Perifacon, feira de cultura pop realizada na periferia por jovens periféricos, mostra a potência de bairros, públicos e artistas ignorados pelas grandes convenções nerd de São Paulo
Uma fila gigantesca lotou a Rua Algard, no último domingo (24). Algumas das inúmeras pessoas que aguardavam sua vez para entrar na Fábrica de Cultura do Capão Redondo estavam fantasiadas, entregando a temática do evento – ou confundindo os moradores do Conjunto Habitacional Jardim São Bento. “Moça, que evento é esse?”, perguntavam. Era a Perifacon, primeiro evento de cultura pop, nerd e geek realizado na periferia.
Filha de sete jovens perifĂ©ricos de SĂŁo Paulo, surgiu da inquietação do porquĂŞ nĂŁo há convenções como a Comic Con Experience (CCXP) em bairros que se distanciam do centro. “Por que esse universo Ă© tĂŁo restrito? Por que Ă© tĂŁo caro? Ser nerd no brasil Ă© caro”, explica LuĂze Tavares, uma das organizadoras do evento.
A CCXP ocorre na SĂŁo Paulo Expo, prĂłxima ao Jabaquara, zona sul da capital. A Perifacon tambĂ©m acontece ao sul, mas está a 26 quilĂ´metros de distância da outra conferĂŞncia. O caminho mais rápido de transporte pĂşblico entre os dois locais dura uma 1h47 e custa 14 reais. Já o mais barato, 7,47 reais, dura 2h. Os valores do primeiro lote para a diária na CCXP 2019 variam entre 90 reais (meia entrada na quinta-feira, dia mais econĂ´mico para a visita) a 360 reais (preço da inteira durante o fim de semana). AlĂ©m disso, a CCXP possui o pacote Full, que custa oito mil reais e dá acesso a experiĂŞncias que os outros participantes nĂŁo podem vivenciar. Um tanto restrito para 50% dos trabalhadores brasileiros que ganham menos de um salário mĂnimo, segundo dados do IBGE de 2016.
Os organizadores da Perifacon contestavam diversos paradigmas desse universo – desde os valores dos ingressos à representatividade dos personagens. Isso os levou a perceber que eles mesmos podiam criar sua feira nerd, e uma que fosse a cara da quebrada. A Comic Con das favelas surge assim. Primeiramente, a ideia era ser um evento simples, para poucos participantes e com gasto máximo de 500 reais. Mas a feira repercutiu na internet, chegando a mais de dois mil confirmados e 5.300 interessados no evento do Facebook.
- Fora da região central de São Paulo, o Perifacon ocorreu na Fábrica de Cultura do Capão Redondo (Foto: Malu Mões)
- Artistas puderão expor e vender originais e reproduções de seus trabalhos (Foto: Malu Mões)
- O evento foi uma oportunidade para autores independentes exibirem e venderem seus trabalhos (Foto: Malu Mões)
- Médias e grandes editoras focadas em produtos geek também compareceram à convenção periférica (Foto: Malu Mões)
- Gil Santos e Wagner Loud fizeram uma releitura de artistas do rap na estética dos quadrinhos de super-herói (Foto: Malu Mões)
- Jogos de tabuleiro e RPGs estavam entre as atrações do Perifacon (Foto: Malu Mões)
- Artistas como a ilustradora MarĂlia Marz e o quadrinista Marcelo D’ Salete participaram da mesa “Produção e representatividade negra nos quadrinhos” (Malu Mões)
- Os sete andares da Fábrica de Cultura do Capão Redondo estavam cheios de cosplayers encantando fãs de todas as idades (Foto: Malu Mões)
- Os sete andares da Fábrica de Cultura do Capão Redondo estavam cheios de cosplayers encantando fãs de todas as idades (Foto: Malu Mões)
Para dar conta das dimensões de pĂşblico e nĂŁo desapontar a expectativa dos fĂŁs, foi necessário realizar um financiamento coletivo. Quase oito mil reais foram arrecadados. O evento foi construĂdo de forma colaborativa, as marcas e palestrantes que participaram nĂŁo cobraram e a equipe de apoio era formada por voluntários da prĂłpria comunidade ou amantes dos quadrinhos que acharam a ideia bacana. “A programação que a gente tem hoje foi graças Ă cada pessoa que acreditou na ideia e contribuiu”, conta Tavares.
