Entre agressões e esgotamento, professores questionam permanência nas salas de aula - Revista Esquinas

Entre agressões e esgotamento, professores questionam permanência nas salas de aula

Por Alexandre D’avilla, Miguel Deotti e Pedro Henrique : outubro 19, 2026

Entre a sobrecarga de trabalho e os conflitos em sala de aula, professores enfrentam desafios que comprometem a saúde mental e a qualidade do ensino. Foto: MUSIC_AND_WALLPAPER/Pixabay

Violência, sobrecarga e falta de apoio institucional afetam a saúde mental dos professores e ameaçam sua permanência na profissão

A violência em sala de aula, a sobrecarga de trabalho e a falta de apoio institucional têm colocado em risco a saúde mental de professores brasileiros. Entre episódios de desrespeito, ameaças e jornadas exaustivas, profissionais da educação convivem com o adoecimento psicológico e passam a considerar o afastamento ou até o abandono da carreira.

A precarização das condições de trabalho na educação brasileira não é recente. Baixos salários, infraestrutura inadequada e escassez de recursos pedagógicos fazem parte da rotina de muitos docentes. A esses problemas somam-se conflitos entre professores e alunos, que podem transformar o ambiente escolar em um espaço de tensão permanente.

Embora as agressões ocorram dentro das escolas, suas origens nem sempre estão restritas a esse ambiente. Problemas familiares, dificuldades emocionais e influências externas também podem interferir no comportamento dos estudantes, tornando os conflitos mais complexos.

O professor Arthur Pierosi, formado em Matemática e Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), com experiência nas redes pública e privada, relata ter enfrentado episódios de violência durante suas aulas. Segundo ele, acontecimentos traumáticos na vida pessoal dos estudantes podem provocar mudanças inesperadas de comportamento.

Em uma escola da rede estadual, Arthur acompanhou o caso de um aluno que passou a ofender colegas e utilizar palavrões frequentemente após o término de um relacionamento.

“Só que era um aluno que a gente não esperava, que ele era extremamente educado, calmo, respeitoso, mas que ele terminou com a namorada e explodiu. Então, coisas que acontecem na vida pessoal de alguns alunos podem fazer com que eles tenham comportamentos, de um dia para o outro, que nós não esperávamos.”

O episódio evidencia como questões externas podem atravessar as relações escolares. Para os professores, entretanto, administrar essas situações sem o suporte adequado representa mais uma responsabilidade em uma rotina já marcada por cobranças.

O desgaste cotidiano e a falta de apoio

A professora aposentada Eliane Pires Ferreira, licenciada em Biologia e graduada em Fisioterapia, considera que a percepção de impunidade entre os estudantes contribui para o agravamento dos conflitos.

“O aluno tem certeza da impunidade, o que favorece o comportamento desrespeitoso. Alguns profissionais já estão tão fragilizados e desvalorizados que nem conseguem reagir, ficando cada vez mais doentes”, afirma.

O desgaste emocional, porém, nem sempre resulta de um episódio isolado. Ofensas recorrentes, intimidações verbais, filmagens não autorizadas e dificuldades para lidar com situações de indisciplina podem produzir um acúmulo de tensão ao longo da carreira.

Além dos conflitos com os estudantes, os professores relatam dificuldades para encontrar espaços de diálogo e apoio dentro das próprias instituições de ensino.

“No geral, nós, professores, somos muito solitários. Por mais que tenha ali a sala dos professores, onde a gente interage de alguma forma, nós não temos muitos espaços de socialização e de integração dentro da profissão, né?”, relata Arthur.

Segundo o docente, a ausência de momentos destinados à troca de experiências pedagógicas dificulta a construção de estratégias coletivas. Em determinadas situações, professores de uma mesma turma sequer conseguem compartilhar as dificuldades que enfrentam durante as aulas.

Para Eliane, o apoio costuma partir dos próprios profissionais, que convivem com problemas semelhantes.

