Construções vivas - Revista Esquinas
REVISTA DIGITAL LABORATÓRIO
DA FACULDADE CÁSPER LIBERO

Construções vivas

Por Beatriz Cristina e Giovanna Stival : maio 28, 2018

Como funciona a tendência do video mapping que está reconfigurando a arte urbana

Ter a sensação de que a cidade ganha vida é algo que está se tornando cada vez mais comum nos prédios e construções de São Paulo. Obras de arte interagindo na estrutura do MASP, personagens de desenho animado destruindo prédios residenciais, figuras geométricas e imagens interativas que remetem a um universo paralelo na parede de tijolos de um festival de música. O video mapping, ou projeção mapeada, como é chamado em português, é um tipo atualizado de intervenção urbana que usa tecnologia e design digital com o objetivo de dar profundidade à paisagem cinzenta que estamos acostumados a ver todos os dias e pretende ressignificar a caótica realidade paulistana.

O que parece ter nascido dos programas de softwares recentes, na verdade, já era feito nos computadores dos jovens que viveram a ascensão das culturas alternativas por volta dos anos 1960. O cenário underground expandia seus conceitos para além da música característica do movimento e abordava, de um jeito inédito, novas formas de expressão no audiovisual. Pensando em explorar suas qualidades artísticas, os VJs, sigla para video jockeys, responsáveis pelo design das projeções, começaram a expor seus trabalhos em festas alternativas e eletrônicas através da costura de imagens e vídeos, que eram exibidos de maneira a ambientar as músicas tocadas, dando um clima mais original aos encontros.

Para chegar ao resultado atual, esse modelo de arte sofreu grandes mudanças. Hoje, as projeções não estão mais ligadas unicamente às músicas alternativas, mas sim ao visual e à forma como a mensagem será recebida por quem está assistindo. Geralmente são exibidas durante a noite ou em salas escuras, para que a luminosidade do dia não interfira nas apresentações. Elas contam com a presença de diversos projetores de luz montados em lugares estratégicos para formarem imagens que se movimentem precisamente, dando um aspecto tridimensional a olho nu. As cores chamativas, luzes brilhantes e o design inovador são usados para atrair o público num processo de imersão, que não é encontrado nas projeções tradicionais, fazendo com que se torne uma experiência inédita e interessante para todos que se encontram no ambiente.

Video mappings em exposição “SP – A Capital Tropicalista”, do VJ Spetto
Giovanna Stival

O que rege o mapping é a efemeridade. Apesar de demorarem cerca de dois meses para ficarem prontas, desde o esboço até o resultado final, as obras têm um curto período de duração quando chegam ao público. Quem o observa em ação tem a oportunidade de presenciar o projeto tomando vida no mesmo instante em que passa a integrar a paisagem urbana, sem deixar vestígio ou marca relacionados à exposição realizada. Logo que se desliga o projetor, nada sobra além da construção que está no mesmo lugar todos os dias.

Lê Pantoja, que é VJ na cidade do Rio de Janeiro e trabalha com projeções desde 2007, considera a rua o melhor lugar para passar mensagens, pois “é democrática, surpreende e leva a arte e a comunicação para quem não está esperando”. A artista comenta que essa é uma nova possibilidade de olhar a mesma paisagem de todos os dias, criando uma sensação de pertencimento em um mundo que parece estar distanciando cada vez mais as pessoas.

Os vídeos são projetados simultaneamente, em 13 anteparos, criando diferentes cenários imersivos
Giovanna Stival

A publicidade viu nas projeções uma oportunidade de explorar novas formas de atingir o público alvo de uma marca, enquanto os artistas encontraram uma chance de atingir reconhecimento e profissionalização nesse meio. O Midiadub, dupla formada pelos VJs Arthur Boniconte e Gabriel dos Santos, aproveitou desse movimento do mercado para levar suas projeções para todo o mundo em parceria com grupos famosos que querem inovar nas divulgações. Os amigos, que se conheceram na faculdade de Cinema há treze anos, trabalharam para a Samsung, Schutz e Absolut Vodka, além de terem realizado o vídeo cenário do show de Gilberto Gil em 2016 e ganhado, no mesmo ano, bronze no prêmio Caio. “Existe a técnica e existe uma infinidade de propostas que serão utilizadas para fazer um outdoor ou uma obra de arte pública que vai mudar a vida das pessoas”, argumenta Santos.

Pensando em incentivar o público a participar diretamente das produções, Ricardo Roque, dono da produtora Imagem Sonora, ministrou um curso gratuito de projeção mapeada em 2017 no Centro Cultural São Paulo, na região central da cidade. Em seis encontros, a intenção foi introduzir o software Resolume Arena aos interessados e profissionais da área de design que procuram utilizar essa técnica em sua área de atuação. Roque afirma que essa mídia está em constante expansão e que o acesso aos programas abre oportunidades em diversos segmentos. Cada vez mais o público tem contato com novas possibilidades de explorar os espaços urbanos, e a realidade dentro do mapping não é o limite para as criações.