Cinema árabe apresenta de forma diferente uma cultura marcada com sangue nos noticiários - Revista Esquinas

Cinema árabe apresenta de forma diferente uma cultura marcada com sangue nos noticiários

Por Rhaisa Trombini : agosto 13, 2019

Com 12 filmes – sete dirigidos por mulheres –, a 14ª Mostra Mundo Árabe de Cinema em São Paulo vai muito além de uma crise política nos mostrando pessoas e histórias

As poucas vezes em que nos deparamos com histórias e personagens árabes são nos noticiários mostrando mais um naufrágio, mais uma crise de refugiados, mais uma guerra centenária. Com iniciativa do Instituto da Cultura Árabe (ICArabe), a 14ª Mostra de Mundo Árabe de Cinema no Cinesesc vem para apresentar “a diversidade das produções e temas dos países árabes e uma nova geração de cineastas, com destaque para mulheres diretoras”, como promete o evento. A mostra teve início no dia 7 de agosto, termina na próxima quarta-feira (14) e traz para São Paulo 12 filmes, entre documentários e longas-metragens, sendo quatro inéditos e sete dirigidos por mulheres.

A Mostra de Mundo Árabe é dividida em três temas: “A chama da insurreição” reúne quatro documentários que têm como essência a ânsia de contar suas histórias fugindo e lutando contra qualquer preconceito, principalmente aquele apresentado pela mídia. Já em “Memórias e seus encontros”, os dois documentários e o longa-metragem usam a arquitetura das cidades como forma de transmitir um cotidiano marcado pela insegurança daqueles que fogem de seus países e encaram um novo mundo. No último bloco, “Do limite ao deslocamento”, com um documentários e quatro dramas, a realidade do povo árabe atual aparece escancarada na nossa frente indo muito além da fuga, pois os profundos e corrompidos personagens contam aquelas histórias que nós só vemos de longe, como um pequeno bote no oceano.

Corpo Estrangeiro (Corps Etranger, جسد غريب‎)

Bloco: “Do Limite ao Deslocamento”
Direção: Raja Amari
Duração: 1h32
Elenco: Sarra Hannachi, Salim Kechiouche, Hiam Abbass

No meio do trajeto de fuga algo deu errado e Samia caiu no mar. A jovem árabe, interpretada por Sarra Hannachi, luta para pegar fôlego suficiente antes de ser puxada novamente para as águas do Mediterrâneo por um homem, seu colega de embarcação, tentando voltar à superfície. Samia consegue chegar em terra firme, na França. Ilegalmente, pretende começar uma nova vida e deixar para trás a família e a Tunísia.

A jovem encontra um velho amigo de infância, Imed, interpretado por Salim Kechiouche, que está na França há alguns anos e a recebe no apartamento que divide com mais alguns homens. Na busca por um emprego e um novo lugar para ficar, depara-se com uma vaga para auxiliar uma senhora a arrumar a casa após a morte do marido. Na cena, que chega a ser cômica pela inocência, Samia faz a entrevista e uma hora depois liga para saber o resultado. Aceita, passa a morar com a patroa, Madame Bertaud, personagem de Hiam Abbass.

Mesmo com cenas de impacto que dão emoção ao cinema, a narrativa da diretora Raja Amari é confusa. A 1h30 de duração mostra pelo menos seis histórias diferentes, todas lutando pelo protagonismo no filme. Apesar da ótima atuação do trio árabe, o filme não é o que se espera. Na sinopse, é vendido como a história de uma refugiada na França e sua relação com a chefe, que passa de profissional para sexual, mas essa história acaba colidindo com várias outras, o que deixa o espectador sem saber no que prestar atenção. A relação de Imed com Samia transita da amizade para o ódio de uma cena para outra, e a atitude das personagens beira o absurdo: quando a jovem árabe começa a acreditar que o amigo pode lhe fazer mal, Bertaud propõe conhecer o homem e dormir com ele em troca de mais informações. Dessa forma, ele começa a frequentar a casa da madame e disputa com Samia a atenção da senhora.