“Os profissionais da educação têm, no máximo, o apoio dos colegas de trabalho que passam pela mesma situação. O que difere é a condição emocional de cada um e o tipo de calmante que toma. Os professores, sem exceção, necessitam de apoio psicológico constante!”

A psicóloga escolar Raíssa Medeiros explica que as dificuldades precisam ser analisadas considerando as particularidades de cada instituição. Fatores sociais, econômicos e geográficos influenciam diretamente as relações estabelecidas no ambiente educacional.

“Cada escola é muito única, e isso qualquer pessoa que trabalha na educação pode te dizer: é uma comunidade escolar diferente, com questões diferentes, tanto geográficas quanto socioeconômicas. Então, são coisas muito particulares de cada escola.”

Para a especialista, o acompanhamento psicológico não deve servir apenas para ajudar os professores a suportar situações de violência. É necessário compreender as causas dos conflitos e desenvolver ações que envolvam toda a comunidade escolar.

A ausência de respaldo institucional também interfere na maneira como os profissionais conduzem suas atividades. Arthur conta que recebeu orientações de professores mais experientes para evitar atendimentos individuais a portas fechadas e priorizar ambientes monitorados por câmeras, como forma de se proteger diante de possíveis acusações.

“Aprendi a ter medo de aluno (…) A sensação é de que a escola vai ficar sempre do lado do aluno.”

O relato demonstra como a insegurança pode ultrapassar os episódios de violência e influenciar a própria relação entre professores e estudantes.

Da sobrecarga ao adoecimento psicológico

As consequências da rotina escolar não se limitam ao período em que os docentes permanecem nas instituições. A exposição contínua a conflitos, associada às longas jornadas de trabalho, pode comprometer o descanso, as relações pessoais e a saúde física e mental.

Arthur, que chega a ministrar nove aulas por dia entre escolas públicas e particulares, descreve a dificuldade de realizar atividades simples após o expediente.

“Chego numa exaustão social tão grande que eu não consigo praticamente tomar decisão no que diz respeito, por exemplo, ao lazer (…) Chego em casa depois de um dia dando aula e não consigo mais raciocinar sobre a vida.”

Para aliviar a tensão, o professor encontrou na prática do atletismo e da natação uma forma de preservar o bem-estar. Ele considera a natação “a primeira grande salvadora” de sua saúde mental, mas reconhece que nem todos os profissionais dispõem de tempo ou recursos para praticar atividades físicas.

A necessidade de complementar a renda, frequentemente associada à desvalorização salarial, faz com que muitos docentes acumulem aulas em diferentes instituições, ampliando o desgaste.

O uso de medicamentos também aparece nos relatos sobre o cotidiano da profissão. Arthur afirma que conversas sobre tratamentos e remédios são frequentes entre os colegas.

“Todas as salas de professores que você for entrar, você vai ver professor falando: ‘Qual é o remédio que você toma?’”

A psicóloga Raíssa Medeiros explica que a exposição prolongada ao estresse pode provocar consequências que ultrapassam o sofrimento emocional.

“Tudo isso gera muita reação física ao estresse, que inclusive tem impactos na saúde física. Quando a gente fala principalmente de estresse crônico, ele altera muito a forma como o seu cérebro vai funcionar, porque ele libera os hormônios do estresse, como o cortisol, conhecido popularmente por esse nome, e também a adrenalina.”

Segundo a especialista, a permanência em estado constante de alerta pode estar associada a alterações fisiológicas, problemas gastrointestinais e manifestações de sofrimento psicológico.

Entre as preocupações relacionadas ao adoecimento dos professores está a síndrome de burnout, fenômeno ocupacional associado ao estresse crônico no trabalho que não foi administrado adequadamente.

Raíssa destaca que os sinais de esgotamento podem aparecer de maneira gradual, afetando atividades que antes faziam parte da rotina.

“É a pessoa que perde o momento de lazer, sente uma ansiedade paralisante no fim de semana e passa a ter crises de pânico ou sintomas depressivos só de pensar em ir para a escola, perdendo totalmente o sentido do que faz.”

