Ave, Jordan! Ave, Bulls! - Revista Esquinas

Ave, Jordan! Ave, Bulls!

Por Renan Lima : maio 21, 2020

Nova série da Netflix mostra os bastidores do último ano da dinastia do Chicago Bulls e de seu líder

Aqui Michael Jordan é absolutamente apaixonante e humano. Voa em quadra, mas bate boca com a direção do time. Ganha prêmios, mas é assediado pela imprensa. Ergue taças, mas fica exaurido por isso. Fatura milhões de dólares, mas aposta milhares em jogos de azar. É o maior jogador de basquete de todos os tempos e, que em certo momento, decidiu largar tudo para tentar uma carreira relâmpago no beisebol. Herói e vilão. Este ser de carne e osso, completamente competitivo, é o que de melhor The Last Dance, a série documental de dez episódios produzida pela Netflix e ESPN, tem a oferecer.

Arte com alguns dos melhores momentos de The Last Dance
Bleacher Report/Reprodução

Em uma analogia futebolística, Jordan é o Pelé do basquete. Mas não só. Ele tinha o talento de um Messi, a obsessão de um Cristiano Ronaldo e o tino de marketing de um Neymar. E tinha também a marra de um Maradona — se o argentino era dono da mano de Dios, Jordan já se proclamou o Black Jesus. Esse é o tamanho do protagonista de The Last Dance.

Embora a produção, que lançou no Brasil seus dois últimos episódios segunda feira (18), dedique boa parte do seu tempo de tela à vida de MJ, o fio condutor não é exatamente ele, e sim o último ano (1997/98) da dinastia do Chicago Bulls na NBA durante os anos 90. Em oito temporadas, foram seis títulos de um time que, além de sua estrela maior, ainda tinha os hall of fame, grandes nomes do esporte, Scottie Pippen e Dennis Rodman. Como se não bastasse, o Bulls era comandado pelo detentor de 13 anéis Phil Jackson, o técnico mais vitorioso da história da liga.

E assim como seus protagonistas, The Last Dance já nasceu grandiosa expondo um material inédito dos bastidores da equipe. Sabendo ser aquele o último ano de uma geração, o time deu acesso irrestrito a uma equipe cinematográfica. E das 500 horas de gravação usadas pelo documentário, é visto de tudo um pouco ali: desde de treinos acalorados até a cerveja no vestiário após a vitória. Todas em uma resolução altíssima, coisa de cinema (com perdão do trocadilho), que fazem o espectador se esquecer que são imagens com mais de vinte anos. Ele só é lembrado do tempo por meio das roupas, carros, telefones e do contraste das imagens da transmissão oficial dos jogos com as feitas pelos cinegrafistas à beira da quadra. 

O deleite proporcionado pela abundância deste material raríssimo explica um dos porquês da série fazer tanto sucesso ao redor do mundo. Há também a direção ágil de Jason Hehir, que consegue contar a história da fatídica temporada 97/98 e dos caminhos que levaram a ela. E como um iô-iô, vai e volta no tempo para dar o contexto em volta de seus principais atores. Mais um motivo são as entrevistas de muitos jogadores, claro, mas também da comissão técnica, direção, familiares, amigos, jornalistas, assessores, acadêmicos, artistas e até de Barack Obama. Ao total, foram 106 entrevistas comandadas por Hehir.

Por fim, a série ganha ainda mais apelo por dois motivos bem contemporâneos. O primeiro, a pandemia do novo coronavírus, que não só paralisou o basquete e o esporte em todo mundo, como boa parte do entretenimento também. Nesse sentido, é um prato cheio tanto para os fãs da bola — repercutindo muitas declarações e acontecimentos do documentário como se tivessem acabado de acontecer —  quanto para quem apenas quer sentar no sofá de casa, ligar a Netflix e se divertir um pouco nesses tempos tão desafiadores.

E por último mas não menos importante: seu incrível potencial memético. As caras e bocas de Jordan; suas corridas de língua para fora; os tênis icônicos; os charutos fumados depois das conquistas; e até o deboche de um segurança quando venceu MJ em uma disputa de lançamento de moedas. Tudo na série parece capaz de viralizar como meme nos Twitters e Instagrams da vida.

 

O segurança John Michael Wozniak tira uma com a cara de Michael Jordan depois de ganhar um disputa de lançamento de moedas
ESPN/Reprodução

The Last Dance mostra que não é tarde para virar mais um fã maluco de Michael Jordan e do Chicago Bulls dos anos 90. Se um dos objetivos era reviver o legado de um dos maiores times de basquetebol, a série faz um “chuá”. E se o astro andava preocupado com as discussões de que outros jogadores teriam sido maiores do que ele, já pode ficar tranquilo em sua quarentena. Depois de dez episódios, é difícil pensar em uma figura tão fabulosa quanto ele. É difícil até pensar em algo depois do fim da série. Mais fácil reverenciar uma dinastia e seu líder maior: Ave, Bulls! Ave, Jordan!