“As mulheres estão assumindo seu espaço. Na música não seria diferente” - Revista Esquinas

“As mulheres estão assumindo seu espaço. Na música não seria diferente”

Por Isabelle Colina : outubro 5, 2019

ESQUINAS conversa com Paula Fernandes para entender o porquê da ascensão feminina em um dos estilos musicais mais populares do Brasil

“Você tem que aceitar que elas vieram para ficar”. Esse é o refrão da música Festa das Patroas, da dupla Maiara e Maraísa junto com Marília Mendonça. Elas e outras cantoras do sertanejo fazem parte da nova vertente musical – o feminejo – e vêm liderando a lista das mais ouvidas, antes dominada pelos homens.

Ao analisarmos rankings das músicas mais tocadas nas rádios brasileiras, em um intervalo de praticamente 11 anos, o cenário sertanejo não tinha forte participação feminina. Era comum encontrar relatos machistas nas letras e até relatos de feminicídio, como na letra de Cabocla Tereza, de Tonico & Tinoco, uma das músicas de maior sucesso em 1994, ano de seu lançamento. Foi apenas em 2016 que Marília Mendonça, com o hit Infiel, e Maiara e Maraísa, com 10%, conseguiram entrar nas mais tocadas na rádio, de onde não saíram mais.

Mesmo sendo algo conquistado recentemente pelas mulheres, elas sempre estiveram presentes no sertanejo. Em 1939, as irmãs Castro foram as pioneiras nesse estilo ao lançarem a música Beijinho Doce. Já em 1986, Roberta Miranda foi a primeira mulher a vender 1,5 milhão de discos, e ficou conhecida como a Rainha do Sertanejo pelos seus hits Majestade Sabiá e Sol da Minha Vida. Em 2005, Paula Fernandes se tornou um fenômeno quando fez parte da trilha sonora da novela América da Rede Globo.

Após 80 anos de trajetória, as mulheres estão bombando com suas músicas. Segundo a agenda oficial das cantoras, elas realizam em média 20 shows por mês. Marília Mendonça recebe o terceiro maior cachê do sertanejo, cerca de 350 mil reais por show. Jorge e Mateus e Wesley Safadão ocupam as primeiras posições. 490 mil e 450 mil, respectivamente. Regime Fechado é o som feminino com mais plays no Spotify e o clipe Loka de Simone e Simaria com participação de Anitta é a oitava maior colaboração feminina do mundo em números de visualizações no YouTube. No ano de 2019, Simone e Simaria serão as embaixadoras da Festa de Peão de Boiadeiro de Barretos, posto ocupado apenas por homens desde sua criação em 2010.

As canções se transformaram. Agora a mulher vai para o bar, motel, curte com suas amigas, se arruma para si própria, larga o namorado para ir em festas e –característica já conhecida do sertanejo – também sofre por amor. Cantando temas típicos do universo feminino, as cantoras sertanejas se tornaram porta voz da mulher contemporânea.

Para entender melhor sobre o feminejo, ESQUINAS conversou com Paula Fernandes, cantora e compositora que aos 8 anos já se apresentava profissionalmente. Desde 2009 se tornou conhecida em todo Brasil com seu CD Pássaro de fogo, seus maiores sucessos são Não precisa, Pra você e Juntos, música lançada com Luan Santana este ano. Leia a entrevista a seguir:

ESQUINAS Como é ser mulher no Sertanejo?

Quando eu comecei era muito difícil. As mulheres que faziam sucesso já eram de uma outra geração como as Irmãs Galvão. Então eu precisava estar sempre provando que era capaz, que podia cantar, que tinha talento. Graças a Deus hoje melhorou muito, vemos mulheres talentosíssimas fazendo sucesso por aí no sertanejo e isso me alegra muito.

ESQUINAS Algum momento em sua vida você chegou a sofrer algum tipo de preconceito no meio artístico por ser mulher?

Muito. Primeiro eu sofri o preconceito por ser muito jovem, comecei a cantar com 8 anos, as pessoas não apostavam no meu talento. Depois quando cresci foi a vez de sofrer por ser mulher. O sertanejo era dominado por homens, maioria duplas e, quando aparecia aquela menina cantando sozinha, muitos olhavam torto. Foi suado para conseguir meu espaço, mas eu nunca desisti. Esse é meu conselho para a mulherada, não desistam nunca dos seus sonhos. Se eu consegui chegar onde cheguei, todas vocês também conseguem.

ESQUINAS Seu álbum Pássaro de Fogo (2009) foi lançado em um ano em que as mulheres não estavam tão presentes no meio sertanejo. O que você acha que contribui na mudança deste cenário?

Acho que principalmente a ascensão das plataformas digitais. Hoje está mais fácil de mostrarmos nosso talento e impactar mais pessoas. Também o mundo está mudando, né? As mulheres estão assumindo seu espaço, tendo mais voz e lutando pelo reconhecimento em todas as áreas. Na música não seria diferente.

ESQUINAS Você se considera uma porta voz das mulheres que acompanham o estilo musical?

Sim, principalmente porque eu canto sobre o amor. As minhas fãs costumam dizer que minhas músicas representam seus relacionamentos e eu acho isso incrível, que as pessoas se identifiquem com o que eu estou cantando e utilizem a minha música para expressar seus sentimentos.