"Somos fãs de nós mesmos" - Revista Esquinas
REVISTA DIGITAL LABORATÓRIO
DA FACULDADE CÁSPER LIBERO

“Somos fãs de nós mesmos”

Por Larissa Basilio : julho 17, 2018

Gravadoras alternativas paulistas contam as dificuldades e ganhos em fazer parte do cenário independente musical

Julho é considerado o mês do rock e diversos locais recebem shows de bandas de todo o Brasil. Para este ano, o Centro Cultural São Paulo (CCSP), organiza a programação Centro do Rock, que contará com bandas de todas as regiões do Brasil, muitas participantes da cena local. O mês de outubro, daqui três meses, a cidade de São Paulo se dedica à cultura alternativa ao disponibilizar e incentivar uma programação com atividades de promoção do underground. É nesse mês também que ocorre o Sacola Alternativa – feira que promove gravadoras alternativas pela capital.

Mesmo com estímulo e tendo São Paulo como um dos eixos da cultura alternativa, muitas gravadoras ainda encontram dificuldades em permanecer vivas na cena paulista. Antônio Augusto, da Hearts Bleed Blue, e Vinicios dos Anjos, da Casa da Árvore Records, explicam como é ser uma gravadora independente.

Sangue azul

“No show de lançamento da banda, tínhamos um esquema: quando alguém comprava o ingresso, ganhava um disco. Esquecemos os CDs no escritório que tínhamos mudado há pouco tempo, num feriado, e o prédio não abria. Fiquei desesperado!”. Esse relato de Antônio Augusto remete a um dos frequentes casos de se trabalhar com música alternativa.

No escritório localizado na Vila Mariana, na região Centro-Sul da cidade, um rapaz me esperava para uma série de perguntas sobre música e a cena independente. Augusto é o criador da Hearts Bleed Blue, selo de hardcore – mas não só isso – paulistano, responsável por trabalhar com diversas bandas. Fui recebida no QG do selo, um lugar que parecia sair de uma loja de discos de Portland, lotado de pôsteres em preto e branco nas paredes e vinis, CDs e cassetes espalhados por todo o cômodo até perder a conta.

Antonio Augusto é um dos responsáveis pela criação do selo HBB, conhecido pelo slogan “Arte para colecionar”
Larissa Basilio

 

“Eu tinha muita vontade, de quando era bem adolescente, de montar um selo. Nem sabia como era ou como funcionava, mas veio dessa época”, conta. O nome “Hearts Bleed Blue” veio de uma coletânea da gravadora estadunidense Deep Elm Records, que começou na cidade de Nova York e foi a responsável por lançar bandas de rock alternativo que seguiam uma linha emo hardcore. Segundo Augusto, foi como uma homenagem para a gravadora em meados de 2011. “Eu queria trabalhar com afinidade musical e de amizade, mesmo, com pessoas que queriam ser lançadas, que tavam no corre com a gente”, revelou o jovem.

Uma das dificuldades de ser uma gravadora nova é a necessidade de se envolver coma gestão de carreira da banda, estendendo as gravações a longo prazo. Ele explica que não vale a pena produzir álbuns isolados apenas. Quando perguntado sobre esses obstáculos, Augusto soltou um sonoro “Putz”, acompanhado de uma igualmente sonora gargalhada vinda de minha parte. Para ele, a divulgação é um problema. Mesmo com a internet, “todo mundo tem mil páginas, mas tá todo mundo meio perdido, porque tudo vira uma guerra de conteúdo”. Essa maçaroca, como chamou, é positiva por um lado, mas gera desvantagens por ninguém saber ao certo o que acontece no mundo da música. “Falta um direcionamento, uma revista de música tipo a Rolling Stone, alguém que fale sobre o que tá rolando na música. Sei lá, mesmo com isso, vira tudo uma grande panela, sabe?”, desabafa.

Das outras dificuldades, Augusto conta que dá para tirar de letra, porque todos aprendem na prática, especialmente quando envolve com algo que a pessoa curta. “Trabalhar com a cena é legal pra cacete. Tem até um documentário nosso com o título Somos fãs de nós mesmos. É legal, é bem divertido. Tá todo mundo quebrando a cabeça pra descobrir como é viver de música”.

A parte mais legal, para ele, é estar do lado de quem ele admira e vê batalhar. Augusto relembra que, na chegada de um novo disco produzido, ele realizava um ritual quase que religioso: abria uma cerveja e admirava o produto – a arte, o disco, o encarte, toda a parte física. Ele revelou que esses detalhes fazem a experiência do fã ainda melhor. Costumeiramente, no Brasil, os CDs são os últimos produtos a chegarem para as gravadoras. Por ser um processo lento e demorado, chegam depois de camisetas especiais, por exemplo, quase quando a banda já está fazendo os shows de lançamento do álbum. É o gol aos 45 minutos do segundo tempo.

De perrengue em perrengue, se aprende. Pelo menos é nisso que o cabeça da Hearts Bleed Blue acredita. Ele se lembra, até hoje, do episódio em que esqueceu o material da banda trancado no escritório. Enquanto contava a história, ele ria e dizia como aquele perrengue foi complicado. “Eu queria arrombar o prédio de qualquer jeito”, deu risada.

