O vício em jogos de apostas on-line afetou e ainda afeta pessoas pelo país inteiro, mas um dado chama a atenção: os jovens compõem boa parte dessa estatística
No dia 25 de fevereiro de 2026, acontecia uma virada inesperada na segunda pré-eliminatória da Libertadores. O Bahia jogava em casa e estava com o tempo normal vencido contra o O’Higgins, ao contrário do primeiro embate entre os times, no qual o clube chileno tinha ficado com a vantagem de um gol.
Em sua casa, o criador de conteúdo futebolístico Gustavo Couto faz a 18ª aposta do dia pensando em recuperar o valor perdido nos últimos dezessete jogos feitos e promete: se perder, irá parar de usar as bets esportivas on-line. Apostou 1.800 reais no clube brasileiro. Até que, nos pênaltis, o Tricolor Baiano é eliminado da Conmebol Libertadores.
O vício durou seis anos e começou durante a pandemia, como uma forma de fazer dinheiro fácil em um momento em que o esporte, sua principal fonte de renda, estava estagnado no mundo todo. Lembra-se de ter entrado em contato pela primeira vez com as bets esportivas no retorno do futebol alemão, em 2020, mas de só ter reconhecido a dependência em 2022, durante a Copa do Mundo, como relata em sua rede social.
No meio de uma crise de ansiedade, diante do fracasso do palpite, correu para pegar água na geladeira, mas a água tinha acabado. Gustavo acredita que as coincidências daquele dia foram uma espécie de milagre: diante da garrafa de água vazia, ele chamou o pai, Marcelo, para ir ao mercado. Quando entrou no carro, confessou o vício a Marcelo e tomou a decisão que mudaria a sua vida: iria parar de apostar.
Seis meses depois, por influência da namorada e de um amigo virtual de Brasília, Gustavo faz seu relato aos seguidores do Instagram e conta sobre o alívio: “Depois de autoexcluir meu CPF pelo ‘GOV’, eu me tornei outra pessoa, aliás, eu voltei a ser quem eu era.”
O caso de Gustavo não é o único. Segundo o Ministério da Fazenda, o número de brasileiros que já haviam feito apostas on-line chegou a 43,8 milhões até agosto de 2026, um mês antes do estabelecimento da Medida Provisória assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O site Aposta Legal, que desde 2015 acompanha o mercado de apostas no Brasil, conseguiu, por meio da análise dos perfis dos apostadores que acessam sites de bets regularizados, traçar semelhanças nas características desses apostadores (com base no trimestre anterior): 68,3% são homens, com a minoria de 31,7% feminina, e a faixa etária principal dos jogadores se concentra entre 31 e 40 anos, representando uma fatia de 28,6%.

(Legenda: Gráfico da distribuição percentual dos usuários de sites de aposta por faixa etária no Brasil | Design: Gustavo Ferrari).
Gustavo Ferrari
Entretanto, nessa análise, é importante frisar a grande porcentagem de apostadores jovens, que têm entre 18 e 24 anos e assumem 22,7% dos acessos. Lucas, estudante de economia de 19 anos, que opta por ficar anônimo, faz parte desse recorte. O jovem começou a apostar aos 16 anos, no segundo ano do ensino médio, com uma mesada mensal, fazendo pequenos jogos baseados em estatísticas de partidas e em influenciadores.
Lucas afirma que acompanha alguns criadores de conteúdo, como Ricardo Alemão e Gabriel Laranjeira, que fazem vídeos voltados a dicas de alavancagem de apostas esportivas:
“Eles falavam que era bem provável algo acontecer no jogo. E sim, faziam propaganda de bets”, diz Lucas à Revista Esquinas
A publicidade tem um papel crucial na divulgação dos cassinos digitais: os influencers se apoiam na proposta de transformação de unidades em centenas para convencer seus seguidores a acessar esses sites. A ausência de propagandas claras e transparentes ignora os riscos de desenvolvimento de vícios em mentes mais vulneráveis.
Quando a jogatina se torna um transtorno
A ludopatia, ou transtorno de jogo, é caracterizada, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), como o impulso incontrolável e a compulsividade de apostar, especialmente em jogos de azar.
Esse vício está relacionado ao sistema de recompensa do cérebro, que libera dopamina conforme o indivíduo aposta e recebe, fazendo-o investir cada vez mais tempo e dinheiro para sentir a mesma satisfação. É um mecanismo semelhante ao vício em álcool e drogas, já que também envolve a liberação de dopamina.
Sobretudo, a ludopatia é um vício discreto, como apontado pela Dra. Manoela Pozzolo, especialista em psiquiatria digital e dependências tecnológicas:
“O jogo, ele não deixa cheiro, não deixa a marca no corpo, ele está ali na palma da mão. Parece que a pessoa está controlando”, diz Manoela
Tratando-se de plataformas de apostas on-line, o acesso a elas é mais fácil e amplamente divulgado. O cadastro exige alguns dados, como nome e CPF, e o pagamento normalmente é feito via Pix, o que torna o hábito de jogar muito simples e acessível, deixando o vício apenas a um clique de distância.
Por conseguir passar despercebido, acaba sendo muito mais difícil para a família e para o próprio paciente identificar que o vício existe. Segundo a médica, a busca por ajuda pode vir diretamente do paciente, normalmente após a perda de valores muito altos em jogos de aposta, ou após a família perceber que existe algo de errado.
