Skylab, sobre o cu e as crises - Revista Esquinas

Skylab, sobre o cu e as crises

Por Henrique Artuni : fevereiro 6, 2019

Com o segundo disco de sua trilogia do cu, Rogério Skylab reafirma a maturidade de sua obra

Enquanto os fogos explodiam na primeira madrugada de 2019, o músico carioca Rogério Skylab, como já havia prometido em seu perfil no Twitter, disponibilizou online o álbum Nas Portas do Cu. O título é o segundo volume da trilogia iniciada com O Rei do Cu, lançado no início de 2018.

Com um mês do lançamento do disco, as visualizações de suas músicas no YouTube variam entre 800 e 4 mil. Em um cenário audiovisual em que o que vale mesmo é o milhão, Skylab talvez pregue mesmo para convertidos. Mas com quase vinte anos de carreira, ele parece não se importar com a notoriedade diminuta — ou melhor, talvez tenha carinho demais por ela para deixar de se importar.

Ilustre desconhecido, hoje com 62 anos, o cantor ganhou algum holofote na televisão ao aparecer em talk-shows como o Programa do Jô, na TV Globo, e no The Noite com Danilo Gentilli, do SBT. Com status de freak, e despertando gargalhadas da plateia com os palavrões das músicas e seu comportamento desajustado, ele sempre faz questão de deixar claro que seu trabalho não tem nada a ver com o humor.

Com produção independente desde 1992, quando lançou seu primeiro disco solo, Fora da Grei, hoje o artista lança suas músicas em plataformas digitais, como YouTube, SoundCloud e Spotify.

Sempre apaixonado por literatura e filosofia, Rogério Skylab começou tardiamente na música. Ele se autonomeia um “cadáver da MPB”
Juliana Torres/ Canal Brasil

Como se poderia antever nas imagens escatológicas evocadas pelos títulos dos seus discos, Rogério Skylab não canta para agradar. Seu senso de contemporâneo, gerado de reflexões que faz a partir da literatura e da ficção, revela uma compulsão pelo choque entre o real e a criação (o fazer poético, enfim), tornando ele um caso único na música brasileira.

Como grande artista, precisa ainda ser devidamente descoberto. Ou, justo pelo contrário, descobrir Skylab seria distorcê-lo, ou mesmo impossível em um tempo em que o real parece ter perdido qualquer maleabilidade depois de tanta deformação.

Nas Portas do Cu, por ora, no calor de um ano novo, prenuncia a mesma grandeza dos melhores discos do músico – destaque para Skylab VII, Skylab X e Skygirls. Mais certezas ou incertezas virão com o encerramento da trilogia do cu com Crítica à faculdade do cu, sem data de lançamento anunciada.

Essa consciência política do seu trabalho, anti-discursiva (isto é, não se fala de política aqui pela mesma estética do rap, pelo contrário), foi sendo aflorada em seus discos, especialmente após Skylab III (2002) que, em relação ao disco anterior da série – até hoje, favorito de muitos fãs –, engatinhou com experimentações e fundou, como a badalada de um sino que ressoa até hoje, um universo de imagens bem particulares. Cântico dos Cânticos, um belo pastiche do livro bíblico, em que o coro das filhas de Jerusalém são inserts de vozes como as de Brizola, Arrigo Barnabé em Clara Crocodilo, e trechos do filme O Bandido da Luz Vermelha (1968). Não à toa, em seguida a esta música, vinha É Tudo Falso – clara ode à uma crise linguística que sua própria música representa.

Daí em diante, a série de dez discos que encerrou com Skylab X debruçou-se sobre os mesmos temas: a persistência do fazer artístico, o torpor como experiência sensorial, a decadência e, sobretudo, a arte da ficção (precisamente a obsessão da prosa de Henry James, sobretudo no que ele realiza em seus prefácios).

Atravessar sua extensa obra (são mais de vinte álbuns) é deparar-se com um movimento absolutamente repetitivo que se desdobra por uma linguagem (no caso, a música) sempre em crise junto com o artista. Não à toa, parece ser uma obsessão que se encontram em grandes nomes contemporâneos, dos quais listo, por preferência, Júpiter Maçã e Tim Maia, na música, e M. Night Shyamalan, Hong Sang-Soo e Christian Petzold, no cinema.

Com Lívio Tragtenberg liderando os efeitos sonoros – músico com quem já fez uma trilogia de discos bem impactante –, Nas Portas do Cu reafirma um Skylab camaleônico (do épico-rock em diálogo com Nick Cave que é Nas canções de amor ao blues de Você sabe que é pra sempre), obcecado pela palavra (Catatau é uma homenagem ao signo em busca de significado, enquanto Sertão é um curioso experimento semântico, de variações que surgem a partir do “ser”) e escatológico como nunca. O que separa o artista de agora e aquele de Skylab II (seu disco mais popular) é um evidente amadurecimento da música como ideia (vale ouvir sua interpretação de Eu e minha ex para entender essa diferença também).

