Duquesa a Gustavo Mioto: Virada Cultural promove a integração

De Duquesa a Gustavo Mioto: Como eventos culturais de rua integram diferentes públicos

Por Letícia Banhos, Lívia Zaidan, Luiza Kellmann, Mariana Noronha, Sofia Sá : junho 8, 2026

O palco da Virada Cultural com os profissionais arrumando todos os equipamentos, com o telão do evento de fundo. Foto: Sofia Cingotta

A ÚLTIMA VIRADA CULTURAL CONSEGUIU INTEGRAR PÚBLICOS DIFERENTES E ROMPER BOLHAS CULTURAIS

A Avenida Luiz Gushiken, na Chácara Santana, mudou de forma ao longo da tarde de domingo, 24 de maio de 2026: o palco M’Boi Mirim da Virada Cultural recebeu, em sequência, o trap e R&B de Duquesa e o sertanejo universitário de Gustavo Mioto. Em poucas horas, o evento foi cenário de uma mudança gradual de público.

Das 14h às 18h30, os dois grupos dividiram o mesmo espaço, com aproximações, estranhamentos e descobertas de estilos musicais completamente distintos. A partir desse contraste, foi investigado como o gosto musical pode ultrapassar o entretenimento e expressar recortes de identidade e pertencimento. O palco torna-se, então, o local onde diferentes juventudes, muitas vezes distantes, se cruzam e coabitam.

Cantora de trap feminino Duquesa cantando e dançando em seu show. Foto: Sofia Cingotta

Cantora de trap feminino Duquesa cantando e dançando em seu show. Foto: Sofia Cingotta.

O choque do trap feminino

Uma hora antes do primeiro show começar a rua já estava cheia: muitas mulheres negras, principalmente, várias delas pertencentes à comunidade LGBTQIAPN+. Elas usavam estilo streetwear, com calças e casacos largos, maquiagens mais fortes em tons de preto, e demonstravam muita ansiedade para ver a cantora de perto, de forma gratuita. Esse primeiro público era composto, em sua grande maioria, jovens de treze a vinte anos que tomavam conta dos espaços da pista.

No meio da multidão, havia também alguns pais, mais velhos, que vieram trazer suas filhas. Foi o caso de Rita de Castro, uma mãe que foi acompanhar a filha na apresentação da Duquesa, mas que também ficaria para ver a atração sertaneja posterior. Segundo ela, quando o show de trap acabou, grande parte dos jovens foram embora e só restaram apenas aqueles que realmente queriam ver o Gustavo Mioto. Luana, de 18 anos, contou à revista que o caso dela era esse: estava lá apenas para ver a cantora e depois iria embora.

Público do show da Duquesa visto do palco. Foto: Sofia Cingotta

Público do show da Duquesa visto do palco. Foto: Sofia Cingotta.

Outra parcela do público já estava lá à espera das músicas sertanejas, e chegou mais cedo para conseguir um lugar privilegiado perto do palco. Caroline Maia, de 26 anos, que às duas horas da tarde já estava colada nas grades que separavam o palco e a área vip do restante do público, vestindo uma camiseta estampada com fotos do cantor Gustavo Mioto, contou que estava lá apenas para o segundo show, e, com isso, acabou conhecendo o trabalho da cantora de trap.

A transição para o ‘modão’ sertanejo

Por volta das quatro horas da tarde, o perfil do público começou a mudar: de adolescentes negras e pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ para homens e mulheres héteros, cisgêneros e mais velhos.

Chegaram cada vez mais pessoas; a área reservada para PCDs, idosos, gestantes e mulheres com crianças de colo começou a encher, já que mais mães, pais e avós queriam assistir à próxima apresentação. A vestimenta também era diferente: chapéus de cowboy, calças jeans mais coladas, cores mais quentes e vibrantes, com ausência de preto e de peças largas.

O cantor Gustavo Mioto, seu backing vocal e o sanfoneiro da banda cantando e tocando juntos. Foto: Sofia Cingotta

O cantor Gustavo Mioto, seu backing vocal e o sanfoneiro da banda cantando e tocando juntos. Foto: Sofia Cingotta.

Em contrapartida, em um público misturado como o deste evento, destacou-se Pedro Alberto. O garoto de 15 anos, que cantou no palco com Gustavo Mioto, é apaixonado por um “modão”, mas se vestia muito mais a caráter ao estilo do show de trap, já que usava calças largas, correntes prateadas, cabelo “na régua”, regata colada e uma camisa aberta.

E a plateia permaneceu exatamente assim, do meio ao final do evento: com um crescimento gradual e intenso. O que mudava eram os estereótipos. Muitos fãs da Duquesa permaneceram para o segundo show, mas toda nova leva de pessoas que chegava vinha caracterizada de acordo com o estilo country.

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Virada Cultural que integra

A Virada Cultural de 2026, promovida pela Prefeitura do Município de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Cultura, contou com uma programação de diferentes shows e exposições, com o MASP (Museu de Arte de São Paulo) aberto durante a madrugada do dia 23 para o dia 24 de maio, entre muitas outras atividades que possibilitaram grandes e valiosas trocas de valores, estilos e identidades.

As opiniões das próprias pessoas que compunham os diferentes públicos sobre a integração gerada pela Virada Cultural eram bem estabelecidas e respondiam à questão: o evento realmente conecta ou afasta os diferentes grupos e estilos?

A pergunta foi feita para o jovem Enrico Lobato, que vivenciou tanto o show da Duquesa com suas amigas quanto o de Gustavo Mioto, que era o cantor que ele já conhecia. De acordo com o entrevistado, esse evento foi um dos principais a conseguir agregar as diferenças de público, do trap ao sertanejo.

“Eu acho que a Virada Cultural, cada vez mais, vai abranger mais públicos. E eu acho isso muito bom, essa inclusão de pessoas, por não ser só um público destinado, mas sim todo mundo da região”, declarou Enrico Lobato.

Quatro jovens enfileirados, dois homens e duas mulheres, sendo entrevistados por uma repórter da revista. Foto: Sofia Cingotta

Quatro jovens enfileirados, dois homens e duas mulheres, sendo entrevistados por uma repórter da revista. Foto: Sofia Cingotta.

Aysla Soares, de 19 anos, amiga de Enrico, marcou presença no show de trap e relatou:

“Essa é a primeira vez que eu venho na Virada Cultural e eu acho que integra bastante. Dava para ver muita mesclagem, para onde você olhava tinha gente de todas as idades, de todos os gêneros, estilos e personalidades”, comentou Aysla Soares.

A maioria das respostas foi muito parecida, mas, para Ketlin Nicole, houve, sim, um estranhamento. A jovem foi à Virada para assistir ao show de Gustavo Mioto e explicou que seu estilo é mais “boiadeira”; como chegou mais cedo, acabou presenciando a apresentação da cantora de trap e estranhou as músicas, já que não fazem parte do seu gosto musical. Entretanto, isso não a impediu de concordar:

“Claro que integra! Eu sou um ótimo exemplo disso!”.

Ela não conhecia a primeira atração e, graças ao evento, passou a conhecê-la.

Os shows de trap feminino, da cantora Duquesa, e de sertanejo universitário, de Gustavo Mioto, dividiram o mesmo palco no fim de semana, e mostraram que o público passou, sim, por uma transição, mas que isso não impediu de terem uma troca cultural. Muitos chegaram cedo e aproveitaram os dois shows, o que resultou em uma experiência de descoberta para quem inicialmente buscava apenas uma das atrações musicais, comprovando que os eventos da Virada Cultural de São Paulo promovem integração e desalienação entre diferentes culturas.

Editado por Mariana Lima
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