Apurações de fôlego - Revista Esquinas
REVISTA DIGITAL LABORATÓRIO
DA FACULDADE CÁSPER LIBERO

Apurações de fôlego

Por Thiago Bio : agosto 27, 2018

Na abertura da II Semana de Comunicação, repórteres contam sobre as exigências que demanda uma grande reportagem

“Você não vai descobrir o grande furo da história vendo farol quebrado”. Com esta frase, Renata Cafardo resumiu bem o tom da conversa sobre jornalismo aprofundado que aconteceu na manhã desta segunda-feira (27) no Teatro Cásper Líbero. A repórter de O Estado de S. Paulo sentou-se ao lado de Cecília do Lago, do mesmo jornal, Conrado Corsalette, cofundador do Nexo Jornal, e Jefferson Mariano, professor da Faculdade Cásper Líbero.

Em meio às discussões de como o jornalismo pode ser relevante ao analisar dados, os convidados do primeiro dia da Semana de Comunicação Cásper Líbero explicam que essa não é uma tarefa simples: o levantamento e a observação dos dados de uma tabela ou de um gráfico podem demorar dias, até mesmo meses, para se tornarem uma reportagem de fôlego publicada. O uso correto de um infográfico realizado a partir da coleta de dados facilita a interpretação da matéria. Quando o leitor passa muito tempo perdido tentando entender o gráfico, tem algo errado.

Da esq. para dir.: Conrado Corsalette (Nexo), Renata Cafardo (Estadão), Cecília do Lago (Estadão), e prof. Jefferson Mariano (Cásper)
Gustavo Ramos

Para isso, existem pessoas como Lago, que é jornalista de dados do Grupo Estado. No início de outubro de 2017, o grupo do jornal especializado nesse tipo de jornalismo preparou um infográfico sobre a onda de furtos de celulares, que se espalharam por metade das ruas de São Paulo. A reportagem conquistou a capa do jornal e, posteriormente, o Prêmio Estado de Melhor Infografia do Ano. Por meio de técnicas de apuração, como o shapefile, a equipe elaborou um mapa da cidade indicando o local de cada caso de roubo e foi àqueles de maior incidência para tentar descobrir as causas desse problema. Lago ainda indicou outros métodos de captação e investigação de dados, como o QGIS, a SQL e a Lei de Acesso à Informação.

Com diversas fontes de informação, o infográfico sobre os roubos de celular em São Paulo ganhou o prêmio Estado de Melhor Infografia do Ano
Reprodução / O Estado de S. Paulo

Cafardo, por sua vez, lembrou “da reportagem da minha vida”, como classificou a matéria que, no ano passado, virou o livro O Roubo do Enem. Foi ela a responsável por revelar, nas páginas do Estado, o vazamento do exame em 2009. A prova passava por reformulações durante o Governo Lula, e o livro destaca a sua trajetória antes e depois do vazamento, relacionando as visões da imprensa, da polícia e do Ministério da Educação para solucionar o caso.

O Roubo do Enem, livro de Renata Cafardo, relata o escândalo com o exame nacional, em 2009

Esperançosos, Cafardo, Lago e Corsalette veem um futuro promissor para o jornalismo. Apesar de “as pessoas não estarem acostumadas a pagar por informações na internet”, como lembrou o cofundador do Nexo, o modelo de assinaturas para jornais online é uma das alternativas para superar a tal “crise do jornalismo”. Para isso, ele acredita que tudo se baseia em uma relação de confiança entre os leitores e o veículo. Os três jornalistas, casperianos por formação, ainda lembraram de novos formatos para a prática jornalística, como os podcasts e o próprio jornalismo de dados bem apurado que foi comentado durante a palestra.