Beleza e brutalidade da “fotógrafa da máfia” - Revista Esquinas
REVISTA DIGITAL LABORATÓRIO
DA FACULDADE CÁSPER LIBERO

Beleza e brutalidade da “fotógrafa da máfia”

Por Alice Anhaia Melo e Guilherme Magalhães : maio 11, 2019

Referência do jornalismo na Itália e da fotografia no mundo, Letizia Battaglia ganha exibição no IMS Paulista

Na manhã de 27 de abril, o Instituto Moreira Sales, na Avenida Paulista, 2424, inaugurou a mostra Letizia Battaglia: Palermo, que exibe a arte da fotógrafa italiana conhecida por seus retratos da violência da máfia. O curador do evento, Paolo Falcone, guiou o público pela exposição e narrou a carreira da Battaglia e os momentos marcantes da máfia da cidade de Palermo enquanto passeava pelas fotografias expostas na Galeria 2 do instituto. “É um trabalho de homenagem, antes de tudo”, diz Falcone. São 90 imagens que compõem um ambiente delicado e irônico, de dor e esperança, das realidades dúbias registradas pela fotógrafa.

Homem se cobre com uma capa para não ser fotografado, Geraci Siculo, 1989
Letizia Battaglia / Divulgação

Hoje com 84 anos, a fotógrafa iniciou sua carreira em 1971, em Milão. Três anos depois, retornou à sua terra natal, Palermo, e associou-se ao jornal L’Ora, que a tornou conhecida. “Letizia foi e continua sendo a maior referência em fotojornalismo da Itália. Além de se destacar em um meio altamente masculino e machista que era o jornalismo daquela época, foi uma mulher de peso político e de participação decisiva no combate ao sistema mafioso”, explica o curador. A máfia dominava a cidade, os cidadãos viviam momentos caóticos com seus governantes filiados à Cosa Nostra – antiga e ainda viva organização italiana de tráfico de drogas, assassinatos e movimentações milionárias de dinheiro sujo –, e o L’Ora era a única plataforma que denunciava o sistema decadente e corrupto da época.

A fotógrafa Letizia Battaglia nasceu em março de 1935, na cidade de Palermo
Divulgação

Letizia Battaglia foi a responsável pela fotografia do jornal até seu fim, em 1992. Narrou a guerra contra o crime e foi militante – quando não integrante ativa – das operações anti-máfia, o que lhe garantiu o título de “fotógrafa da máfia”. Além de imagens fortes de assassinatos e chacinas, documentou o cotidiano dos bairros e do povo pobre. Também foi dona de jornais e editoras ativistas e fundadora da revista Mezzocielo, criada exclusivamente por mulheres em resposta aos massacres mafiosos e a favor da luta pelos direitos civis. “A exposição tenta desmistificar esse glamour que os filmes passam sobre a máfia. Não era assim. Se trata de uma organização cruel e criminosa, uma quadrilha sanguinária e tentacular, sem nada de bom, que assombra a Itália até hoje”, comenta Falcone.

Crianças brincam com armas que receberam de presente dos pais em 2 de novembro, Dia de Finados, Palermo, 1986
Letizia Battaglia / Divulgação

O contexto político complexo da Itália dos anos 1980 e o olhar apurado da jornalista resultaram em um trabalho único: fotografias de beleza e valor histórico-social inestimável. A exposição é gratuita e pode ser visitada até 22 de setembro, das 10h às 20h.