Quem consegue ver o elefante na sala? - Revista Esquinas
REVISTA DIGITAL LABORATÓRIO
DA FACULDADE CÁSPER LIBERO

Quem consegue ver o elefante na sala?

Por Miguel Groisman : março 7, 2019

“As pessoas o alimentam, mas ele não percebe”

Um Elefante Sentado Quieto fez sua estreia em 2018 na sessão Forum da 68ª Berlinale, o Festival Internacional de Cinema de Berlim. Agora, em 2019, sob distribuição da Zeta Filmes, o Instituto Moreira Salles o traz de volta para uma exibição limitada até o final de março. O filme começa com essa descrição de um animal que fica sentado, parado, o dia inteiro. Não sente quando as pessoas o cutucam com gravetos nem quando lhe dão comida. É um elefante em um circo na cidade de Manzhouli, no interior da China, destino que mais cedo ou mais tarde une os quatro protagonistas que nos acompanham por aproximadamente quatro horas de exibição. Se você aceitar o convite do autor a mergulhar na história, o tempo não é o maior dilema, embora a carga emocional da obra ainda seja difícil de digerir non-stop.

Hu Bo era um romancista chinês e diretor de cinema, conhecido pelo longa-metragem Um Elefante Sentado Quieto
Reprodução

Wei Bu (Peng Yuchang), um garoto que, por acidente, empurra o bully da escola escada abaixo; Wang Jin (Liu Congxi), o vizinho de 60 anos cuja nora pretende mandá-lo para um lar de idosos decadente e quase abandonado; Huang Ling (Wang Yuwen), colega de Wei Bu que se envolve com o vice-diretor do colégio e tem o pai ausente e uma relação conturbada com a mãe; por fim, Yu Cheng (Zhang Yu), um gângster local que tem um caso com a mulher do amigo e precisa vingar, pela honra da família, o irmão mais novo hospitalizado por Bu.

Esse grupo movimenta a história, cada qual com sua própria trama, embora Um Elefante Sentado Quieto tenha um esforço maior ao longo do filme de não deixar o grupo movido à margem ser observado isoladamente; com transições não sutis, porém imbuídas de sentido, suas narrativas vão sendo conectadas umas às outras. Em um plano paralelo, ele também não deixa de identificar uma sociedade perfeccionista, tropeçando ainda em uma vivência de compartilhamento digital e cobrança por uma racionalidade industrial. Esse olhar do coletivo remonta ao cinema do polonês Krzysztof Kieslowski, mais ainda às obras do húngaro Béla Tarr, outro gigante da sétima arte que serviu de “mestre” para o diretor de Elefante. O trabalho do cinegrafista Fan Chao – que contribui com “composições visuais de nível virtuoso” – também é influenciado por ambos com os longos planos-sequência. A escolha de seguir os atores de costas e não excluir do filme cenas que não contribuem explicitamente para a trama, mas fazem parte da vida dos personagens.

O longa-metragem é o primeiro e último de Hu Bo, que também o roteirizou, participou do casting e o editou. Bo tirou a própria vida após concluir o filme, em outubro de 2017, não presenciando a aclamação dele em festivais internacionais e as sete indicações ao Golden Horse, o principal prêmio para o cinema falado em chinês. Definir o filme assim é limitante e também uma publicidade um tanto indigna para “justificar” o que se tornou um clichê da crítica: falar da indiferença presente em Elefante como um diário de Bo. Essa tese não se sustenta. Se essa fosse a intenção do autor, ele teria se sabotado colocando no meio de sua narrativa de desumanização momentos de altruísmo que podem parecer anulados sem um olhar observador, tendo em vista a duração de 234 minutos.

A narrativa do longa-metragem se passa em um único dia – narrando desde o amanhecer ao entardecer
Reprodução

Esses lampejos podem até ser uma escolha inconsciente do criador que lidava com seus próprios demônios, mas eles estão lá. “A melhor saída é você estar bem aqui… e olhar para o outro lado. Acreditar que deve haver algo melhor. Mas não poder ir. Ao não ir, você aprende a viver com isso aqui”, surge em determinado momento de Elefante.

O que é o elefante? Eles chegam lá? Há um “lugar” para chegar? O final escolhido por Hu Bo é inconclusivo, como uma das fotografias dos cinemas de Hiroshi Sugimoto: uma tela branca.

 

Serviço

IMS Paulista
Até o dia 17/03
Avenida Paulista, 2424
(11) 2842 9120
Ingressos: R$ 8,00 (inteira) e R$ 4,00 (meia), podem ser comprados no IMS no dia do filme ou durante a semana no site do Ingresso.com