Com EQUILIBRIVM, Anitta retoma uma tradição musical marcada pela ancestralidade africana e pela valorização das religiões de matriz africana
Em abril e julho de 2026, a cantora Anitta lançou, respectivamente, a primeira e a segunda parte de EQUILIBRIVM, projeto que explora a religiosidade e a espiritualidade da artista, adepta do candomblé. Ao longo das faixas, o trabalho também incorpora referências a mantras e crenças indígenas, reunindo diferentes expressões culturais e religiosas.
A presença das religiões afro-brasileiras, porém, não é novidade na história da música nacional. Obras como Os Afro-Sambas, de Vinicius de Moraes e Baden Powell, e Refavela, de Gilberto Gil, demonstram como a cultura de matriz africana influencia a música popular brasileira há décadas.
Em entrevista à revista Esquinas, o doutor em Ciência da Religião Emerson Sena da Silveira analisou essa relação: “A Anitta se insere numa longa linhagem, tradição de contato cultural e musical com as religiões afro. Antes dela, tivemos Clara Nunes, Baden Powell, Vinicius, Caetano Veloso: todos esses grandes nomes da cultura brasileira beberam dessas fontes.”
A fala do pesquisador ajuda a compreender que EQUILIBRIVM não representa um fenômeno isolado, mas a continuidade de uma tradição de artistas que incorporam referências religiosas e culturais afro-brasileiras às próprias produções.
A ancestralidade na música brasileira
As religiões de matriz africana enfrentaram séculos de repressão no Brasil. Durante a escravidão, suas manifestações foram perseguidas e, mesmo após a abolição, continuaram sendo alvo de restrições e ações repressivas do Estado. Nesse contexto, a presença dessas tradições na música também se tornou uma forma de preservar e valorizar a ancestralidade africana.
Silveira, entretanto, ressalta a importância de distinguir as práticas religiosas de suas representações artísticas. Segundo o pesquisador, existe uma diferença entre a música ritual, executada durante as cerimônias do candomblé, e aquela inspirada nos símbolos e valores das religiões afro-brasileiras.
Nesse sentido, a produção artística não substitui as práticas realizadas nos terreiros, mas permite que seus ritmos, símbolos e referências alcancem outros públicos. Enquanto os espaços religiosos preservam e transmitem suas tradições, a música contribui para ampliar sua visibilidade.
A relação entre arte e religião também varia conforme a trajetória de cada artista. Anitta é adepta do candomblé e, segundo Silveira, sua produção musical “transborda” da própria fé. Já nomes como Caetano Veloso e Gilberto Gil incorporaram referências dessas tradições em suas obras, sem necessariamente estabelecer a mesma relação de pertencimento religioso.
O pesquisador também destaca que as fronteiras entre manifestações estéticas e religiosas nem sempre são rígidas no Brasil. A presença de imagens de Jesus Cristo, santos católicos e Iemanjá em um mesmo ambiente, por exemplo, evidencia processos de sincretismo e convivência entre diferentes tradições.
Para o sociólogo Tadeu Kaçula, doutor em Mudança Social e Participação Política pela Universidade de São Paulo (USP), a influência africana sobre a música brasileira está diretamente relacionada à chegada forçada de povos africanos durante o período escravista e aos processos de intercâmbio cultural que se desenvolveram no país.
“A musicalidade africana foi fundamental para estabelecer a música brasileira”, afirma Kaçula.
O pesquisador também reconhece a importância de artistas como Gilberto Gil, Maria Bethânia, Jorge Ben Jor e Martinho da Vila, que incorporaram referências às religiões afro-brasileiras em suas discografias. Para ele, essas produções demonstram o reconhecimento da contribuição das populações africanas e de seus descendentes para a formação da cultura nacional.
Entre a visibilidade e o preconceito
Na avaliação de Kaçula, as referências à espiritualidade africana presentes na música popular ajudam a desmistificar as manifestações culturais e religiosas dos terreiros. Entretanto, essa circulação ainda não foi suficiente para transformar a maneira como parte da sociedade enxerga as religiões de matriz africana.