O problema, entretanto, não pode ser reduzido à capacidade individual de enfrentar situações adversas. As condições de trabalho e a ausência de medidas institucionais de prevenção também precisam ser consideradas.

Celulares, indisciplina e conflitos de autoridade

As transformações no comportamento dos estudantes representam outro desafio para os profissionais da educação. A resistência às atividades pedagógicas, o uso constante de dispositivos eletrônicos e os conflitos relacionados à autoridade dos professores aparecem entre as dificuldades mencionadas pelos entrevistados.

Arthur identifica uma mudança na maneira como parte dos alunos reage às regras e às exigências escolares.

“A resistência às regras tem sido generalizada e feita de uma forma totalmente voltada a não ter que estudar (…) É um conflito para impedir que o estudo possa acontecer.”

Na avaliação de Eliane, o uso de celulares está entre os principais fatores associados aos episódios de indisciplina e confronto.

“As situações de agressão têm origens diversas, mas a causa mais marcante ocorre devido ao uso de celular e cobranças referentes à disciplina e às atividades avaliativas.”

A professora acrescenta que “é muito difícil para o professor competir com a dopamina produzida pelo uso das redes sociais e jogos”.

Além das distrações durante as aulas, a circulação de conteúdos nas plataformas digitais pode interferir na percepção dos estudantes sobre o processo de aprendizagem. Explicações rápidas e simplificadas passam a disputar a atenção com atividades que exigem concentração, reflexão e aprofundamento.

Na rede privada, os conflitos também podem envolver a relação comercial estabelecida entre famílias e instituições de ensino.

“O estudante chega até nós, professores, falando que não, eu sou cliente, eu que pago o seu salário”, relata Arthur.

Esse tipo de comportamento, segundo o docente, contribui para enfraquecer sua autoridade pedagógica e dificulta a construção de uma relação baseada no respeito.

Eliane também aponta a participação das famílias como um elemento importante para a resolução dos conflitos. Mesmo quando a direção escolar demonstra disposição para intervir, a falta de envolvimento dos responsáveis pode limitar a eficácia das medidas adotadas.

A professora afirma que os docentes precisam seguir orientações institucionais relacionadas à disciplina, à permanência dos estudantes em sala e ao respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Na avaliação dela, essas exigências nem sempre são acompanhadas do suporte necessário para administrar situações de maior gravidade.

O resultado é uma sensação de responsabilidade excessiva, na qual o professor passa a responder não apenas pelo conteúdo ministrado, mas também por conflitos familiares, dificuldades emocionais e problemas de comportamento que ultrapassam os limites da escola.

Quando permanecer na profissão deixa de ser uma certeza

O acúmulo de dificuldades pode levar profissionais a questionar a continuidade da carreira. Para alguns, o afastamento representa uma tentativa de preservar a saúde; para outros, a possibilidade de mudar de área surge como alternativa diante da falta de perspectivas.

Arthur afirma que ingressou no magistério motivado pelo interesse em ensinar, mas que as condições enfrentadas ao longo da trajetória modificaram sua relação com a profissão.

“Entrei na profissão amando (…) Só que eu não sei até que ponto vale todo o desgaste que eu tenho tido. Então, eu sou um dos professores que flerta permanentemente com a possibilidade de mudar de área.”

Atualmente, o docente cursa uma segunda graduação em Inteligência Artificial, buscando diversificar suas fontes de renda e reduzir a dependência financeira das aulas.

A decisão também está relacionada à remuneração e à percepção de desvalorização social do magistério.

“Os alunos sabem: ‘Pô, não quero ser professor. Porque vou ter que estudar para caramba para receber menos do que em outras profissões estudando a mesma quantidade’ (…) A gente já entra na profissão sabendo que não vai ganhar tão bem. Aí, além de não ganhar tão bem, nós vamos ser colocados sempre como inimigo? Não, sem condições.”

Para Raíssa, quando o ambiente de trabalho permanece hostil e não oferece condições adequadas de acolhimento, o afastamento pode se tornar uma medida necessária para preservar a saúde mental.