Para a organizadora, a ideia da feira nĂŁo Ă© segregar os dois pĂşblicos, mas criar uma ponte entre a Perifacon e outras convenções, mostrando o potencial de pĂşblico e de artistas que há em bairros marginalizados e invisĂveis pelos grandes circuitos de evento. O diálogo e as trocas eram nĂtidos no encontro. Havia moradores do bairro que tiveram, durante a feira, seu primeiro contato com cultura nerd. TambĂ©m estavam presentes assĂduos frequentadores das convenções já existentes. Editoras famosas de quadrinhos e autores independentes de fanzines – publicação nĂŁo profissional de entusiastas de certo tema – ocupavam o mesmo espaço. “É a primeira vez que estĂŁo trazendo para a periferia cosplays, artistas, jogos. Isso ajuda a melhorar a visĂŁo que as pessoas tĂŞm de fora da periferia”, afirma o visitante Cláudio Barreto.
“O pĂşblico e as pautas sĂŁo diferentes dos outros eventos. É outro lado do mundo dos quadrinhos”, comenta MarĂlia Marz, ilustradora que participou da mesa de debate “Produção e representatividade negra nos quadrinhos”. Como Ă© formada em arquitetura, a jovem constrĂłi suas histĂłrias a partir dos espaços ocupados pela comunidade negra. “A gente tem várias histĂłrias aqui do bairro que sĂŁo tĂŁo importantes e incrĂveis quanto as de super-herĂłi. Por que a gente nĂŁo conta estas histĂłrias?”, questiona Marcelo D’Salete na mesa em que participou.
As outras rodas de conversa que rolaram no evento foram “Produção de podcast no Brasil e porque ninguém consegue parar de ouvir”, “Mulher no mundo nerd”, “Produção independente e editorial: qual rumo seguir” e “Arte e resistência”. Além de fomentar o que já existe, para os organizadores a convenção foi uma forma de possibilitar que mais ilustradores e quadrinistas surjam na periferia.
No quarto andar, a maior fila da feira – superando as da praça de alimentação – era a do Beco dos Artistas, onde produtores independentes podiam expor e vender suas artes. Adesivos por um real, broches por dois, cartões por cinco, fanzines por dez, ilustrações maiores por 15 ou 20. Os preços variam de artista para artista. Mas além de conseguir alguns trocados vendendo sua arte, participar da convenção lhes dá a oportunidade de divulgar seu trabalho para os diferentes públicos da convenção.
“Como a gente mora numa área muito restrita, zona sul, na periferia, sempre tĂnhamos que ir para o centro para ter essas vivĂŞncias de criação de HQ, de design, de ilustração”, conta Camila Ribeiro, ilustradora do coletivo Criart. O grupo, por meio de financiamentos coletivos, oferece cursos de quadrinhos gratuitos na regiĂŁo de M’Boi Mirim. AlĂ©m de vender produtos para arrecadar fundos para o coletivo, o Criart tambĂ©m utilizou o espaço do evento para divulgar seu curso e convidar jovens perifĂ©ricos a se inscreverem.
Era quase impossĂvel se locomover no segundo andar, onde estavam as grandes editoras de quadrinhos e literatura fantástica. Lá ocorria uma sessĂŁo de autĂłgrafos com artistas de destaque no cenário atual de HQ. Load & Loud marcou presença, deixando jovens extasiados enquanto aguardavam para falar com a dupla. Os dois criaram o Rap nos Quadrinhos, projeto em que rappers nacionais – como Karol Conka e Ricon Sapiencia – sĂŁo ilustrados como super-herĂłis dignos de comparação Ă Marvel e Ă DC Comics.
Uma editora chama atenção pela sua calma em meio àquele turbilhão. A FiloCzar é uma livraria e editora que, assim como o seu editor César da Costa, nasceu na periferia. Ele afirma que tem muita coisa acontecendo por ali e que procura dar espaço para esses trabalhos. O que começou como uma livraria virtual em 2011, hoje é uma escola e biblioteca com um espaço fixo no Parque Santo Antônio, onde Costa cresceu na zona sul.
“Tem mais cosplays do que a gente achou que teria”, comentam as irmãs Tais – vestida de Daenerys, a Mãe dos Dragões de Game of Thrones –, e Amanda, fantasiada de Caçadora da Liga da Justiça. Para a surpresa das garotas, elas encontraram vários amigos que haviam feito em outras exposições. Enquanto crianças, jovens e até adultos disputavam a atenção da dupla para conseguir uma foto, elas contaram que os cosplays na Perifacon chamaram mais atenção do que os de outras convenções. As duas moram em Taboão da Serra, na Grande São Paulo. “Sempre tivemos que nos deslocar para o Centro, pegar metrô. Aqui tem pessoal que mora do outro lado da rua”, relatam.
O evento que movimentou o Conjunto Habitacional Jardim São Bento “é para todas as favelas daqui de São Paulo”, como explica a voluntária e amiga dos organizadores, Milena Nascimento. “São organizadores favelados criando um evento para a favela, mostrando que a gente tem potencial”.








