“Para sempre Chape”: a reconstrução do clube após a tragédia - Revista Esquinas
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“Para sempre Chape”: a reconstrução do clube após a tragédia

Por Marina Bufon : agosto 8, 2018

Com metade do lucro revertida à Chapecoense, longa busca mostrar, sem sensacionalismo, os rumos percorridos para a consolidação da equipe no futebol nacional

O dia 27 de novembro de 2016 ficou marcado pela nona conquista do Campeonato Brasileiro pelo Palmeiras em cima da Chapecoense, adversário daquela tarde no Allianz Parque, em São Paulo. A data também ficou conhecida, dois dias depois, como a última vez que o time catarinense, comandado pelo técnico Caio Júnior, pisou naquele e em qualquer outro solo brasileiro. É a história deste clube e de sua reestruturação após um grave acidente de avião que o uruguaio Luis Aras conta no documentário “Para sempre Chape”, com estreia marcada a partir de quinta-feira (9). Cinquenta por cento do lucro da produção será doado ao clube.

As gravações do documentário aconteceram no Uruguai, Colômbia, Brasil e Espanha
Divulgação

O longa de 74 minutos foi filmado de março a setembro de 2017 em quatro cidades (Montevidéu, Medellín, Chapecó e Barcelona). “Para sempre Chape” mostra desde a fundação do clube em 1973 e o percurso percorrido com investimento limitado e poucos funcionários, passando pelos títulos conquistados e chegando à tragédia que envolveu a delegação, jornalistas, convidados e tripulação. A soma do desastre resultou em 71 mortos e seis sobreviventes, entre eles, o jornalista Rafael Henzel e os jogadores Alan Ruschel, Neto e Jackson Follman.

Na ocasião, o avião comandado pelo piloto Miguel Alejandro Quiroga transportava os passageiros para Medellín, a segunda maior cidade da Colômbia, onde a Chapecoense e o rival Atlético Nacional fariam a primeira de duas partidas da final da Copa Sul-Americana, feito inédito para o clube brasileiro. Com combustível insuficiente e aviso de emergência mais tarde que o recomendado, a aeronave foi de encontro a um morro a poucos quilômetros da cidade-destino e acabou com o sonho não só de Chapecó, mas da maioria dos brasileiros. Mesmo assim, o clube resolveu, com a ajuda de outros times e seus próprios dirigentes e sobreviventes, renascer.

A Chapecoense seguia uma trajetória de ascensão no futebol nacional e latino-americano antes da queda do avião em novembro de 2016
Divulgação

“Sempre estive atento à ascensão da Chapecoense. Depois da tragédia, acompanhei a vontade do clube de se reerguer e pensei ‘como isso é interessante, o que eles estão fazendo depois de tudo’. Então, entrei em contato e comecei a encontrar histórias”, revelou o diretor Luis Aras após a pré-estreia do documentário, em São Paulo. O objetivo do filme, segundo o cineasta, é focar nas pessoas e contar seus relatos.

Foi assim que o diretor mesclou imagens de jornais desde a criação da Chapecoense até as conquistas do Campeonato Catarinense (1977, 1996, 2007, 2011, 2016 e 2017) e da Copa Santa Catarina há nove anos. Por ter disputado a Copa do Brasil naquele ano, o Verdão conseguiu seu primeiro acesso à Série D do Campeonato Brasileiro e, em apenas cinco anos, uma ascensão meteórica com a chegada à elite do futebol, na Série A. Em 2015, a Chape disputou pela primeira vez uma competição internacional, a Sul-Americana, mas foi eliminada em casa pelo tradicional River Plate.

Um ano depois, tudo parecia nos eixos, com a conquista do Estadual em cima do Joinville. Na nova edição da Sul-Americana, para a qual tinha se classificado no ano anterior, eliminou adversários de peso, como os argentinos Independiente e San Lorenzo e o colombiano Junior Barranquilla. A classificação para a final veio após uma defesa memorável do goleiro Danilo contra o San Lorenzo. Porém, devido à tragédia, a partida nunca aconteceu.

Tudo isso é mostrado no documentário, permeado pelos depoimentos dos brasileiros sobreviventes, do atual presidente do clube Plínio David de Nes Filho, do então gerente de futebol João Carlos Maringá e de Yaneth Molina, controladora do voo. Sirli de Freitas, esposa do assessor do clube, Cléberson, morto na tragédia, o ex-goleiro Nivaldo Martins e o ex-presidente Nei Roque Mohr também dão suas palavras durante a pouco mais de uma hora de filme. Em nenhum momento Aras focou na tragédia em si, mas sim na reconstrução da equipe, que vem lutando desde então para se consolidar no cenário nacional do futebol novamente.

O diretor Luis Aras preferiu ir além da tragédia na Colômbia: quis mostrar a alegria da população de Chapecó e a esperança do time atual
Divulgação

“É sempre possível trazer algo positivo de uma tragédia. Minha intenção era mostrar o desejo do time em devolver a alegria para a população de Chapecó, voltar a ter esperança”, garantiu o diretor, que também já esteve à frente de outros sete filmes. Ele tinha imagens dos entrevistados chorando, o avião caindo, os caixões após a queda. Mas preferiu “mostrar o lado forte, essa é a melhor mensagem para a gente”.

Com a escolha certa, tanto no documentário nada sensacionalista quanto no time continuando seu percurso meteórico, a Chapecoense busca seu espaço. Não que o tenha perdido, mas que o esporte no Brasil é mesmo assim. Com a ajuda de outros clubes e de sua própria torcida e cidade, ainda disputa neste ano a Copa do Brasil e o Campeonato Brasileiro, além de estar em constante luta por aqueles que foram e merecem tantos outros títulos.

 

PARA SEMPRE CHAPE

Uruguai, 2018, 74 min, classificação indicativa a definir

Direção | Roteiro | Produtor Executivo: Luis Aras

Produção Associada: Susana Córdova

Música: Gabriel Casacuberta

Direção de Fotografia: Ignacio Jaunsolo

Som: Santiago Carámbula

Produção: Trailer Films

Distribuição: Arcoplex Cinemas