A folia cresceu - Revista Esquinas
REVISTA DIGITAL LABORATÓRIO
DA FACULDADE CÁSPER LIBERO

A folia cresceu

Por Ana Carolina Idalençio e Yasmin Luara : março 2, 2019

Carnaval de Rua 2019: mais de 300 bloquinhos – que de “inho” nada têm – devem animar São Paulo

O Carnaval é uma das maiores festas do país, que extrapola os dois dias de feriado e avançam pelos finais de semana próximos. Com suas origens ligadas à violenta brincadeira portuguesa entrudo – prática em que se jogava nos participantes água, farinha, objetos pesados pelas ruas –, passou pela repressão policial na década de 1950 e teve que se adaptar a um estilo menos perigoso até se tornar no que é hoje: fantasias, trios elétricos, samba, hits do momento e blocos de rua. A trajetória foi longa até tomar as proporções gigantescas que tem hoje por todo o Brasil.

É difícil traçar o momento exato que a festa se tornou tão grande e os bloquinhos, tão populares. Cássio Calazans de Freitas, presidente da Savima (Sociedade Amigos da Vila Madalena), conta que o costume de alguns anos atrás era de se viajar durante o feriado. “Pararam de fazer isso quando o desemprego cresceu e as pessoas começaram a ficar aqui para o Carnaval”, diz Freitas. Com a Copa do Mundo de 2014, o mundo conheceu o bairro da Vila Madalena e se encantou com a facilidade de acesso que toda cidade tem a ele. Bares, a aura boêmia, a riqueza cultural e paisagem. Não tardaria para se comemorar o Carnaval por ali.

As dimensões do Carnaval no Brasil têm crescido proporcionalmente às responsabilidades de organização e segurança do governo
Divulgação

A Savima relata que realiza um árduo trabalho fiscalizando as ações do Ministério Público de São Paulo para tornar a festa na região a mais organizada possível, já que a concentração de pessoas lá nos últimos anos tem fugido do controle. Para se ter ideia, a Vila Madalena passou a ser uma Zona de Atenção Especial, sendo permitidas somente e aproximadamente cinco mil pessoas dentro de seus limites.

A principal reclamação é sobre a distribuição desigual dos blocos de rua pela cidade. Os bairros mais famosos costumam não ter espaço suficiente para comportar tanta gente. O fato de que há pouca ou nenhuma fiscalização nessas regiões durante os dias do feriado também é um problema e facilita a presença de vendedores ambulantes – que acabam ganhando a clientela da região e prejudicando o comércio local. A Savima, com o apoio de 87% dos moradores da região, pretende entrar com uma ação neste pós-carnaval no Ministério Público para que os blocos de rua só ocorram aos sábados e domingos, tornando o feriado mais tranquilo para os moradores e mais bem coordenado para quem planeja sair às ruas durante a folia.

Como estão em 2019?

Neste ano, o número de bloquinhos e desfiles bate recorde. Segundo a Prefeitura de São Paulo, 516 blocos devem animar as ruas da capital paulista em 556 desfiles – um aumento considerável em relação aos anos anteriores. Aliás, São Paulo tem uma coleção de blocos que desfilam desde a época das marchinhas e serpentinas. Este ano, 85 desfiles de grupos com mais de dez anos de fundação marcarão presença nas ruas da cidade. O Carnaval de Rua de 2019 recebe mais uma vez o patrocínio da marca de cervejas Skol, e foi destinada a ele uma verba de 16,1 milhões de reais para financiamento da festa, segundo informações fornecidas pela Prefeitura de São Paulo. Trata-se do maior recurso dedicado ao evento até hoje, o que aponta a crescente valorização da folia.

Arte de Henrique Artuni

Já há alguns anos, a Prefeitura de São Paulo promove campanhas para conscientizar as pessoas no carnaval. Uma delas é a “Lei do Xixi” (Decreto 57.983 de 2017), que visa conscientizar a população a não urinar nas ruas da capital. A multa para quem for flagrado urinando nas vias públicas é de 526,57 reais. Só no primeiro final de semana de folia deste ano, foram aplicadas 46 multas. As propagandas sobre a limpeza da cidade e o trabalho infantil também são foco da Prefeitura. No ano passado, foram recolhidas da rua pela Autoridade Municipal de Limpeza Urbana (Amlurb) aproximadamente 958 toneladas de lixo. A previsão para este ano é coletar cerca de 14% a mais que o último carnaval – cerca de 1,1 mil toneladas de resíduos.

