Arte que desenterra - Revista Esquinas

Arte que desenterra

Por Fatime Ghandour e Tiago Tortella : setembro 24, 2019

Apresentando o espetáculo Subterrâneo, o grupo Gumboot Dance Brasil levou dança e música aos presentes na Conferência Internacional Cidades Sustentáveis 2019

Os artistas batem palmas e tapeiam suas botas de plástico, vestindo macacões simples esverdeados e blusas brancas como se estivessem sujas de terra. O chão do palco vibra pela força dos movimentos e choques das mãos nas botas dos dançarinos do Gumboot Dance Brasil, seguindo uma melodia única ao fundo. A coreografia e as expressões dos artistas impressionaram a plateia do Auditório Oscar Niemeyer, no Parque do Ibirapuera, na última quarta-feira (22), durante a apresentação do espetáculo Subterrâneo.

Parceria do grupo com o Itaú Cultural, a apresentação trouxe movimentos sonoros. A dança em si encanta o público. Ao ouvir as palavras que os dançarinos entoam durante a realização do número, a estranheza inicial é inevitável. São grunhidos e gritos. “Uma energia muito visceral, que faz o chão tremer”, define o bailarino, coreógrafo e diretor do Gumboot, Rubens Oliveira. Inspirada na dança sul-africana que dá nome ao grupo, criada no século XIX pelos trabalhadores das minas de ouro do País e utilizada como meio de comunicação por não falarem o mesmo idioma. Fizeram musicalidade a partir de seus instrumentos de trabalho: botas, capacetes e lanternas. E é da história desses movimentos que se deu o nome ao espetáculo.

Os dançarinos usam o corpo e as roupas para fazer a música da apresentação
Marcelo Hideki

Pamela Amy, uma das bailarinas, é enfática ao comentar que, por mais que dancem o passado, mostram ao mundo sua indignação com o atual. Segundo ela, a arte traz o questionamento do entorno. Para isso, Oliveira tem 15 anos de pesquisa pessoal envolvendo a gumboot, incluindo uma viagem à África do Sul para estudá-la. Quando voltou ao Brasil, quis contar a história não apenas dos mineiros, mas também a dos artistas sobre os palcos: periféricos, que vivem em condição de opressão, que não precisam estar debaixo do asfalto, mas que por cima dele ainda se encontram invisíveis, oprimidos e vítimas de violência. “O gumboot oferece uma visibilidade a questões que são extremamente violentas no nosso país, sobre milhares de homens e mulheres que vivem em situações subterrâneas mesmo estando em cima do asfalto”, explica o bailarino.

Para o diretor do número, o artista olha para o mundo e devolve por meio de seu corpo o que enxerga como reflexão para a sociedade: um lugar de sustentabilidade e tecnologia humana. E é isso que o grupo apresenta no palco do Auditório Oscar Niemeyer em uma dança que já existe há cinco anos. A companhia necessita de uma equipe bem articulada e há muito tempo ensaiando, sendo rara a presença de novos integrantes. Pamela Amy tem 24 anos, dança gumboot há sete e treina com grupo de Oliveira desde então, por exemplo.

Apesar de se inspirar em uma tradição da África do Sul do século XIX, o grupo aborda temas da atualidade no espetáculo que dura quase uma hora
Marcelo Hideki

As palavras que os artistas entoam palavras ocasionalmente no palco, incompreensíveis para parte do público vem de origem sul-africana, de acordo com Rubens Oliveira. No processo de criação de Subterrâneo, o coreógrafo entendeu que seria interessante criar uma linguagem própria, um código que fosse musical para se entenderem no palco.

Atualmente, o coletivo está em temporada pelo Brasil. Além da apresentação na Conferência Internacional Cidades Sustentáveis, chegaram a São Paulo no dia 18 deste mês e partiram no dia seguinte para a Região Norte. Antes disso, ficaram um mês e meio pelo sul no Palco Giratório das unidades do Serviço Social do Comércio (Sesc).