A boa menina sempre deve ser - Revista Esquinas
REVISTA DIGITAL LABORATÓRIO
DA FACULDADE CÁSPER LIBERO

A boa menina sempre deve ser

Por Giovanna Favero, Helena Cardoso e Leticia Moreira : abril 11, 2018

A figura feminina e a idealização das princesas Disney

“Eu achei que princesas só cumprissem ordens” e “Princesas não levantam a voz”. Não, esses diálogos não são exclusividade do filme Valente (2012). Cotidianamente e com a mesma sutileza, discursos machistas são disparados, assimilados e banalizados. Inclusive por “inofensivas” animações infantis. Esse estereótipo do “feminino frágil” é confrontado desde 1960, em uma luta árdua, declarada e ainda sem fim, aliada a uma demanda crescente por representatividade das mulheres.

A Walt Disney Company, fábrica internacional de princesas em larga escala, parece ter absorvido esse clamor feminino em suas mais recentes produções. “A nova geração de princesas não espera mais por um príncipe encantado para salvá-la”, comenta Karina Alfano, que viveu e vive assistindo às produções da empresa. Essa fase a que a professora e mãe de uma menina de quatro anos se refere corresponde ao reinado infantil de Elsa, conhecida como Rainha da Neve e protagonista do sucesso de bilheteria e crítica Frozen (2014). Para Carolina Chamizo, jornalista e escritora do livro Era Uma Vez… Outra Vez – A Reinvenção dos Contos de Fada, o empoderamento que o filme promete, entretanto, não é assim tão genuíno. “O personagem mais carismático da produção é Olaf, um menino. Elsa é realmente um marco, mas muito mais pela canção do que pela personalidade”, explica.

E de personalidade a Disney entende. Influenciando mulheres desde sua primeira animação lançada em 1937 (Branca de Neve e os Sete Anões), a empresa cria personagens que são a primeira referência das crianças. Além de seus temperamentos e traços marcantes, a marca trabalha com moldes fixos e recorrentes de aparência, com “personagens magras, altas, brancas, de cabelos lisos”, como aponta Chamizo. Quando a personagem foge dos arquétipos impostos, o público não demonstra interesse equivalente. Uma evidência disso é o longa A Princesa e o Sapo (2009), primeira animação do estúdio protagonizada por uma princesa negra e independente. A arrecadação de bilheteria do filme foi de apenas 267 milhões de dólares. Em comparação, a da rainha do gelo rendeu mais de um bilhão de lucro nos cinemas, além de estampar produtos voltados ao público infantil.

“Talvez o fato de Tiana [a protagonista de A Princesa e o Sapo] trabalhar, não ter um príncipe belíssimo para acabar com seus problemas e, por mais triste que seja, ser negra são os motivos para que algumas pessoas ‘afastassem’ esse filme de seus filhos”, aponta a produtora de conteúdo audiovisual, Jessica Ballut. Mesmo tendo sido considerado um avanço na representatividade e longe de querer combater o racismo, o longa usa como escudo a popularidade e carisma do primeiro presidente negro dos Estados Unidos. O ano de lançamento da animação coincide com a primeira posse do estadunidense Barack Obama.

Com estreia prevista para 14 de junho deste ano, Os Incríveis 2 propõe uma revolução nos papéis socialmente delimitados aos homens e mulheres. Na medida em que a tarefa de salvar o mundo é entregue à Mulher Elástica, Beto é quem assumirá a vida doméstica. Ao mesmo tempo, Chamizo levanta um ponto importante: a heroína será mesmo a Mulher Elástica ou será que o herói do filme é o pai que fica em casa com as crianças?

A participação feminina na produção é mínima no próximo longa da Pixar, estúdio de animação pertencente à Disney. Personagens fortes como Jasmine, que resiste ao casamento forçado em Aladdin (1992), Esmeralda, que luta por justiça em O Corcunda de Notre Dame (1996), e Mégara, que morre para salvar seu amado em Hércules (1997), não são protagonistas e, muito menos, roteirizadas por mulheres. Ainda que essa tendência de mais personagens femininas fortes se confirme e a ousadia da Disney crie mais perfis desse tipo, a exaltação da mulher como heroína ainda está longe de ser uma exaltação do feminino.