O Idiota: das palavras aos quadrinhos - Revista Esquinas
REVISTA DIGITAL LABORATÓRIO
DA FACULDADE CÁSPER LIBERO

O Idiota: das palavras aos quadrinhos

Por Guilherme Strabelli e Victoria Bechara : maio 4, 2018

André Diniz lança O Idiota, sua nova graphic novel que adapta o clássico russo

“Quando eu terminei de ler, o livro me tocou. Tinha que fazer alguma coisa com ele, fazer algum trabalho”. E foi assim que o roteirista e quadrinista brasileiro André Diniz definiu o processo de sete anos de produção do seu novo livro, O Idiota – uma adaptação da obra do autor russo Fiódor Dostoiévski para os quadrinhos – em um bate-papo no último dia 23, na Quanta Academia de Artes, localizada na Vila Mariana, Zona Sul de São Paulo.

O Idiota original foi publicado em 1869 e conta a história do Príncipe Liév Míchkin, que retorna à Rússia após quase cinco anos de tratamento de epilepsia na Suíça e se envolve com a belíssima e disputada Nastácia Filíppovna. A narrativa segue como base a tese de que o homem bom e puro – o protagonista, no caso – jamais poderá conviver em uma sociedade corrompida, tornando-se um idiota para seus semelhantes.

Lançado em 1869, O Idiota, um dos cinco “elefantes” de Dostoiévski, chega aos quadrinhos pela visão de André Diniz.
Divulgação

André Diniz, nascido em Niterói (RJ) em 1969, é escritor, pesquisador da música popular brasileira, historiador e professor. Formado pela Universidade Federal Fluminense, tem mais de vinte obras publicadas. No final dos anos 1980, começou a se envolver com a política, participou da consolidação do Partido dos Trabalhadores (PT), foi vereador em Niterói, secretário municipal de cultura, assessor político e líder da bancada petista na câmara.

Hoje, vive uma carreira de sucesso no mercado editorial. Diniz se destaca por suas histórias em quadrinhos, como Fawcett, 7 Vidas e Morro da Favela. O desenhista já recebeu 18 prêmios, entre eles três troféus HQ Mix de melhor roteirista, o Oscar dos quadrinhos no Brasil.

Mas nem sempre foi assim. Antes de assumir o título de quadrinista, Diniz escrevia os roteiros, mas os passava a outros artistas, pois não gostava do seu modo de desenhar. Com o passar do tempo, parou de lutar contra seu próprio traço e assumiu seu estilo: mão pesada, olho bruto e formas geométricas marcantes, com traços inspirados na arte africana.

Morro de Favela (2012), HQ escrita e desenhada por Diniz, conta a vida do fotógrafo Maurício Hora, morador do Morro da Providência.
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Em 2011, começou o processo de produção de sua nova graphic novel, interrompido em 2013 por conta da depressão, que não o deixava se concentrar. Três anos depois, mudou-se para Lisboa, em Portugal, e as cem páginas coloridas da adaptação de O Idiota foram parar no lixo. Resolveu começar tudo novamente, assumindo seu próprio estilo e em preto e branco, com 400 páginas. “Ou fazia mais 200 páginas de um jeito que eu não estava gostando, ou fazia 400 de uma forma mais gostosa”, relembra.

Seu principal desafio foi o roteiro: juntar todas as ideias e descrever cada cena em forma de texto, um “mapa” na concepção dele. Depois disso, veio a parte de criação, um rascunho. “Quando estou na minha fase tranquila, faço o esboço. Já quando estou com problemas, vem a última parte do processo, a execução, e tenho que ficar sozinho, em silêncio, sem ser interrompido”, conta. Ele afirma que o livro não é um resumo ou uma forma mais simples de ler Dostoiévski, mas sim a sua própria versão, sem deixar de lado a história original.

As quase 800 páginas do romance foram condensadas em uma narrativa extensa, mas com pouco texto.
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Ao longo da produção do livro, o quadrinista mudou o estilo do desenho com pequenos detalhes, que precisaram ser corrigidos em páginas iniciais. Traços e cores foram alterados durante o processo. Para a ambientação da narrativa, Diniz fez uma análise histórica do período que se passa O Idiota de Dostoiévski. Isso fica explícito quando vemos detalhes nos vasos, relógios e construções desenhados pelo artista.

O Idiota é a terceira obra de Diniz que chega às prateleiras do Brasil nos últimos quatro meses. No final do ano passado, lançou Matei meu pai e foi estranho e Olimpo tropical, ambos pelo selo Jupati da Marsupial Editora. Um quarta produção já está para sair – na Europa. Malditos Amigos será lançado em maio, em Lisboa, e abordará a depressão pela qual o autor passou. O objetivo é fazer algo autobiográfico e que una a experiência própria à ideia de ter um personagem que fosse um tatuador no Centro de São Paulo. “Eu tinha essa história sem personagem e esse personagem sem história, então pouco a pouco, fui casando as coisas”, explica.