Apesar do sucesso musical, o novo é alvo de críticas e comparações com as produções do passado. Novos produtores dão sua visão.
O cenário musical brasileiro atual é grande alvo de críticas das mais variadas, dirigidas a artistas de todos os gêneros musicais, e vem, surpreendentemente, de um público diverso. No entanto, é necessário entender os motivos que justificam tais críticas de parte da população e desmitificar tal ideia. Assim, é preciso analisar as produções musicais atuais do ponto de vista da sociedade inserida em seu respectivo nicho, observar pontos em comum entre as produções passadas e novas, e compreender o contexto sociocultural e geracional dos críticos.
Mas afinal, a música brasileira está perdida?
Quando o assunto é a atual música nacional, é comum ouvir frases como “Não é mais a mesma”, “as letras são superficiais” ou “não são feitas músicas como antigamente”, geralmente vindas de pessoas mais velhas, que estão acostumadas com o antigo MPB e Rock clássico. No entanto, grande parte disso se refere ao funk, muito por conta do uso da linguagem mais “explícita”, e por retratar temas marginalizados, ainda que exista uma grande importância por trás dessa expressão, que é invisibilizada. Mas nem toda produção musical atual se resume ao funk; conforme o tempo passa, a sociedade se reinventa, e por que com a música seria diferente? Nossos avós criticavam a música dos nossos pais, de forma que nossos pais criticam nossa música. As músicas são reflexo do tempo de uma sociedade e vão fazer mais sentido para quem vive aquele momento.
Em uma entrevista concedida à Folha de S. Paulo, o cantor Milton Nascimento dispara: “A música brasileira tá uma merda (…) As letras, então. Meu Deus do céu. Uma porcaria (…) Não sei se o pessoal ficou mais burro, se não tem vontade [de cantar] sobre amizade ou algo que seja. Só sabem falar de bebida e a namorada que traiu. Ou do namorado que traiu. Sempre traição.” Se mesmo um ícone da música brasileira perdeu a esperança, será que nós deveríamos perder também?
Para entender melhor os motivos por trás dessas críticas, a equipe de ESQUINAS realizou uma pesquisa anônima sobre o tema. Dentre os resultados da pesquisa, um dos mais surpreendentes foi o de que não apenas pessoas mais velhas, mas também muitos jovens dentro da faixa etária de 15 a 20 anos acreditam que as produções musicais decaíram, e que a maioria das músicas tem motivações rasas.
A Visão distorcida da produção atual
28% do total da pesquisa foi respondida por pessoas com mais de 40 anos, dentro disso, 93% crê parcialmente ou totalmente que as novas músicas nacionais perderam a qualidade de produção quando comparadas com as produções de antigamente. Dentre essa gama de respostas, destacam-se opiniões como: “Letras fracas, sem conteúdo e musicalidade ruim”, “Composição pobre, foco em dancinhas virais e ritmo viciante” e “Está com muito palavrão”. Além disso, menos da metade dessa parcela afirmou consumir produções atuais, e não houveram respostas em referência a nomes atuais do cenário. A maioria significativa das respostas apresentam gêneros como Rock, MPB, “Anos 80” e variados nomes de artistas que compõem o antigo panorama musical do país.
Em contrapartida, na sua maioria, o público jovem, correspondente a 58% da pesquisa, não acredita no discurso de que produções atuais perderam a qualidade, ainda que exista uma minoria compatível com essa narrativa. No que diz respeito às preferências musicais, 70% da totalidade da faixa etária diz escutar música brasileira com frequência, tendo como alguns dos gêneros mais ouvidos o Trap, Rap, Funk e Artistas independentes (alocados na ascendente cultura indie).
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Como os artistas do cenário atual enxergam seus trabalhos?
E é com essa perspectiva que buscamos vozes do cenário independente atual do Brasil, que por fazerem parte da cena, puderam esclarecer e expressar suas opiniões em relação não apenas ao estado atual de produções musicais brasileiras, mas também dissertar contrapontos sobre o discurso de uma população mais velha, que não vê a música contemporânea da mesma forma.
