Halloween Vs. Dia do Saci: qual o valor da cultura nacional para os brasileiros?

Halloween Vs. Dia do Saci: qual o valor da cultura nacional para os brasileiros?

Por Julia Albergoni e Sofia Paiva : outubro 30, 2026

Aparição do Saci Urbano, em 2024, que mostra o personagem folclórico que se tornou símbolo de resistência contra o soft power norte-americano / Imagem: Thiago Vaz/Site È o Saci Urbano

Com a chegada do 31 de outubro, bruxas e sacis são colocados frente a frente na disputa por espaço na agenda cultural e no imaginário da população brasileira

Crianças fantasiadas, casas enfeitadas com fantasminhas feitos de bolinhas de isopor e TNT, bruxas que dão sua risada característica no mais sutil dos movimentos e guloseimas a espera de serem entregues para todos que batem na porta das casas decoradas perguntando “Doces ou Travessuras?”. Essa cena poderia estar contida em um filme estadunidense, uma das embalagens em que o Brasil recebe hábitos culturais importados do norte global, que passaria na famosa Sessão da Tarde da TV Globo no dia 31 de outubro para celebrar o Halloween. No entanto, cada vez mais, cenários como esse passaram a fazer parte da agenda cultural dos brasileiros, ganhando espaço nos seus lares, bairros e condomínios, tornando-se uma cena da realidade.

Segundo a pesquisa “Halloween no Brasil 2025: do feitiço ao consumo”, realizada pela Globo, a tradição norte-americana se infiltrou no cotidiano nacional. Em 2025, ano em que a pesquisa foi realizada, cerca de 33% dos brasileiros pretendiam comemorar o Halloween. Ao perceber como o brasileiro está se relacionando com a cultura que vem de fora, fica o questionamento: qual valor ainda é atribuído à cultura nacional pelos brasileiros?

O Saci e os saciólogos

Com essa questão em mente, numa tentativa de resgate e valorização do folclore nacional, intencionalmente, foi instituído, na mesma data do Halloween, 31 de outubro, o Dia do Saci. Aquele jovem negro astuto de uma perna só que protege as florestas do Brasil e não fala inglês, também chamado de Saci Pererê, ganhou um dia para chamar de seu.

O Saci é a figura ideal para representar o que os brasileiros são essencialmente, seja como identidade, seja como arquétipo. Em uma releitura moderna, ele era um jovem escravizado que decidiu sacrificar a própria perna para se libertar das correntes, reforçando o personagem como símbolo de libertação e rebeldia.

Saci

(O personagem folclórico se tornou símbolo de resistência contra o soft power norte-americano / Imagem: Viniciusmc/Wikimedia Commons)
Viniciusmc

A oralidade atravessou barreiras geográficas, e, como consequência disso, o personagem passou a contar com diversas versões de sua história. O que se mantém constante na maioria delas é que, ainda que seja um mestre da teimosia e conhecido por suas travessuras, ele funciona como símbolo de resistência e carrega a ancestralidade indígena, africana e europeia, bases culturais na formação do Brasil que existe hoje.

Além disso, a organização responsável pela criação da data, a Sociedade dos Observadores de Saci (Sosaci), que tem o personagem como símbolo, já tinha se mobilizado em São Luiz do Paraitinga, no interior de São Paulo, para estabelecer uma lei municipal que presenteasse a figura do Saci com o dia 31 de outubro. Esse projeto ganhou projeção nacional por meio de figuras públicas do Legislativo que, eventualmente, tornaram possível a oficialização, em 2013, da celebração do dia dedicado a essa figura folclórica no território brasileiro.

Dentre as comemorações mais significativas da data, o destaque vai para a Festa do Saci, organizada pela Sosaci, que acontece anualmente em São Luiz do Paraitinga e está na sua 24ª edição. O festival é voltado para celebrar o folclore e a cultura popular, sua programação conta com oficinas, feiras, música, histórias e, promete,  muita “sacizada”.

O soft power, ou melhor, o poder suave

Começa a ficar claro que a celebração das festividades do Halloween vai muito além de dizer “Doces ou Travessuras” de porta em porta e que o Dia do Saci, de fato, está longe de ter sido escolhido ao acaso. A indústria cultural estadunidense atravessa diversas áreas da vida em sociedade, mesmo fora do seu país de origem, esbarrando desde com o audiovisual, como é o caso dos filmes hollywoodianos apresentados em tv aberta, até com as campanhas de marketing, que costumam explorar esse evento para vender produtos temáticos. Esse processo expõe um tipo de poder específico: o soft power.

Para compreender como ele funciona e porquê foi construído um cenário de rivalidade entre o Halloween e o Dia do Saci, é necessário, em primeiro lugar, esclarecer o papel da cultura na sociedade:

“A cultura é um espaço de disputa, de troca e, às vezes, de conflito, não devendo ser pensada apenas como lazer ou algo menor. As práticas culturais são tomadas de posição que dizem em qual espaço nos localizamos, o que gostamos e como isso mexe com a nossa localização social”

O esclarecimento do professor e doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) Luis Mauro Sá Martino mostra que qualquer forma de poder exercida por meio da cultura não pode ser pensada como algo leviano, porque ela é um espaço que movimenta a vida cotidiana para além da esfera das ideias.

