"A Travessa está fechada para o público até segunda ordem. Eu temo pela segunda ordem”, diz livreiro - Revista Esquinas

“A Travessa está fechada para o público até segunda ordem. Eu temo pela segunda ordem”, diz livreiro

Por Laura Navarro : maio 8, 2020

Leonardo Marona fala sobre o mercado literário durante crise gerada pelo novo coronavírus

Diversos ramos de negócios se concentram ao máximo em não implodir com a crise econômica gerada pela pandemia de covid-19, e o literário é um deles. Nesse momento, a internet se torna uma grande aliada. De acordo com Leonardo Marona, livreiro da Travessa de Botafogo, Rio de Janeiro, o que a rede tem feito é concentrar as vendas pelo site – que “aumentaram, é claro”. A escala dos funcionários prevê que cada um vá à livraria física uma vez por semana, já que “a Travessa está fechada para o público até segunda ordem”, o que ele diz temer.

Leonardo Marona, livreiro da Travessa de Botafogo, afirma que nesse momento as pequenas livrarias estão nas mãos da fidelidade de seus clientes.
Acervo Pessoal

Além disso, Leonardo afirma que a Travessa também começou a trabalhar com televendas – atendimento por telefone – a partir do dia 8 de abril. “É bom que fique claro que, mesmo quando você compra pela internet, seja comida ou livros, não são robôs que recolhem sua compra e mandam para você”,  diz. “Hoje, mais do que nunca, essas pessoas correm sérios riscos. Deveriam, por isso, ser mais bem remuneradas. E, logicamente, aqui não me refiro só aos livreiros”, pontua.

Pequenas editoras na pandemia

O livreiro também ressalta que é ilusório pensar que “livrarias de funcionamento não-predatório, como a própria Travessa, a Mandarina e a Livraria Simples”,  podem suportar o isolamento e o afastamento físico do público. “As melhores livrarias do Brasil, as pequenas, geralmente são geridas por literatos românticos e pouco ambiciosos, e se mantêm já com muito pouco. Pagando dívidas e longe do lucro, dependem muito dos seus clientes fiéis”, afirma Leonardo. “Talvez sobrevivam se conseguirem prestar e divulgar serviços de entrega, sempre correndo os riscos do vírus. Mas o que fazer? Elas precisarão mais do que nunca da fidelidade daqueles que lá tiveram bons momentos entre os livros. Por amor, apenas. Porque valem a pena”, analisa, completando que a empatia e o envolvimento afetivo são ensinados pela própria literatura.

Ainda segundo ele, ao contrário do que muitos imaginam, não haverá aumento de preço entre os livros. Pelo contrário, editoras pequenas, como a Patuá e a Macondo Edições, estão dando desconto nos preços dos livros ou até mesmo eliminando frete.

De acordo com Leonardo, as pequenas editoras têm dificuldade de sobreviver a esse momento. Ele também é escritor e já passou por diversas delas, como a Garupa – que publicou seu título Herói de Atari em 2017. No entanto, ressalta que essas editoras seriam uma espécie de heróis dentro do mundo dos livros. “E dos heróis se espera tudo”.

Esse heroísmo pode ser justificado. As editoras independentes se renovam e mantêm a criatividade. Por isso, Leonardo diz que elas conseguem sobreviver “sem vender a alma”. Ele considera isso essencial quando se vende livros. “Essas pessoas [de pequenas editoras] não serão ricas e, graças a isso, existem as grandes descobertas reais, de autores, de editoras, de cenas.”

Leitura e isolamento

Leonardo acredita que o isolamento favorece o contato com nós mesmos. “Sem muita escapatória, seremos mais do que nunca o que sempre fomos. Os que sempre leram muito, lerão ainda mais. Ou não lerão nada, pois às vezes ler também é fugir de si”, reflete.

“Acho que se o isolamento se esticar muito, veremos pessoas fazendo cada vez mais coisas sem sentido. Como, por exemplo, comprar milhares de livros para ler poucos. Eu mesmo faço isso. Acho que a tendência é, num primeiro momento, fazermos muito mais do que sempre fizemos. E, num segundo, inventarmos coisas novas para fazer, ou enlouquecermos de vez”.