os custos elevados de pesquisa e a complexidade logística das cadeias de produção e distribuição.
Esses fatores mostram que a transição para a economia circular depende de mudanças estruturais e investimentos que vão além da disposição das marcas em adotar discursos sustentáveis.
Sustentabilidade: compromisso real ou estratégia de venda?
Com o crescimento do interesse por roupas usadas e produtos considerados ambientalmente responsáveis, a sustentabilidade também passou a ocupar espaço nas estratégias comerciais da indústria da moda.
No artigo “O modelo de produção fast fashion na ótica da sustentabilidade“, as pesquisadoras Isabel Gregori e Jackeline Maier analisam os desafios econômicos da transição para modelos de produção mais sustentáveis.
Segundo as autoras, o fast fashion está diretamente associado à lógica do consumo acelerado. Nesse modelo, a utilização de materiais de menor qualidade contribui para reduzir os custos de fabricação, mas também pode diminuir a durabilidade das peças e estimular novas compras.
Essa dinâmica levanta questionamentos sobre o compromisso ambiental das empresas, especialmente quando ações pontuais de sustentabilidade convivem com práticas de produção em larga escala.
É nesse contexto que surge o conceito de greenwashing, ou “maquiagem verde”, utilizado para descrever estratégias de comunicação que transmitem uma imagem ambientalmente responsável sem apresentar medidas concretas que sustentem essa percepção.
Um levantamento da Comissão Europeia, citado por Gregori e Maier, analisou 344 alegações ambientais e identificou que, em mais da metade dos casos, as informações apresentadas eram insuficientes. Em 59% das situações, não foram encontradas provas concretas que sustentassem as afirmações das empresas.
Para Marina De Luca, ativista e coordenadora de Mobilização do Fashion Revolution Brasil, a sustentabilidade precisa deixar de ser tratada apenas como diferencial comercial.
“A sustentabilidade não deve ser um argumento de venda, mas sim a única forma possível de produzirmos sem destruir o equilíbrio ambiental e social”, afirma.
Segundo a especialista, iniciativas como a coleta de roupas para reaproveitamento e a utilização de materiais orgânicos representam avanços, mas não eliminam os impactos ambientais provocados pela fabricação em larga escala.
Para reduzir efetivamente os danos ao planeta, seria necessário diminuir a quantidade de peças produzidas, medida que contraria a lógica de crescimento contínuo e ampliação dos lucros do setor.
Marina também defende que o volume de roupas já existente permite ampliar práticas como troca, conserto, aluguel e empréstimo de peças, reduzindo a necessidade de novas fabricações.
Nesse sentido, a moda circular pode representar uma alternativa ao consumo tradicional, mas seus benefícios ambientais dependem de mudanças efetivas nos hábitos de compra. Adquirir uma peça em um brechó, por exemplo, só contribui para a redução do consumo quando substitui a compra de uma roupa nova, em vez de apenas ampliar o guarda-roupa.
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O futuro da moda diante da crise ambiental
As discussões sobre o futuro da indústria têxtil se intensificam diante do agravamento das mudanças climáticas. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) alerta para os riscos de o aquecimento global ultrapassar os limites estabelecidos pelo Acordo de Paris, reforçando a necessidade de transformações nos modelos de produção e consumo.
Com parte significativa da produção mundial de roupas concentrada em países asiáticos, questões como exploração trabalhista, falta de transparência nas cadeias produtivas e impactos ambientais também integram o debate sobre sustentabilidade.
Para Marina De Luca, a indústria precisa abandonar a ideia de que a conscientização dos consumidores, isoladamente, será suficiente para enfrentar esses problemas.
“Já passamos da fase de só conscientizar e estamos na era de agir de forma urgente”, alerta.
Embora algumas empresas ofereçam pontos de coleta para doação e reaproveitamento de roupas, os custos e as dificuldades logísticas desses processos limitam seus resultados. Além disso, a continuidade da produção em larga escala, especialmente com materiais sintéticos como o poliéster, mantém parte dos impactos ambientais.
Entre as alternativas discutidas está a ampliação do uso de algodão agroecológico, inclusive em sistemas agroflorestais, como forma de incentivar matérias-primas produzidas com menor impacto ambiental.
Questionada sobre o futuro do setor, Marina defende uma transformação mais profunda, na qual as grandes marcas de fast fashion reduzam a fabricação de peças novas e priorizem práticas de upcycling e reaproveitamento de materiais têxteis.
Enquanto essa mudança não se concretiza, a ativista segue envolvida em projetos de conscientização e mobilização pela justiça climática e social.
Mais do que ampliar a presença de brechós ou lançar coleções sustentáveis, o desafio da moda circular está em transformar a própria lógica de produção e consumo. Para que a sustentabilidade deixe de ser apenas um discurso de mercado, será necessário repensar não apenas como as roupas são fabricadas, mas também a quantidade de peças que a indústria coloca em circulação.