A Bienal da coletividade - Revista Esquinas
REVISTA DIGITAL LABORATÓRIO
DA FACULDADE CÁSPER LIBERO

A Bienal da coletividade

Por Susana Terao : setembro 11, 2018

Com cerca de 600 obras e mais de cem artistas, inicia-se uma nova edição da maior mostra de arte contemporânea da América Latina

A Bienal deste ano se divide em 12 núcleos individuais e sete coletivos
Vitor Correia

A 33ª edição da Bienal de São Paulo começou na sexta-feira (7), trazendo uma nova abordagem, diferente e inovadora, tanto na temática como no formato da curadoria. Nesta edição, o curador-geral espanhol Gabriel Pérez-Barreiro divide a função com mais sete artistas-curadores, que não estabelecem um tema para ela. Apenas dão o título “Afinidades afetivas”.

A ideia é não limitar a Bienal à visão do curador em um único tema. Pérez-Barreiro tenta subverter a relação vertical que a curadoria cria e horizontalizar com mais sete artistas, pensando juntos qual seria a melhor maneira de expor a arte contemporânea mundial. Coube a ele fazer a organização geral, convidando e homenageando alguns artistas em 12 exposições individuais, enquanto os demais artistas expandiram com exposições coletivas, dividindo-as em núcleos pelos três andares do Pavilhão Ciccillo Matarazzo, no Parque Ibirapuera, em São Paulo. Dentre esses doze artistas selecionados por Pérez-Barreiro, três receberam homenagem póstuma: Aníbal López, Feliciano Centurión e Lucia Nogueira.

Homenagens

Aníbal Lopez, ou A-153167, como ele assinava, possuía em sua obra um viés político que questionava o limite do artista, como é o caso de O Empréstimo, que reflete as pequenas corrupções diárias e a maneira que o dinheiro interfere nas relações sociais. No entanto, a maior polêmica na exposição é a videoinstalação Testemunho, na qual o artista, natural da Guatemala, apresenta uma espécie de entrevista coletiva em que pessoas perguntam a um matador de aluguel ele realizava seus serviços. O choque vem, principalmente, da naturalidade das respostas para cada questionamento.

A exposição de Feliciano Centurión, que nasceu no Paraguai, é marcada por pinturas em tecido e bordados. O artista faleceu devido a complicações do vírus HIV e a ênfase dada à mostra são os panos que o artista bordou durante o período de recuperação da saúde, formando uma espécie de diário mórbido.

A terceira homenageada foi Lucia Nogueira, natural de Goiânia, no Centro-Oeste brasileiro, e tem sua exposição no segundo andar do Pavilhão. Nela, as instalações e esculturas da artista dão um novo significado a objetos do cotidiano, promovendo uma maleabilidade entre “a coisa” e a palavra.

As exposições coletivas realizadas pelos curadores-artistas foram organizadas nos sete núcleos temáticos a seguir:

Sentido/Comum

No piso térreo do Pavilhão, está a maior das sete exposições coletivas, denominada Sentido/Comum, organizada por Antonio Ballester Moreno, que mora e trabalha hoje em Madrid, na Espanha. O destaque desse núcleo é a instalação Vivan los campos libres, composta por cerca de 3.500 cogumelos de barro, esculpidos por alunos da rede pública e privada, funcionários da Fundação Bienal e pelo próprio Ballester.

Vivan los campos libres, de Ballester, é uma das principais obras desta Bienal
Vitor Correia

A partir da produção dos cogumelos, estabeleceu-se alguns dos principais ramos do núcleo de Ballester: a relação com a natureza, o senso de coletividade, a relação da criança com a arte com seu olhar simples e comunitário. O artista-curador trouxe também estudos do pedagogo alemão Friedrich Fröbel, criador do termo “jardim de infância”, para dialogar com o lúdico infantil e a relação do corpo como parte do aprendizado infantil.

Por estar no piso térreo, a conexão com o Parque do Ibirapuera é ainda maior e o artista estabeleceu essa relação com a natureza usando grandes painéis com cores estimulantes, que dialogam com a chuva, com o sol e com as árvores. É uma mistura de biologia e cultura.

Antonio Ballester brinca com natureza e arte nos painéis no piso térreo
Vitor Correia

A infinita história das coisas ou o fim da tragédia do um

Ao subir a rampa, encontra-se o próximo núcleo, a segunda maior exposição coletiva da edição e com o maior número de artistas envolvidos. A mostra foi organizada por Sofia Borges, natural de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. Este núcleo foi organizado no formato de um labirinto com paredes altas que isolam a exposição do resto da Bienal, tapando até mesmo os pilares característicos do Pavilhão. Tudo isso para aumentar a experiência de imersão na densa temática cinza.

A brasileira Sofia Borges organizou um “labirinto de arte” no Pavilhão da Bienal para dar uma noção de introspecção ao observador
Vitor Correia

Regido pelo acaso, sem muito registro sobre a autoria de cada obra, Borges cria uma espécie de caverna e invoca principalmente objetos e símbolos ritualísticos na maioria das vezes ligados à fertilidade e à sexualidade. A intenção da artista curadora foi que o público se perdesse, e não trilhasse sempre o mesmo caminho na exposição.