Justamente por isso, o soft power, também conhecido como poder suave ou poder brando, precisa ser compreendido; ele atua diretamente no campo da cultura. O professor explica: “Ele funciona basicamente mostrando que aquela cultura ou prática cultural estrangeira é legal, bacana e divertida, não necessariamente em detrimento das culturas locais. Não existe um choque aberto, mas sim a entrada de algo de outra cultura que é mostrado como atraente, baseado num sentimento de admiração e que reforça essa admiração”.

O poder suave não é imposto agressivamente por um país sobre outros, costuma, como diz a expressão popular, “comer pelas beiradas” e, gradativamente, passa a promover uma sutil inversão de valores, tornando a cultura que vem de fora mais interessante do que as tradições originárias do país “dominado”. Isso, por mais que ocorra de forma sutil, não altera o fato de que a relação de quem vive no país “dominado” com seu folclore será afetada em prol de uma cultura dominante. Nesse sentido, Martino sintetiza a ideia em uma frase:

“A sutileza do soft power está em não ser uma imposição aberta que destrói a cultura local, mas sim em sugerir opções e disputar popularidade e engajamento na mesma data”

Tal frase, inclusive, chama de volta à discussão as bruxas e os sacis que, em certa medida, no Brasil, compartilham a mesma data de aniversário.

Halloween Vs. Dia do Saci

Todo esse poder faz com que, mesmo sem conexões culturais diretas, o Halloween conquiste espaço no cotidiano nacional, é só iniciar o mês de outubro que abóboras e morcegos tomam as fachadas das lojas junto com as fantasias e decorações. O impacto também atinge a economia do país, segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC), R$3,7 bilhões foram movimentados em decorrência da celebração em 2024.

O valor social não consegue superar o econômico, então, financeiramente, o Saci não consegue devorar a abóbora. Essa disputa por espaço sempre existiu, para Bruno Baronetti, pesquisador, professor e doutor em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), a questão exige atenção ao conceito de soft power e à lacuna cultural deixada pela falta de estímulo à valorização do folclore nacional:

“Não necessariamente apaga, mas eu acho que porque o Halloween pega uma ausência de espaço para as nossas tradições, que faz com que elas hoje aparecem como menos interessantes ou menos atuais, como se fosse uma coisa moderna e as nossas tradições folclóricas ficassem como atraso, como um passado rural que o Brasil tenta superar”

Para Baronetti, não é sobre renegar o Halloween, mas sim garantir a preservação da identidade nacional independentemente da comemoração importada. O enaltecimento do folclore vai além do dia 31 de outubro, precisa ganhar espaço, circulação e força no ambiente escolar, no debate público e na grande mídia, para que as tradições brasileiras sejam conhecidas e celebradas com uma intensidade tão grande quanto as que vêm de fora.

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A valorização do que é nosso

Com esse cenário posto, não tem como negar a rivalidade que existe, desde seu surgimento, entre o Dia do Saci no Brasil e o Halloween importado dos EUA pra cá. No entanto, isso não precisa ser lido como um problema, mas uma oportunidade para olhar com mais atenção o que é verdadeiramente nosso e valorizá-lo.

Para perceber como esse olhar atento atua na prática, Baronetti destaca a importância das instituições de ensino no processo de apropriação da cultura nacional pelos brasileiros desde a infância:

“Acho que a escola tem um papel fundamental, porque ela que vai apresentar os personagens, as narrativas, as tradições regionais, estimular a leitura, ajudar os estudantes a comparar versões e compreender como essas histórias mudam ao longo do tempo”

No entanto, as escolas, ainda que sejam esse ambiente de socialização essencial para criação da identidade nacional, não podem ser o único espaço em que os brasileiros entram em contato com o folclore e nem seus professores da educação infantil ou dos anos iniciais do ensino fundamental os únicos porta-vozes da importância de valorizar a cultura nacional especialmente. A razão de não deixar que isso fique restrito fica clara nas palavras do historiador:

“Valorizar o folclore também é como ato político, afirmar que as culturas brasileiras merecem atenção, que as nossas referências não devem ser consideradas inferiores às que chegam de fora, mas que devem também ser valorizadas e cultuadas”

Vale destacar que, em momento algum, é legítimo colocar em descrédito os elementos culturais e folclóricos que formam às nações estrangeiras, mas sim que é fundamental tomar para si o que é nosso e não se iludir diante do processo de exercimento do soft power por outros países sobre o Brasil.

Por isso, celebrar o Dia do Saci vai além de uma simples data comemorativa que rivaliza com o Dia das Bruxas estadunidense, exaltar o Saci, segundo Martino, “é celebrar um pouco do que somos a partir de uma matriz cultural próxima de nós”.

O personagem folclórico brasileiro, que ocupa o dia do Halloween, precisará de tempo para se consolidar como algo que mobilize os brasileiros e estará, nos próximos anos como faz desde sua criação, disputando atenção com a cultura do norte global, que continuará impondo o poder suave sobre a cultura nacional. O historiador Bruno Baronetti finaliza traduzindo o significado trazido pelo Saci diante da comemoração do seu dia ao afirmar que “o Dia do Saci é resistência, é militância e é ir na contramão do progresso, ir na contramão da indústria cultural e mostrar que há uma uma outra variante brasileira e de resistência”.

Editado por Mariana Lima

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