Axé, Amado - Revista Esquinas

Axé, Amado

Por Gustavo Luizon e Pedro Santi : janeiro 25, 2020

O porão no bairro do Bixiga que guarda a tradição e o tempero da baiana

O primeiro contato foi um desencontro. Era sexta-feira à noite. Procurando pelo lugar, passamos na frente e lá estava “Ba”, dona deste restaurante de comida baiana, localizado no bairro do Bixiga, e que fica no porão de sua casa.

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Gustavo Luizon

Com o portão fechado, ali ela se encontrava varrendo o chão. Do lado de fora, perguntamos se podíamos conhecer o famoso Patuá da Baiana, pois estávamos fazendo uma reportagem. Ela negou, e respondeu que, por ser em sua casa, só atende as pessoas com horário marcado. Tentamos convencê-la de que precisávamos começar a matéria. No entanto, de maneira completamente cordial, ela mostrou que não dava para ser de outro jeito – para receber pessoas novas, ela prepara o local para a entrada de novas energias em seu recinto. Depois, explicou rapidamente o que buscava trazer em seu espaço: sua cultura e ancestralidade.

E assim, com muito respeito e simpatia, Ba nos convenceu – não entramos no restaurante e marcamos uma visita para o início da outra semana. Ali, conhecemos essa mulher gentil, atenciosa e com uma espiritualidade elevada.

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Gustavo Luizon

Na segunda-feira daquela semana, chegamos ao bairro do Bixiga por volta das 6h da tarde, horário combinado com Ba. Fomos recebidos por cachorros logo no portão – João e Jurema trouxeram um ar de paz. confiança e a sensação de que aquele encontro traria mais que uma reportagem.

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Gustavo Luizon

Ao entrar, passando pela casa, cozinha e descendo uma escada que dá diretamente ao porão, percebemos um ambiente acolhedor e aconchegante. Ao som de bossa nova, o ambiente de teto baixo, decorado com itens agregados durante a vida dela e selado às infiltrações das paredes, é também carregado de alegorias e símbolos da cultura nordestina, umbandista e baiana. Sentamos na maior mesa, no espaço mais decorado. Com luzes ofuscadas em paredes opostas, começamos a conversa.

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Gustavo Luizon

Ba contou brevemente sobre sua história. Seu nome é Hélia Januária Bispo. Não quis dizer sua idade, mas não aparenta ter muita, talvez uns 50 e poucos anos. É baiana de Amargosa, cidade vizinha de Salvador. “Leonina. De 26 de Abril. Mas meu segundo signo é escorpião”.

Escolhida pela avó para aprender a fazer a arte do acarajé, veio para São Paulo em 1989. Enfrentou algumas dificuldades em sua terra natal no período da Ditadura Militar. Foi presa, ainda menor de idade – vítima de tortura policial quando era bem nova – um fardo carregado durante anos.

Ba contou sua trajetória até criar seu restaurante e diz ter encarado alguns percalços nesse trecho. Abriu uma barraquinha de acarajé no Bixiga, que já era visado por ela por remeter ao pelourinho, um local cheio de vida, pessoas boas e recheado de cultura e arte. Seu pequeno empreendimento durou doze anos, criou amigos e clientes fiéis. Em 2001, após enfrentar problemas com a licença para continuar trabalhando na rua, Ba então decidiu procurar uma residência e abrir seu próprio restaurante.

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Gustavo Luizon

O Patuá começou sendo frequentado pelos amigos da baiana, que levavam mais e mais amigos. Hoje, é daqueles preciosos lugares escondidos em São Paulo que encantam todos. A lotação máxima é de 15 pessoas, Ba prefere não levar muita gente em seu pequeno estabelecimento – quer sempre receber todos com a devida atenção. O cardápio tem variedades da culinária baiana – além dos acarajés, vai do bobó de camarão ao escondidinho de carne seca. Para agendar, é necessário falar diretamente lá e com antecedência para que ela verifique a disponibilidade.

Tudo ali é origem e cultura. Em caminhos que se traduzem em sentimentos como o respeito e amor ao próximo, esse é o Patuá da Ba. Muito mais que um restaurante. Você não apenas se alimenta de comida tradicional baiana, mas de muito conhecimento. Lá, um almoço ou jantar se torna um grande devaneio pelas raízes do Brasil.

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Gustavo Luizon

“A gente agradece pelos bons momentos que a vida nos proporciona”, finaliza Ba.