A nova “queridinha do público” - Revista Esquinas
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DA FACULDADE CÁSPER LIBERO

A nova “queridinha do público”

Por Beatriz Lemos e Julia Maria Pereira : dezembro 12, 2018

Conheça Yukontorn Tappabutt: de camareira a estrela do MasterChef, a tailandesa se tornou fenômeno entre fãs e seguidores

Nascida em Suphanburi, na Tailândia,ganhou o coração dos brasileiros com seu carisma e dotes culinários. Conhecida por sua passagem no programa de reality show culinário MasterChef Brasil 2017, exibido pela Band, a tailandesa mostrou que, apesar das dificuldades com a língua, cultura e mascarada xenofobia, foi possível alcançar a 13ª posição no ranking da competição entre os 21 participantes.

Aos 17 anos, Yuko, como é popularmente conhecida, deu a cara a tapa ao se aventurar morando sozinha no Alasca, nos Estados Unidos, com tão pouca maturidade e experiência. Lavou banheiros em um resort e gastou seu salário com “futilidades” até a rotina a saturar. Influenciada pelo namorado da época, viu-se de malas prontas para ingressar numa nova vida no Brasil, a “terra das oportunidades”.

Chegando ao País, conseguiu emprego como professora de inglês mesmo com a formação acadêmica em Administração de Empresas. Após alguns anos, optou apenas pelas aulas particulares, abrindo portas para suas atuais ocupações: freelancer e youtuber.

Em meio a tantas profissões distintas, a gastronomia se fez presente. No auge de seus 15 anos, a primeira vitória veio em uma competição escolar de culinária. Dezesseis anos depois, após uma primeira tentativa frustrada de entrar no MasterChef, Yuko se destacou com a cozinha rústica, caseira e tradicional que aprendeu com a mãe ao longo dos anos, sendo bem-sucedida em seu segundo processo de seleção.

Em temas que vão de comida a feminismo, na entrevista abaixo, apresenta-se mais a fundo uma das personalidades mais queridas do reality show gastronômico.

ESQUINAS Você é professora de inglês e formada em Administração de Empresas. O que fez você escolher o Brasil, e não um país que fala inglês, por exemplo?

Eu tenho certificado para dar aula para o kindergarten [jardim de infância], que seria crianças de 3 a 12 anos, pela Cambridge University. Então, não posso dar aulas para adultos, mas não significa que eu não os ajude. Eu adapto as aulas para as crianças com o conhecimento que adquiri quando morei nos Estados Unidos. Eu morava no Alasca e comecei a namorar um brasileiro. Vim para cá só por causa dele. No fim, nossa relação não deu certo. E eu, pessoalmente, não gosto do Brasil, mas gosto dos brasileiros. O Brasil não é um país arrumado: tem pichações em todos lugares, é meio sujo. Mas os brasileiros são legais, amigáveis, receptivos e têm muita alegria.

ESQUINAS Qual foi sua primeira dificuldade quando chegou ao Brasil?

A língua! A língua foi o mais difícil porque, quando não se fala bem, as pessoas começam a rir. Não é tão difícil para mim [o fato de as pessoas rirem dos erros linguísticos], mas para algumas asiáticas que tem mais vergonha, quando começam a rir, elas começam a perder a confiança. Então isso foi difícil. As pessoas gostam de ficar falando “flango, flango, flango”. Eu não gosto disso, acho falta respeito, porque a gente tenta falar sua língua, mas fala errado. Não é nosso erro.

ESQUINAS A língua ainda é um problema ou você já avançou nesse quesito?

Eu não sei, viu? O português é uma língua que fica estranho se você fala muito corretamente. Eu vou me adaptando de acordo com as pessoas com quem convivo. Se eu for falar com a minha assessora, vou acabar falando com o sotaque dela. Eu aprendi com brasileiros, então eu sempre falei “Vamos com a gente”, por exemplo, e nunca fui pesquisar nem nada. Mas, na verdade, o certo é “Vamos conosco”. Eu nunca busco o certo, busco o que as pessoas falam.

ESQUINAS Foi difícil para sua família aceitar sua decisão de vir para o Brasil?

Nem um pouco. Minha mãe já estava me tirando de casa quando eu tinha 17 anos para morar sozinha nos Estados Unidos. Meu pai não quis, mas minha disse “eu quero”. Eu menti, disse que iria para lá se eu passasse no teste. Pedi dinheiro emprestado e eles foram me dando dinheiro para inscrição, material e tudo mais. Quando se vai pedir empréstimo para os pais, não se diz de cara “quero mil dólares”, ou eles se assustam.

Fui para o Alasca e trabalhava mais de brincadeira, gastava todo o dinheiro. No primeiro mês, eu olhei minha conta e tinha quatro mil dólares na poupança e 500 dólares no bolso. Pensei que fosse ficar rica, nunca tinha visto tanto dinheiro que fosse realmente meu. Acabei fazendo besteira. Trabalhei por sete meses e pagava viagens, hotel cinco estrelas, passeio de iate. Lembro de um dia em Las Vegas, que fui passar o cartão e apareceu que estava recusado. Eu não sabia o que era aquilo. Meu amigo tailandês me explicou que era porque não tinha mais dinheiro na conta. Minha mãe me ajudou mais uma vez a pagar as contas. Depois disso, trabalhei de tudo para poder conseguir dinheiro para poder devolver para minha mãe cada centavo.

ESQUINAS Onde entra a culinária em tudo isso?

Quando eu tinha 15 anos, havia uma placa na porta de uma escola anunciando uma competição de culinária. Quem ia experimentar os pratos era o governador da cidade. Eu entrei e ganhei em primeiro lugar.

ESQUINAS O programa MasterChef é muito distante dessa competição?