Os sintomas mais perceptíveis são: ansiedade; irritabilidade; pensar em jogo o tempo todo; precisar jogar mais para atingir a mesma emoção que tinha antes; ficar incomodado quando alguém cita que aquilo está sendo problemático; voltar para recuperar o prejuízo financeiro que teve; mentir e omitir para familiares sobre quanto está jogando. Existem casos com queda no rendimento pessoal, em que o afetado fica mais isolado, começa a trabalhar menos, vai pior nos estudos, entre outros.
Diferenças para os jovens
Entre os jovens, o vício pode ser motivado por diversos fatores. Um dos principais é a busca por aceitação e inclusão, seja fazer parte de um grupo na escola ou faculdade, querer entender mais sobre o esporte, saber quem está jogando, ou ainda pelas redes sociais e pelos influenciadores que divulgam as casas de apostas.
Além do contexto social, os jovens têm uma tendência biológica e psicológica significativamente maior a se viciar quando comparados aos adultos. Em um estudo publicado na Biblioteca Digital de Trabalhos Acadêmicos da USP (Universidade de São Paulo), é explicado que o “córtex pré-frontal”, área do cérebro responsável pelo autocontrole, planejamento, freio de impulsos e avaliação de riscos, só termina de se desenvolver entre os 25 e os 30 anos. Já o “sistema límbico”, um grupo de estruturas cerebrais responsável pelas emoções, impulsos e pela busca por prazer e recompensa, amadurece muito cedo, durante a pré-adolescência e a adolescência, estando totalmente ativo na juventude.
“Quando se é jovem, é como se o freio dos nossos impulsos não está completamente formado. É o que a gente chama de sistema de recompensa. Ele tá a pleno vapor e daí como não existe esse freio, a pessoa acaba ficando um pouco mais vulnerável para algumas adicções. Esse é o principal mecanismo”, explica Manoela Pozzolo
Quando o caso é de um adolescente viciado em jogos de azar, os sintomas ainda são os mesmos, mas o de um menor de idade exige bastante compreensão por parte da família do paciente. O vício, além de poder se relacionar com outros, como, por exemplo, o álcool, também pode gerar transtornos, como depressão e ansiedade; por isso, a procura por ajuda se faz tão necessária.
Em uma pesquisa feita pelo LENAD (Levantamento Nacional de Álcool e Drogas), publicado em 2025, mais da metade dos adolescentes apresentaram indicativos de jogo de risco (55,2%), enquanto essa proporção foi de 37,9% entre os adultos.
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Mudanças na legislação
O avanço das apostas digitais no Brasil levou o governo federal a editar a Medida Provisória nº 1.182/2023. Posteriormente, a medida foi consolidada e ampliada pela Lei nº 14.790/2023, que estabeleceu o marco regulatório das apostas de quota fixa. O objetivo da legislação não foi proibir o setor, mas sim retirar as empresas da ilegalidade, tributar o mercado e impor regras operacionais rígidas.
O texto estabelece diretrizes centrais, como a exigência do cadastro por CPF para barrar menores de idade, a proibição de que influenciadores associam apostas a estilos de vida bem-sucedidos, a tributação sobre as empresas e os prêmios, além da criação de mecanismos de “jogo responsável”, incluindo ferramentas de autoexclusão e alertas de tempo de uso nas plataformas.
No entanto, a regulamentação não tem o poder de erradicar o vício nem de banir as bets da sociedade. Como se trata de uma atividade econômica já consolidada mundialmente, o banimento total tenderia apenas a empurrar os apostadores para um mercado clandestino sem qualquer tipo de fiscalização. Ainda em curso a discussão sobre a derrubada da medida, o ministro Luiz Fux, no dia 27 de outubro de 2026, convocou uma audiência no STF para o dia 3 de novembro, com a intenção de discutir seus impactos econômicos.
Além disso, o vício em jogos é um transtorno comportamental e psiquiátrico complexo, alimentado pelo design viciante dos aplicativos, pela facilidade do pagamento via Pix e pela forte presença das marcas no esporte e na cultura pop. A lei estabelece parâmetros de proteção, mas não elimina a compulsão biológica e psicológica provocada pelo ciclo de recompensa imediata das apostas.
Os impactos dessa espiral compulsiva atingem em cheio o orçamento familiar e a economia do país. Dados do Banco Central e de estudos fiscais apontam que a saída líquida de recursos das famílias para as casas de apostas atingiu R$62,5 bilhões em um único ano. Em muitas residências, a verba que deveria financiar alimentação, moradia e consumo básico acabou desviada para os aplicativos, provocando um superendividamento generalizado e desestruturando laços familiares, além de pressionar as finanças dos lares mais vulneráveis e dos beneficiários de programas de transferência de renda.
No público jovem, as consequências dessa exposição precoce ganham contornos ainda mais preocupantes. Segundo levantamento da Ipsos, 11% das crianças e adolescentes de 10 a 17 anos já realizaram apostas on-line, uma proporção que atinge alarmantes 20% no caso dos jovens de 17 anos.
Seduzidos pela ilusão do lucro rápido e favorecidos pela facilidade de burlar a checagem de idade no celular, muitos adolescentes convertem o hábito em uma crise silenciosa de saúde pública. O vício em apostas é nocivo a qualquer idade, do jogo do bicho às apostas esportivas on-line; porém, na população mais jovem, ele se reflete na saúde mental e na vida social: quadros graves de ansiedade, queda drástica no rendimento escolar, isolamento e um endividamento precoce que surge antes mesmo do primeiro emprego.
Esses sintomas podem ser carregados pelo indivíduo a longo prazo, com a incerteza de quais serão os reais impactos do vício nessa geração.