Fátima Souza, Lauro Jardim e Valmir Salaro contam detalhes da vida de quem cobre crimes, desde facções até o chamado “colarinho branco”
A apuração de fatos criminais, dos bastidores da segurança pública e do sistema de justiça não se resume à frieza dos inquéritos ou aos números oficiais das estatísticas. Por trás de cada boletim de ocorrência, há uma dinâmica viva que exige a mediação entre o trabalho técnico de investigação e o direito da sociedade à informação.
É nessa fronteira que atua o repórter policial: figura essencial para traduzir a complexidade das investigações, fiscalizar a atuação do Estado e entregar ao cidadão o conhecimento necessário para compreender o cenário social e adotar medidas de proteção. Esse profissional tem, inclusive, um dia comemorativo para destacar essa importância.
O valor por trás da profissão
Celebrado em 31 de outubro, o Dia do Repórter Policial traz, em seu histórico, a evolução dos métodos de apuração, o peso das exigências éticas e os crescentes riscos da violência física e digital. A homenagem, inicialmente instituída em Curitiba pela Lei Municipal nº 8.535/1994, passou a ser adotada em todo o país.
Um levantamento do Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostra que o Brasil registrou, em 2025, cerca de 2,6 milhões de boletins de ocorrência. Mas como traduzir todos esses casos para a população sem deixar de humanizá-los?
Se a definição técnica fala em redigir sobre inquéritos, sistema prisional e processos judiciais, a rotina revela uma missão mais profunda: servir de ponte entre os bastidores do poder público e a população.
Distanciar-se das versões institucionais é o que separa a reportagem do mero boletim oficial. Como sintetiza Fátima Souza, que carrega a bagagem de quatro décadas cobrindo o crime na capital paulista:
“Nenhum repórter policial depende da polícia”, afirma a profissional
Para Valmir Salaro, repórter reconhecido pela cobertura de casos de grande repercussão, a reportagem policial e investigativa exige “amassar o barro”, contrapondo-se à ilusão contemporânea de que toda a verdade se resume a telas de computador e boletins de ocorrência burocráticos.
(Fátima Souza traz detalhes sobre apuração em campo em conjunto com Salaro que defende a apuração no local do crime. Vídeo: Cortes das entrevistas exclusivas com Fátima Souza e Valmir Salaro, feito por: Erik, Gabriel e Marina)
Jornalismo no campo criminal
Em um país onde a violência letal impõe marcas profundas, como mostra o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública nos mais de 40 mil registros de mortes violentas intencionais contabilizados em 2025, contar essas histórias também deixa marcas.
Quando Valmir Salaro entrou pela primeira vez em um cenário de crime, na periferia de Diadema, no final da década de 1970, deparou-se com um jovem caído com uma faca cravada no peito. A cena, que marcou seu batismo na profissão, transformou-se em pesadelos recorrentes e em noites mal dormidas. Décadas mais tarde, após cobrir mais de três mil crimes, Salaro reconhece que a profissão lida com uma dor incurável.
(Salaro relembra o trauma de seu primeiro local de crime em 1978 e a rotina nas madrugadas./Vídeo: Corte da entrevista exclusiva com Valmir Salaro, feito por: Erik, Gabriel e Marina)
Fátima Souza recorda sua estreia nas investigações pelo SBT, em 1986. Longe de esperar passivamente pelas notas da polícia, a repórter construiu sua trajetória na base da insistência. Cultivar fontes no silêncio dos offs, o trato com delegados e a escuta atenta de familiares enlutados é um desafio presente na profissão, mas Fátima também teve que lidar com um problema ainda presente no mercado, o machismo. Em um dos pedidos para começar a cobrir a editoria de polícia, a jornalista conta que chegou a ouvir dos chefes frases como: “não tem mulher fazendo isso”.
(Relatos pessoais de Fátima Souza. Vídeo: Corte da entrevista exclusiva, feito por: Erik, Gabriel e Marina)
A ânsia pelo furo jornalístico, contudo, caminha lado a lado com o perigo iminente da ruína humana. O jornalismo policial e de investigação opera sobre uma linha tênue entre o interesse público e o sensacionalismo. O exemplo mais drástico dessa fragilidade é o emblemático caso da Escola Base, em 1994, coberto por Valmir Salaro.
Apoiado em informações preliminares da delegacia e em um laudo pericial apressado do IML que apontava falsamente indícios de violência sexual, Salaro levou ao ar a notícia que comprometeu a reputação e o destino dos diretores da escola. Anos depois, ao revisitar o trauma em um documentário confessional, o jornalista resume a lição mais dura da carreira:
“O furo é o sal da profissão, mas a pressa sem a devida desconfiança e o rigor absoluto pode estigmatizar e destruir vidas para sempre”, conta Valmir
Essa tensão entre o rigor e a pressão do tempo também marca o jornalismo de bastidores do poder e da economia. Lauro Jardim, colunista de grandes redações, vivenciou o lado mais extremo das retaliações quando descobriu, após a prisão de um banqueiro envolvido em fraudes bilionárias, que era monitorado por esquemas de intimidação física. Embora o risco de violência direta contra jornalistas de grandes veículos nos centros urbanos parecesse confinado ao passado, o episódio revelou que a apuração de esquemas de colarinho branco também expõe repórteres a zonas de perigo:
“Quando eu recebi a notícia de que eu era um dos motivos da prisão dele [Daniel Vorcaro], porque ele tinha ameaçado minha integridade física, foi o primeiro susto”, relata o colunista
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O novo contexto
O risco deixou de ser algo exclusivo de grandes investigações sobre o crime organizado ou a corrupção sistêmica para se enraizar também no cotidiano da profissão. O ambiente digital transformou-se em um campo minado. De acordo com o monitoramento da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), o Brasil registrou 204 alertas de violações à liberdade de imprensa em 2025. O dado alarmante revela que 44,6% dos agressores foram agentes estatais e 43,6%, atores não estatais, demonstrando que a hostilidade à imprensa está arraigada tanto nas estruturas institucionais quanto no tecido social.
A internet atua como o principal vetor dessa violência. Ainda segundo a Abraji, em 55,4% dos alertas mapeados em 2025, os ataques tiveram origem ou repercussão online, perpetuando campanhas de descredibilização, ameaças de morte e linchamentos virtuais.
Relatórios da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) e do Observatório do Ministério da Justiça também apontam que esse cenário se agrava dramaticamente em períodos eleitorais e de alta polarização, somando mais de 14 mil ataques virtuais direcionados a profissionais da imprensa. Para Lauro Jardim:
“O tipo de agressão que você pode sofrer nas ruas, dado o jeito que as pessoas lidam com as redes sociais, tende a aumentar”
Trabalhar na linha de frente da notícia exige mais do que técnica, como pontua Fátima Souza ao olhar para sua trajetória de enfrentamento ao medo. Além disso, Lauro reforça que os novos jornalistas precisam estar sempre atentos ao “aumento do grau de violência”.
Por fim, Salaro deixa uma reflexão que teve depois do caso Tim Lopes, repórter policial sequestrado, torturado e morto após ser descoberto em uma investigação com câmeras escondidas: “A sua vida vale uma reportagem?”. Essa dúvida é a que sempre fica na mente de quem cobre essa editoria, uma balança que precisa ser controlada: a responsabilidade e a importância de a profissão ser bem feita, de um lado, e a própria segurança, de outro.