Gravadora orgânica

Por sua vez, Vinicios dos Anjos, gaúcho formado em Cinema e produtor de audiovisual, faz parte da Casa da Árvore Records, gravadora que surgiu em abril deste ano, há pouco tempo, já possui mais de três artistas em seu catálogo. Vini, como costuma ser chamado, não é apenas um dos idealizadores do selo, mas também o guitarrista e vocalista da banda homeninvisivel e produtor do selo.

 

Anjos afirmou que a cena gaúcha era mais fechada. Lá, ele fazia parte da cena emo e, quando se mudou para São Paulo, não conhecia nada do cenário musical. Aqui, conheceu o amigo Rafa em um grupo do Facebook – o “REAL EMO (SDDS ORKUT)” –, em que começaram a trocar ideia e sugeriram a formação de uma banda de shoegaze, gênero musical de indie rock que surgiu no Reino Unido no final dos anos 1980.

Gravado em fevereiro de 2018, o début “formas negativas” foi lançado em março do mesmo ano
Cassiano Geraldo

Para ele, a criação do selo surgiu como algo orgânico e natural. “Foi acontecendo porque todo mundo sentiu que estávamos em um momento de efervescência cultural. Sinto isso agora”, diz. No processo de gravação do homeninvisivel, os integrantes pensaram como seria possível que o som fosse ouvido por mais pessoas. Ao mesmo tempo, o pessoal do Meyot – outra banda do selo – também estava no mesmo processo. Desse pensamento comum, surgiu a ideia da formação da gravadora, onde poderiam divulgar o material produzido dentro de um “rolê”, como disse Anjos, onde seriam amparados por uma ideia maior, acolhendo mais artistas e divulgando aquilo que gostavam. Ele ainda acha que em São Paulo existe uma cena nichada, em que a publicação fica mais complicada diante desse mercado.

A banda Meyot é composta por Arthur Montenegro, Gustavo Reis , Lucas Berredo e Rafael Carozzi
Filipa Andreia

O nome originou-se a partir da ideia de uma amiga carioca, Nathanne Rodrigues, da banda Chico de Barro, que brincou com o fato de o estúdio possuir uma árvore gigante na calçada da frente e estar localizado no bairro da Praça da Árvore, na Zona Sul de São Paulo.

A política do selo é totalmente horizontal: existem funções definidas, mas todos podem, e devem, opinar em tudo, criando um ambiente democrático dentro da gravadora. Anjos acredita que possuir um selo é quase como ter um filho. Gestar um projeto do zero é muito interessante e “o mais foda é ter isso com pessoas que querem aprender”. Ao mais bacana, para ele, é viver um dia após o outro com esses indivíduos.

“A questão principal [que a gente quis fazer] é dar o start, de tipo: ‘pô, galera, esse aqui é o nosso rolê, entendeu?’”, explica Anjos. “É tipo assim: ‘chega aí vamos fazer parte juntos’”. Esse espírito agregador é o que leva as coisas a acontecerem, de fato. Ele reforça a importância de algo inclusivo, em um ambiente acolhedor. É em um lugar como esse que a cena musical é moldada.

O EP de estreia “Meiote”, da banda Meyot, foi lançado em março 2018, após meses de gravação
Cassiano Geraldo

E, em meio a certos perrengues e vivências como as do criador da Hearts Bleed Blue, Vinicios dos Anjos vê com entusiasmo a importância de passar por isso. Esse tipo de situação carrega uma bagagem que pode gerar atalhos em certos momentos e tornar a produção mais efetiva. Na Casa da Árvore, um ajuda o outro, facilitando a resolução dos problemas que podem surgir.

As heranças culturais e sociais são um dos pontos fortes dentro da gravadora: existem ali paraenses, gaúchos, paulistanos, além de uma das integrantes possuir família coreana e a fotógrafa ser portuguesa. Anjos comentou a importância de não hierarquizar a relação com os fãs – termo esse que prefere não utilizar. Ele não tem fãs, e sim amigos, e chama as festas da Casa de “bailinhos”, por serem eventos em que as pessoas são próximas e novos laços são formados.

Para Anjos, as redes sociais, em especial o Instagram, abriram portas para a interação com outras gravadoras e outras cenas do Brasil. O Facebook também tem sua importância própria, já que o músico faz parte de alguns grupos de música, como o Sinewave, em que conheceu gente de todos os lugares e conversou com “uma galera diferente”. Ele pensa que elas são uma ferramenta de trabalho, já que mantêm as redes de relacionamento e contato organizadas e atualizadas e servem de canal de apresentação da gravadora.

O sorriso no rosto demonstra a felicidade de começar algo do zero. “Quando tu tem uma ideia e tu bota a cara a tapa, as pessoas acabam valorizando. Eu tenho visto que cada vez mais gente colando nos nossos rolês”. A entrevista se encerrou com risadas amistosas e algumas piadas sobre música e vida. De certo, a cena musical ainda tem muito para ensinar a todos. Anjos resumiu seu trabalho como criação. “A música, da forma que eu encaro, é uma elaboração coletiva. O show é o êxtase máximo disso”. Que a música siga firme nessa missão.

Além de ser um dos idealizadores do selo e produtor, Vinicios dos Anjos é guitarrista e vocalista da banda de shoegaze “homeninvisivel”
Cassino Geraldo