O título do núcleo surgiu depois do contato de Borges com uma tribo indígena que tinha uma relação ruim com o número um. No entanto, a artista considera importante esta relação com o singular. Assim, ela dialoga com a tribo e, ao mesmo tempo, sugere uma nova leitura para o que ela denomina como a “tragédia do um”.

Sempre/Nunca

Wura-Natasha Ogunji, de ascendência nigeriana, é responsável pelo ambiente acolhedor desse núcleo que carrega no nome termos opostos e contraditórios, criando essa exposição realizada apenas por mulheres artistas, invocando o que ela chamou de feminino energético.

Neste espaço, a artista declarou que gostaria de “envolver o prédio com as obras”. Há, então, um diálogo explícito entre as obras e a arquitetura do Pavilhão.

A nigeriana Wura-Natasha Ogunji tentou montar suas instalações de acordo com a arquitetura do Pavilhão da Bienal, no Parque Ibirapuera
Vitor Correia

A artista sul-africana Lhola Amira, por exemplo, traz a questão racial à tona com a obra Para ser curado: sente-se deixe-me te cobrir, que mostra uma aparição diária da artista, que lava os pés do público negro e indígena com água e sal.

A instalação de Lhola Amira interage com o público e traz uma reflexão para a questão racial da população negra e indígena
Vitor Correia

Aos nossos pais

O uruguaio Alejandro Cesarco definiu a escolha dos artistas que compuseram sua seção na Bienal pelo predomínio da repetição em suas intervenções artísticas. Neste setor, há uma grande menção à pop art.

As obras organizadas por Cesarco remetem ao momento da pop art dos anos 1950 e 1960
Vitor Correia

O artista trabalha também com a questão de passado e presente, explicitando a possibilidade de diálogo entre obras contemporâneas e anteriores. Reforça-se, também, a originalidade de cada artista. É o caso da obra de Elaine Sturtevant, dos Estados Unidos, logo no início da exposição, que remete diretamente à produção de Andy Warhol, considerado líder do movimento de arte pop.

Uma das inspirações de Sturtevant é o artista americano Andy Warhol
Vitor Correia

Andrea Büttner, da Alemanha, por sua vez, traz a obra Phone Etching, uma cópia de impressões digitais deixadas na tela de seu celular.

No núcleo Aos nossos pais, as impressões digitais levadas por Büttner chamam a atenção
Vitor Correia

A questão racial é tratada na área pelo norte-americano Cameron Rowland, que traz a instalação de um relógio e três recibos. Um relógio que, por sua vez, passou por diversos fazendeiros como ativo tributável. A questão é que o mesmo ativo tributável feito para escravos é reproduzido para o relógio, equivalendo-os como objetos sob esta perspectiva.

A obra de Rowland é mais um exemplo de reflexão da questão racial
Vitor Correia

Pássaro Lento

O tempo é o objeto de estudo da argentina Cláudia Fontes. Ela levanta a ideia de que um pássaro que não está voando, mas não necessariamente parado, está planando. Ela sugere que se passe por esse setor com calma e em silêncio. As instalações e obras aqui carregam elementos minimalistas que requerem atenção e tempo do observador.

A obra Nota al pie, da própria artista, representa o contrário do pássaro que ela emprega na exposição. Composta por milhares de fragmentos de porcelana cobertos por uma espécie de gaze, a artista expõe o resultado do que seriam destroços de pássaros acelerados que sobrevoaram sobre objetos de porcelana. A obra requer tempo do público para ser desvendada. De forma aleatória, amarrada a cada fragmento, por menor que seja, se encontra uma palavra.

A calma é essencial durante a observação do núcleo Pássaro lento
Vitor Correia

Subjetividade artística

No terceiro e último andar se encontram os dois últimos núcleos de exposições coletivas: a Stargazer II, de Mamma Andersson, e Os aparecimentos, de Waltercio Caldas. Andersson, que nasceu na Suécia, trouxe uma série de pinturas em seu núcleo. O nome da exposição veio de uma espécie de peixe que se guia pelas estrelas para nadar. Ela utilizou isso como metáfora para a sua subjetividade dentro do ateliê. Além disso, Andersson buscou artistas que retratassem a melancolia e a introspecção. De algum modo, todos eles dialogam com obras de sua autoria.

Mamma Andersson expõe obras que remetem ao ensimesmamento da artista
Vitor Correia

Diferente do expressionismo de Andersson, o carioca Waltercio Caldas traz o minimalismo à tona. Caldas discute em sua exposição como alguns artistas ficam marcados e caracterizados por fases de sua carreira. Por isso, dos artistas convidados ao seu núcleo, ele traz obras que não são tão conhecidas e que fogem ligeiramente do padrão de cada um.

A Bienal Internacional de Arte de São Paulo vai até 9 de dezembro, no Pavilhão da Bienal, no Parque do Ibirapuera. A entrada é gratuita. Mais informações no site oficial do evento.