Os cuidados com segurança e saúde não param por aí. Roubos, furtos, assédio e acidentes são frequentes durante o feriado. “Cerca de 1.200 agentes vão atuar no apoio e fiscalização de comércio irregular, e 1.840, na zeladoria. Em relação aos postos médicos, 104 estarão disponíveis em toda capital”, afirma a Secretaria Municipal das Subprefeituras de São Paulo. Para o fim de semana pré-Carnaval, 1.450 agentes de trânsito foram destacados e divididos em turnos para atuar na festa. No período do Carnaval, o número é de 1.380. Já no pós-Carnaval, 830.

A Secretaria também informou que a assistência médica do evento deste ano será prestada pela Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM), que, procurada, não atendeu às perguntas da ESQUINAS até o momento de conclusão desta reportagem. Além desses cuidados, entrará em circulação nos blocos de maior concentração o ônibus lilás, uma doação do programa federal Mulher Sem Violência ao município de São Paulo. O veículo – itinerante, passará pelo Largo da Batata, Praça da República e Avenida Tiradentes – prestará suporte gratuito a mulheres que sofrerem assédio ou abuso durante a folia. Em casos específicos, a vítima é encaminhada para um órgão competente – hospitais, Instituto Médico Legal, Delegacia da Mulher, Ministério Público ou Defensoria Pública. Segundo a Prefeitura, mais de mil mulheres foram atendidas no Carnaval de Rua 2018.

Aliás, esses cuidados não são tomados apenas por parte da Prefeitura. O empresário José Cuy Filho, de 59 anos, ajuda na organização de cinco blocos, além de participar de pelo menos cinco outros. Há três anos trabalha para que esses blocos tenham a melhor estrutura e organização possível. “Independentemente do tipo de bloco que você vai pôr na rua, o principal é garantir um ambiente seguro e divertido, não agressivo, nem perigoso ou violento”, explica. São tarefas e preocupações que devem ser colocadas em prática, como segurança, logística e cidadania.

“No caso de blocos maiores, é preciso pensar em tudo. Se você imagina que vão ter cerca de 20 mil pessoas ao redor do bloco, tem toda uma preocupação artística. Se o bloco tiver um trio ou uma bateria, será que eu não é melhor ter uma corda pra separar eles da multidão, de modo a evitar tumultos e garantir o conforto pra quem está tocando?”, continua o empresário. Ele ainda comenta que, “se as pessoas querem beber até cair”, chamar uma ou duas ambulâncias ou bombeiros para ficarem de prontidão deve ser uma atitude a se considerar.

Planejamento completo

A expectativa para 2019 é que cinco milhões de pessoas participem do Carnaval de Rua em São Paulo. Dez mil vendedores ambulantes foram cadastrados pela Prefeitura, e a sua proposta é que seja uma festa democrática e descentralizada. “Não será permitida a venda de espaços nem de abadás que dão o direito a áreas privilegiadas. Ele [Carnaval] é descentralizado, com desfiles por todas as regiões da cidade, e organizado, com um trabalho feito ao longo de um ano envolvendo as mais diversas secretarias”, anunciou o prefeito da cidade, Bruno Covas.

Devido ao trajeto planejado para os bloquinhos, o trânsito de São Paulo sofre alterações. Algumas linhas de ônibus têm seus itinerários modificados, mas é possível acompanhar a programação dos ônibus durante o feriado no site da SPTrans. Pelo mesmo motivo, algumas ruas do programa Ruas Abertas e certas Ciclofaixas de Lazer – proposta incentivada pelo Bradesco Seguros – ficam suspensas, como é o caso da região da Avenida Paulista.

Durante o pré-carnaval de 2019, 210 bloquinhos já tomaram conta das ruas de São Paulo. Para o resto do evento, estão previstos outros 306 para contagiar os foliões com o clima de festa. A programação completa pode ser acessada pelo site da Prefeitura, separada pelas zonas da cidade.