É bem diferente. Na escola, não tem prova em grupo, como no MasterChef. Nem o menor torneio que eu competi na Tailândia tinha. Acredito que tenho um “dom” na cozinha. Tentei entrar duas vezes no MasterChef, fiquei entre os 75 finalistas, mas não passei. Eu provava os pratos e sabia que “tá gostoso, eu experimentei. Muita gente experimentou. Como assim você diz que não tá gostoso?”. Eu fiquei cinco meses pensando “esse programa é uma porcaria”. Cinco meses! E depois começou a desbloquear minha cabeça: haviam três jurados e era preciso fazer coisas que eles gostassem, não é?

ESQUINAS Montar um restaurante está nos seus planos para o futuro?

Eu não gosto de rotina. Acordar de manhã e mexer sempre com a mesma comida. Não quero abrir um restaurante porque eu gosto de desafios, coisas novas, novidade, e não de ficar em pé todo dia, cozinhando os mesmos pratos. Trabalho desde os 17 anos e desde essa idade eu comecei a buscar o que eu queria de verdade para minha vida. Eu estava nos Estados Unidos e eu trabalhei lavando banheiros em um resort. Ganhava muito bem. Mas eu pensei o que minha vida seria se eu lavasse banheiro até meus 40 anos. Seria chato sabe? Concluí a faculdade de Administração de Empresas com 20 anos, bem cedo, na Tailândia. Entrei em uma fábrica de carros. Faltavam engenheiros que falassem inglês fluentemente. Gostei muito, mas trabalhei muito também.

Aí vim para o Brasil para aprender português, mas fui embora para o meu país para tentar emprego em uma escola bilíngue com três mil alunos. Virei professora, mas parecia que tinha muito criança que a mãe pagava para ir à escola e ficou terrível. Dar aula é legal, só não gosto de aluno que não tem vontade de estudar. Voltei para o Brasil, dei aula na Fisk [escola privada de idiomas] e comecei a dar aulas particulares. Com dois alunos das aulas particulares, ganho um salário do mês inteiro da Fisk. Esse foi o ponto inicial para começar o trabalho como freelancer.

ESQUINAS Sobre os comentários negativos em relação à sua nacionalidade. Você ouve muitos por aí?

A maioria me chama de japonesa. Para eles [brasileiros], todo mundo é japonês. Eu não sei se é bom ou ruim, mas sempre tem alguém que cometa “ela é tailandesa”. Na maior parte da Ásia, a gente não tem preconceito de ser chamado de japonês, mas acho que quem não gosta é coreana, por causa dos problemas entre os dois países. Pode me chamar de japonesa, tudo bem.

ESQUINAS Você passou por alguma experiência de preconceito durante ou fora do MasterChef, pessoas usando termos xenofóbicos voltados diretamente a você?

Eu acho que eu tenho sorte porque entrei na quarta temporada do programa e virei uma “queridinha do público”. Quando a pessoa me xinga, sempre tem alguém que xinga de volta. Não sofri muito preconceito ou xenofobia, mas tem muita gente do MasterChef que está sofrendo com redes sociais. Isso se chama cyberbullying. Mas só não sofri muito porque minha família não está aqui, não está lendo o que dizem. Porque dói quando sua mãe, por exemplo, lê os comentários ruins.

ESQUINAS Você mencionou em um vídeo do seu canal no YouTube que você teve uma namorada na época que ainda morava na Tailândia. As relações homossexuais são vistas com estranhamento lá? Existe um desconforto por parte do tradicionalismo?

Na Tailândia é tudo super aberto. Existem homens que têm barba e músculos e que usam vestidos, saias curtas, sapatos altos. Ninguém nem olha. Eles andam tranquilamente na rua. Na Tailândia, um homem beijar outro homem na rua não tem problema nenhum, nós somos muito abertos em relação a isso.

ESQUINAS Ainda pensando em quebra de paradigmas, vivemos em uma sociedade machista, em que homens controlam a maioria dos mercados. Você acha que isso acontece também na gastronomia?

Eu acho que o machismo hoje acontece mais dentro de famílias, como o pai ter uma autoridade maior do que a mãe. Pelo fato de homem ganhar mais, tem mais força e é mais poderoso. Mas no social, eu não ouço mais falar sobre machismo, pois homens sabem que mulheres tem capacidade de trabalhar bem. Agora sobre o feminismo, eu acho que foi um termo muito bom nos tempos antigos porque a mulher não podia sair sem pedir autorização ao marido. Acho que o mundo mudou, mulheres podem até se tornar presidentes. Então não acho que as palavras “machista” e “feminista” existam no social, apenas dentro das famílias.

ESQUINAS Então você acha que as mulheres estão bem contempladas na cozinha?

Sim, acho que elas têm direitos iguais. Na cabeça do homem já foi aceito que mulheres têm um potencial legal. E na cabeça da mulher também é aceito que homem sabe cozinhar bem. Não acho que nem o homem nem a mulher seja um obstáculo, que não existe o feminino e o masculino. Quando se cozinha, que não se usa muito força, por exemplo, então não vejo muita diferença.

ESQUINAS No fim das contas, você tem planos ou vontade de sair do Brasil, voltar para a Tailândia?

Eu não sei, na verdade. Eu sou freelancer e, primeiramente, essa minha vida fixa é aqui. Sabe, what goes up must come down [tudo que sobe desce]. Talvez um dia eu não tenha mais serviços no Brasil. Nesse caso eu teria que recomeçar do zero. A vida de freelancer é o que todo mundo quer: trabalhar de casa, de pijama, mas quando acaba o serviço, acabou mesmo, tem que começar de novo. Talvez eu volte para a Tailândia ou busque outra coisa, tudo depende do que vai acontecer no futuro.