“Se o ambiente não muda, a única solução é mudar de ambiente.”

A psicóloga ressalta que o adoecimento não deve ser interpretado como uma fraqueza individual, mas compreendido também a partir das condições oferecidas aos profissionais.

Eliane, que ingressou no magistério por necessidade financeira e permaneceu na área até a aposentadoria, resume a dificuldade de enfrentar uma rotina marcada por conflitos.

“Os professores tentam sobreviver um dia de cada vez”, relata.

As experiências dos entrevistados mostram que a permanência na docência pode envolver não apenas questões vocacionais, mas também a necessidade de conciliar saúde, segurança e estabilidade financeira.

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Os reflexos da crise na aprendizagem

As dificuldades enfrentadas pelos professores também repercutem na qualidade do ensino. Em ambientes marcados por conflitos frequentes, o tempo destinado ao planejamento e ao desenvolvimento das atividades pedagógicas pode ser comprometido pela necessidade de administrar situações de indisciplina.

Arthur relata que, diante da resistência de parte dos estudantes, já considerou abandonar metodologias que estimulam a reflexão e o pensamento crítico para adotar aulas mais tradicionais.

“Gasto muito tempo preparando a aula para chegar numa sala e ter um grupo de alunos que vai me impedir de dar aquela aula (…) A vontade é deixar de ser crítico. Vou voltar a dar só uma aula que é: teoria, exemplo, exercício. Ser crítico gasta muita energia do professor.”

Para o docente, a simplificação do processo de aprendizagem também pode estar relacionada à maneira como o conhecimento é apresentado e consumido nas plataformas digitais.

“Tem um pouco de má-fé que eventualmente eu vejo de pessoas que querem deturpar a função do conhecimento (…) Como se os professores estivessem ali para ser o obstáculo, ser a barreira (…) e não a pessoa que tenta facilitar e mediar.”

A impossibilidade de desenvolver o trabalho conforme o planejado também pode afetar a confiança dos profissionais em suas próprias capacidades.

Raíssa explica que a repetição dessas experiências compromete a autoestima dos docentes e pode levá-los a questionar suas escolhas profissionais.

“Afeta também a autoestima do professor, voltando para a saúde mental, porque é uma pessoa que não vai conseguir fazer o trabalho dela direito, e aí ela pode começar a duvidar do trabalho dela, começar a duvidar das escolhas que ela fez para estar nesse lugar de trabalho.”

Os impactos podem se estender à atratividade da carreira. Salários considerados insuficientes, jornadas extensas e relatos de violência contribuem para o desestímulo de profissionais que já atuam na educação e de estudantes que poderiam ingressar no magistério.

Para Eliane, os conflitos escolares não podem ser compreendidos de maneira isolada. A professora considera que a indisciplina e a violência refletem problemas sociais mais amplos, nos quais “o aluno é somente a ponta do iceberg”.

Arthur também questiona a responsabilização exclusiva dos professores pelos resultados educacionais, especialmente quando faltam condições adequadas de trabalho.

“Não dá para falar: ‘Ai, os índices educacionais estão caindo, a culpa é do professor’. Sim, o professor é a ponta da lança, mas como que um professor consegue dar aula com medo de ser esfaqueado, com medo de apanhar em sala de aula?”

Para os entrevistados, enfrentar o problema exige medidas que ultrapassem o acompanhamento psicológico individual. O fortalecimento das equipes pedagógicas, a participação das famílias, a prevenção da violência e a melhoria das condições de trabalho aparecem como caminhos para reduzir o desgaste.

A crise vivida pelos professores, portanto, não se restringe à relação entre docentes e estudantes. Ela envolve a estrutura das instituições, a valorização profissional e a capacidade das escolas de oferecer ambientes seguros para ensinar e aprender.

Quando o medo, o esgotamento e a insegurança passam a fazer parte da rotina, não é apenas a permanência do professor na profissão que fica ameaçada. A própria formação dos estudantes também sofre as consequências.

Editado por Enzo Cipriano

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