Samia e a madame criam uma relação quase de mãe e filha e que mais tarde se transforma em algo mais íntimo. Porém, o único momento em que se revela sexual é quando a jovem faz uma dança sensual para Bertaud e Imed numa cena de tirar o fôlego com um ótimo jogo de câmera que acompanha a dança árabe, interrompido por um acesso de raiva do jovem que não aceita a relação das duas mulheres. Toda a sensualidade do filme acaba aí.

Há ainda um homem de capuz preto. Sombrio e sem identidade, ele esbarra com Samia desde o início do filme e a vigia pelos cantos. O espectador passa a acreditar que possa ser o irmão dela, um preso político cultuado por Imed e seus amigos, no começo sem muita explicação do porquê.

A reviravolta (spoiler à frente) vem quando Samia conta para Bertaud que o irmão era um líder jihadista na Tunísia, um extremista árabe, e que ela o entregou para a polícia. Com essa revelação parece que a história toma um novo rumo, que Samia está em perigo perseguida pelo irmão, mas não passa de uma quebra sem sentido no roteiro. O irmão morre na cadeia e o perseguidor de capuz fica sem identidade. O longa acaba com a senhora e a jovem viajando para a Tunísia para visitar o túmulo do irmão. As duas estão bem arrumadas conforme os padrões europeus, com grandes casacos e saltos altos. Samia vive agora em um “corpo estrangeiro”, como se a morte do irmão tirasse o peso de seu passado de suas costas. Junto, levou seu sangue árabe.

 

Além do Véu (Le’Jemalik, لجمالك)

Bloco: “A chama da insurreição”
Direção: Joy Ernanny
Duração: 18 minutos

A diretora do curta-metragem, Joy Ernanni é jornalista e trabalha na GloboNews há 6 anos
Reprodução / Joy Ernanny

Além do Véu é o mais novo documentário da jornalista brasileira Joy Ernanny. Ela nos apresenta o salão de beleza Le’Jemalik, em Nova York, feito para mulheres muçulmanas que usam hijabs e burcas.

A entrada de vidro dá apenas para a recepção, em tons de rosa e dourado. A magia mesmo acontece depois das portas, em um salão que parece como qualquer outro, mas traz consigo muito significado. Lá só é permitida a entrada de mulheres, o que faz com que se sintam à vontade para tirar o véu que cobre seus rostos. O pouco cabelo cortado no chão é um indício do diferencial do salão: além de cortarem, pintarem e arrumarem cabelo, elas fazem penteados com os tecidos tão característicos das mulheres muçulmanas. “É minha identidade, é quem eu sou, eu uso para Deus”, explica no documentário a CEO do lugar, Huda Quhshi.

O documentário de Ernanny ainda tem um tom político. As políticas islamofóbicas do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, faz a vida de pessoas árabes e muçulmanas ser mais difícil no país. Em 2018 foi aprovado um decreto que proíbe a entrada de cidadãos de países de maioria muçulmana. Na lista estão Irã, Iraque, Líbia, Síria, Somália, Sudão e Iêmen. Foi esse decreto que motivou a jornalista a tratar desses assuntos quando se mudou para Nova York.

Durante três meses Joy Ernanny foi ao salão todos os sábados e gravou as mulheres trabalhando e se embelezando. Uma das clientes conta para a jornalista que era tranquilo andar pelas ruas antes do decreto, que trouxe medo dentro da comunidade árabe. “Não era difícil fazê-las falar, elas eram muito abertas, muito mais do que as pessoas acham”, recorda a diretora durante a Mostra do Mundo Árabe.

Serviço 14° Mostra Mundo Árabe de Cinema

Até 14 de agosto
Ingresso Cinesesc: R$ 12,00 inteira; R$ 6,00 meia
Endereço: R. Augusta, 2075 – Cerqueira César. Metrô Consolação.

Confira a programação aqui.