“Acho que ela [a música feita pelos artistas citados] circulou muito mais no próprio meio, do que em outros grupos sociais, que ainda olham com olhar muito distante e de marginalização para as religiões de matrizes africanas”, afirma.
O sociólogo avalia positivamente o lançamento de EQUILIBRIVM. Segundo ele, Anitta “cumpre um papel de continuidade daqueles que compreenderam a importância de disputar narrativa, sobretudo neste momento de polarização religiosa”.
Kaçula também chama a atenção para o crescimento de movimentos evangélicos reacionários e para episódios de intolerância que, segundo ele, atingem até mesmo símbolos da Igreja Católica, como Nossa Senhora Aparecida.
Por possuir projeção internacional, Anitta pode contribuir para ampliar o debate sobre a liberdade religiosa e encorajar pessoas que ainda receiam assumir publicamente sua ligação com o candomblé. Na visão do pesquisador, a cantora também desempenha um papel importante no enfrentamento de estereótipos associados às religiões de matriz africana, tanto no Brasil quanto no exterior.
Clara Nunes e a construção de uma identidade
Décadas antes de Anitta, outras mulheres já incorporavam referências às religiões afro-brasileiras em suas produções musicais. Entre elas, Clara Nunes se destacou pela maneira como transformou elementos de sua espiritualidade em parte de sua identidade artística.
No artigo Tem orixá no samba: Clara Nunes e a presença do candomblé e da umbanda na música popular brasileira, é analisada a construção de Clara Guerreira, personagem artística associada aos orixás Ogum e Iansã.
A cantora explorava essa identidade por meio de guias, pulseiras, balangandãs e outros elementos visuais, presentes não apenas em suas apresentações, mas também em entrevistas, capas de discos e aparições públicas.
Clara Guerreira contribuiu para ampliar a visibilidade e a valorização das referências religiosas presentes na obra da artista. Entretanto, a construção dessa identidade também provocou reações negativas.
Parte da imprensa passou a utilizar a expressão pejorativa “cantora de macumba” para se referir a Clara Nunes. A reação da artista não foi abandonar as referências religiosas, mas questionar a maneira como sua produção era reduzida a um único aspecto.
“Não quero ser rotulada como cantora de macumba. Nunca gravei um ponto verdadeiro”, declarou a cantora.
A tensão entre manifestar publicamente a própria espiritualidade e enfrentar estereótipos também aparece na trajetória de Anitta. Embora os contextos históricos sejam diferentes, ambas tiveram suas relações com as religiões afro-brasileiras submetidas ao julgamento público.
No caso de Clara Nunes, os rótulos circulavam principalmente pela imprensa tradicional. Para Anitta, as reações também se manifestam nas redes sociais, onde comentários e mudanças no número de seguidores tornam a repercussão mais imediata e mensurável.
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Da imprensa às redes sociais
Em janeiro de 2025, Anitta publicou fotografias em um terreiro localizado em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, ao lado de seu pai de santo, Sérgio Pina. Após a publicação, a cantora afirmou ter perdido cerca de 100 mil seguidores em suas redes sociais.
O episódio evidenciou a resistência de parte do público à exposição de sua fé. Embora não seja possível comparar diretamente a intensidade do preconceito enfrentado por Clara Nunes e Anitta, as reações demonstram como a intolerância religiosa permanece presente, ainda que se manifeste por diferentes meios.
A faixa “Desgraça”, que abre EQUILIBRIVM, reforça a presença de elementos religiosos na produção da cantora. A música reúne referências à Pombagira e a símbolos associados às tradições afro-brasileiras, combinando espiritualidade e elementos da música pop.
A escolha de abrir o álbum com uma composição marcada por essas referências reforça a disposição da artista de incorporar sua vivência religiosa ao trabalho musical, mesmo diante das críticas.
De Clara Nunes a Anitta, a música brasileira tem servido como espaço de expressão e valorização de tradições historicamente marginalizadas. Ao mesmo tempo, a trajetória das duas artistas demonstra que a visibilidade conquistada pelas religiões afro-brasileiras não significa, necessariamente, sua aceitação por toda a sociedade.
Entre os terreiros, os palcos e as redes sociais, permanece o desafio de combater os estereótipos e garantir que a expressão da fé não seja motivo de discriminação.