A cantora e compositora Sophi, de 25 anos, natural de Minas Gerais, conta que a música entrou em sua vida através de influência de seu pai, e, por isso, suas referências de infância foram marcadas por ícones do MPB, como Marisa Monte e Caetano Veloso. Mas não é apenas de seu pai que suas influências vieram, ela relata. “Quando os gatos saem os ratos fazem a festa, eu e minha irmã ficávamos vendo TVZ e MTV que tinham essa cultura do Clipe, então eu acho que fiquei muito próxima de uma cultura Pop dos anos dois mil também”.
Ela também comenta sobre como vê o atual estado das obras contemporâneas e opina sobre a crença popular de que houve algum tipo perda de qualidade: “Sim e não, a música é como um barco que está em constante mudança, mas isso não significa algo ruim. Porém, hoje eu percebo que nós temos uma cultura dinâmica que eu gosto de apelidar de “música chiclete”, onde você coloca ela na boca, masca por três minutos, e depois joga fora”.
Além disso, a artista aproveitou para falar sobre as críticas comumente ouvidas quando se fala no que faz sucesso nos dias de hoje: na visão da cantora, muito do que se critica atualmente está mais atrelado com a linguagem do que com realmente o conteúdo, pois segundo a mesma, o MPB sofreu um processo de “gentrificação”, que criou uma personalidade quase mística segregacional, e é justamente por isso que gêneros como Funk, Arrocha e Sertanejo nunca irão entrar nessa categoria por mais que esses sejam, literalmente, Música Popular Brasileira.
Saindo de Minas Gerais e indo diretamente para os inferninhos, boates com baixa iluminação e bandas pouco conhecidas, paulistanos, conversamos com a Saravá Banda. Formada em 2023 por jovens que descobriram paixão na música durante a pandemia, o trio é composto por Joni, Roberth e Antônio. A união surgiu através da sincera vontade de formar uma banda de Rock, que desde o princípio, seria composta apenas por três integrantes. A escolha específica na formação vem da cultura do Power Trio que era referência na década de 60, sendo necessário uma guitarra, um baixo, uma bateria e bastante distorção. Consequentemente a banda seguiu a mesma esquematização, com Joni na voz e guitarra, Roberth no baixo e segunda voz, e Antônio com sua bateria na percussão.
Ao serem questionados sobre a opinião popular em relação à qualidade das produções atuais, a banda afirmou ser uma visão rasa: “As pessoas dizem isso, mas não fazem questão de procurar coisas novas” .
Também pontuaram que o problema da música atual não está no funk, no entanto, acreditam que esse seja um tópico complexo e fora do seu nicho. O grupo também diz que, atualmente, é muito difícil “estourar a bolha”, principalmente com a ascensão das redes sociais e as novas formas de comunicação. Como exemplo, o grupo mencionou o uso do TikTok: Tornou-se uma necessidade para Saravá produzir conteúdo para essa rede, visando seu maior alcance, ainda que o uso da plataforma não seja o seu foco. Há ainda, diz a banda, a grande problemática das “músicas para lucrar”, ou seja, músicas produzidas e trazidas a público com o único intuito de comercialização, seguindo uma fórmula pré-estipulada e anulando os princípios de originalidade, além de estarem encaixadas no conceito de “música chiclete”, anteriormente apresentado por Sophi. Dessa forma, todos estão constantemente conectados com as massas, com o poder de manipular a opinião daqueles que consomem a arte musical, o que dificulta as variadas formas de conquistar novos espaços, acomodando o interesse apenas por coisas novas que sejam padronizadas.
Sendo assim, há apenas uma resposta para a indagação sobre a música atual: Não, ela não perdeu sua qualidade, apenas se reinventou, o que é fruto de uma sociedade em constante movimento. Nesse caso, ainda é preciso que ocorra cada dia mais uma flexibilização de gosto musical que desconstrua o estigma que tanto pesa sobre a música contemporânea, através do estímulo do interesse em consumir novas produções, além de também pesquisar sobre elas, absorvendo as mudanças como um todo. Tendo em vista esse cenário, nossos entrevistados dedicaram um espaço de suas entrevistas para recomendar artistas ascendentes no ramo musical que integram as produções de forma inovadora, e é com esse objetivo de reconstruir a visão social sobre o cenário atual que ESQUINAS finaliza com uma lista das melhores recomendações:
Por Sophi: BaianaSystem, Léo Foguete, Clara Valverde, Raquel Reis.
Por Saravá: Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo, Pelados, Fernê, O Terno.