Matador de Passarinho, assim como Carrocinha de Cachorro Quente, e até mesmo Bunda Suja, são exemplos evidentes do pastiche como fim em si mesmo, associado ao excremento (primeiro significado da escatologia). No novo disco, Capa Negra é um bom exemplo de como o signo da merda (ou seria o do caos, para retomar Sganzerla?) recebe um outro tratamento, quase de uma histeria coprofágica (alimentar-se das fezes) que reflete um corpo/espírito frente ao apocalipse (enfim, a escatologia como ramo da teologia que estuda o fim do mundo) representado por um “monte de bosta”.

Violino, guitarra e bateria acompanham a trajetória de um eu-lírico que passa pela curiosidade (“Será de gato? De cachorro? Ou de cavalo?”), pela emoção física (“Será de tédio? De histeria? Ou neurose?”) até transcender pela experiência mística (“Passei a língua como quem pede/ Perdão aos deuses e paz na Terra/ Será o meu verso? Será o meu verso? Será o meu verso?”).

Ainda, é importante retomar que a pedra fundamental aqui é o “cu”. E que O Rei do Cu tenha dado um excelente pontapé temático com faixas como Dedo no cu e gritaria, O Grande Fim e O Eco da Queda, mas é um disco que esmaece perante a plasticidade desse segundo volume. Vale retomar uma imagem que o poeta Eucanaã Ferraz fez em recente entrevista ao canal Livrada!, no qual define a poesia como uma piscina pequena, mas muito funda. (Poeta por poeta, Um anjo torto traz a imagem da queda sem fim na citação ao Poema das Sete Faces, de Drummond, e evoca Torquato Neto, com quem Skylab está sempre em diálogo).

Reconhecer a “fase anal” da música brasileira, no deboche aos comentários conservadores de Lulu Santos e Jorge Vercillo, foi uma das grandes inspirações para conceber A voz do cu e a primorosa faixa que dá título ao álbum. “Todas as portas desapareceram/ E não tem mais como eu entrar” é a síntese de um eu-lírico mais fatalista que Kafka. Superficialmente, parece ser o próprio Skylab ficcionalizado, por nenhuma gravadora tê-lo acolhido. Mas ele persiste, apesar do sintoma (“Você vai continuar fazendo música?”).

Nas Portas do Cu é o segundo disco da nova trilogia de Rogério Skylab
Reprodução

Mais importante é pensar na atualidade política do autor de O Castelo. “Eu tô por fora, eu tô por dentro?”, pergunta o eu-lírico. O verbo enclausurado pela condição (fora/dentro) associa as portas vistas por Kafka às portas da cozinha, da percepção, do coração – que nem existem mais. Enfim, estar diante da porta final (o cu, que em sua manifestação biológica só expele os resíduos), é saber-se em um eterno e imóvel estado de trânsito (e aqui vale mais uma referência a Petzold, se quisermos pensar na ideia do imigrante hoje). Como nos comportamos à porta do Inferno? Em tempos de dr. Bumbum, só mesmo botando silicone na bunda. “Eu tô fudido, mas tô animadíssimo”, Skylab crava acertadamente. A capa do disco remete a essa ideia. A fotografia de Solange Venturi, mulher de Skylab, mostra a cabeça de uma boneca dentro de um buraco, aparentemente enterrada na lama (se quisermos, profética indicação do já maior desastre do Brasil em 2019).

Diante desse fim, não bastasse tratá-lo com um tom de elegia nas músicas acompanhadas por violão, “bem MPB”, Skylab não se contenta e pisa mais fundo. Sem Freio, que evoca muito a rodovia de Estrada Perdida (David Lynch), e os sons guturais de Eu vou botar silicone na bunda (diga-se, faixa em que Tragtenberg caprichou) têm algo do terrorismo moderno, que encara o sacrifício como espetáculo (sobre o tema, recomendo a leitura de No espelho do terror, de Gabriel Ferreira Zacarias). Parece que apenas um sujeito com medo de sair de casa poderia assumir essa autodestruição para satisfazer o desejo de, para citar Drummond mais uma vez, “dinamitar a ilha de Manhattan”. Ainda é muito importante refletir sobre as torres gêmeas. Sem Freio é praticamente o gêmeo malvado de Eu durmo pouco para ficar com sono.

Sagrado porque profano; profundo por trabalhar sempre na superfície, Skylab ainda faz em Venham Saturno, Júpiter um delírio que passa por Virgílio, Homero, Milton, Eurípedes, Clarice Lispector, Zé Celso e o que mais o ouvinte quiser (não pude deixar de pensar também em Tim Maia Racional; “Tudo é luz”), para terminar com os versos dos Beatles: “Hey, you’ve got hide your love away”. Nada como colocar religião, alta cultura e cultura pop no mesmo altar.

Seria a música perfeita para encerrar, não existisse Você sabe que é para sempre, na qual acordamos do pesadelo só para lembrar que não importa quantas vezes acordemos, quantas vezes os regimes (políticos, emocionais, poéticos, narrativos, linguísticos) entrem em crise e em contradição, algo deve ser feito. Como se apenas a ficção pudesse nos lembrar do real, o esvaziamento de sentido para encontrar a verdade. Como se apenas pensando no fim pudéssemos pensar em um começo.