Brincar na Era digital: a infância que não cabe na tela do celular - Revista Esquinas

Brincar na Era Digital: a infância que não cabe na tela do celular

Por Ana Guercio : março 31, 2026

A criança absorve e reimagina tudo o que está ao alcance dos seus olhos. Foto: Reprodução/Pexels

Para especialista, limitar a forma de uma criança conhecer o mundo também a impede de descobrir quem ela é

“Terra à vista!”, grita a voz infantil do topo do mastro de um navio pirata. O pedaço de papel amarelado em suas mãos indica que o tesouro está em algum lugar da ilha que se avulta no horizonte.

Entre a imaginação e a realidade, “brincar” é o verbo mais completo do dicionário de uma criança, que enxerga nesse infinitivo múltiplas formas de expressar quem ela é. O faz de conta a ensina a lidar com a realidade pelas lentes da imaginação: um chapéu vira casa de elefante, uma situação de trauma vira o monstro a ser derrotado em uma aventura, um mundo moribundo se torna um futuro promissor para todos. Mas essa forma tradicional de brincar enfrenta um desafio: a onipresença da tecnologia no cotidiano.

“Do zero aos três anos, a criança é uma esponja”, argumenta Giulia Paspaltzis, neuropsicóloga especialista em infância e adolescência. Segundo ela, nos primeiros anos de vida, a mente reproduz modelos: “Ela absorve e reimagina tudo o que está ao alcance dos seus olhos”.

Mais do que uma atividade espontânea, brincar é um direito assegurado pela Constituição Federal,  que estabelece, no artigo 227, o dever do Estado, da família e da sociedade assegurar à criança, com absoluta prioridade, o que inclui o direito de brincar.

A imaginação não floresce entre quatro paredes

Segundo um levantamento de 2025 realizado pelo Instituto Datafolha a pedido da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, 78% das crianças de até 3 anos e 94% daquelas entre 4 e 6 anos passam três horas por dia em frente a celulares e tablets, mais que o dobro do recomendado pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), que sugere, no máximo, uma hora por dia para crianças com mais de 2 anos.

“Para muitos pais, é mais fácil delimitar um espaço para o filho brincar, porque assim eles conseguem resolver seus problemas”, relata Paspaltzis, que reforça a necessidade que a criança sente de explorar o mundo em que está inserida e, por meio dele, expressar sua criatividade.

Segundo a especialista, para que o lúdico seja estimulado, é preciso, dentro da realidade de cada família, ao menos 15 minutos dedicados apenas a brincar, o que envolve achar um equilíbrio entre as responsabilidades do dia-a-dia e as demandas que a vida de uma criança exige.

Uma das maneiras de criar pontes entre pais e filhos é reconhecer os aspectos lúdicos que sobrevivem ao fim da infância e compõem a experiência adulta: “Nós, pais, também lidamos com essa parte criativa ao longo da vida. O adulto também brinca, não mais com brinquedos, mas por meio de palavras e trocas com os meus pares”, explica a psicóloga.

“A infância é um chão que a gente pisa a vida inteira.”

Lya Luft

A maior problemática decorrente do uso excessivo de telas na primeira infância, segundo Paspaltzis, é que esses hábitos não dão espaço ao tédio no cotidiano. Ela argumenta que crianças condicionadas por telas tornam-se imediatistas, e uma criança que não se sente entediada terá dificuldade em fazer o básico que toda criança tem por sua natureza: expressar a sua criatividade. “Estamos criando uma geração de futuros adultos que não conseguirão ter autonomia sobre suas próprias decisões”, afirma.

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Entre o real e o digital

Paulo Freire afirmava que a tecnologia deveria ser vista como uma ferramenta no processo educativo, não um fim em si mesmo. Para Paspaltzis, contornar a tecnologia já não é possível na realidade que vivemos, mas uma mediação adulta responsável quando se trata do uso das telas na infância pode ser benéfica nesse período crucial para o desenvolvimento da cognição, criatividade e sociabilidade.

Nessa lógica, a estudante de pedagogia e influenciadora Bianca Aguilar utiliza seus perfis nas redes sociais para conscientizar o público sobre questões pedagógicas. Ela ressalta a importância de criar conteúdos educativos no ambiente digital que falem a língua dos pequenos e dialoguem com a sua realidade: “Sempre que a gente for pensar em transmitir algo para uma criança, a gente tem que pensar que ela é um ser em formação”.

Marjorie Regina de Sousa, professora de educação infantil da escola municipal de ensino de São Caetano do Sul, EME Professor Vicente Bastos, compartilha a sua experiência em sala de aula: “Dentro das escolas, desenvolvemos o hábito de brincar por meio de atividades planejadas pelos professores, jogos, brincadeiras dirigidas e momentos de brincadeira livre. Essas práticas têm o objetivo de estimular o desenvolvimento e a aprendizagem das crianças de forma lúdica”.

Segundo ela, essas brincadeiras proporcionam uma convivência saudável na escola que se reflete depois, na vida adulta: compartilhar os seus pertences, respeitar regras, esperar a sua vez e cooperar com outros colegas do grupo são comportamentos esperados de todos, independentemente da idade.

“Por meio das brincadeiras individuais e coletivas, os alunos exploram o mundo, constroem relações e desenvolvem habilidades que levarão para a vida toda”, observa.

No mundo lúdico, a criança é rainha, exploradora, astronauta ou cientista, e todas essas profissões podem ser exploradas pelo simples ato de imaginar. Brincar de faz de conta não é apenas uma memória da infância, mas, sim, parte do que somos hoje. Mesmo que essa prática não seja comum no dia a dia de um adulto, brincar de faz de conta é um lembrete de  que dentro de cada um de nós ainda existe um mundo para ser imaginado; afinal, a criatividade, a curiosidade e a capacidade de sonhar não envelhecem, apenas se renovam.

Editado por Gabriel Caldini

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