O dia em que o Sujinho se lavou - Revista Esquinas

O dia em que o Sujinho se lavou

Por Ana Carolina Azevedo Prado, Gabriela Girardi e Guilherme Magalhães : abril 18, 2020

O passado, o presente e, quem sabe, o futuro de um dos mais tradicionais botecos de São Paulo

Outrora “Bar das Putas”, o limpíssimo bar do Sujinho, na esquina da Consolação com a Maceió, não é mais frequentado pelas damas que o batizaram assim. Elas, aliás, não são do feitio da bela fachada que hoje cobre o estabelecimento, cuja alcunha é negada pelos que o administram.

Esquina do Sujinho
Gabriela Girardi

A história do Sujinho, ou do que corresponderia a ele, remonta ao início do século passado. Por volta dos anos 1920, um consórcio de portugueses comprou o singelo e imundo espaço para fazer dele um bar acessível. Ali, os rejeitados e mal remunerados, prostitutas e pedintes, ambulantes e transviados, intelectuais e alcoólatras encontrariam tudo o que seus poucos centavos pudessem lhes dar de comer e beber. Não era raro ver jornalistas, atores, outros homens das humanidades e artistas da Jovem Guarda, como Erasmo Carlos e Wanderléa, subindo a Consolação, famintos de carne saborosa e cerveja gelada.

O projeto filantrópico, entretanto, rendeu-se às tentações do mercado. Nos anos 1990, um novo dono, esse sim, visionário e empreendedor, tomou dos lusitanos seu boteco sujo e manteve apenas o nome. “Sujinho sempre foi assim: ‘eclético’, sem preconceitos, numa mistura de raças, credos, classes sociais, bem do jeitinho brasileiro de ser, simples e aconchegante”, como consta no cardápio do lugar, ostentado pelos donos e gerentes.

A nova empreitada era ousada e impetuosa. O que antes era uma singela esquina, passou a tomar o cruzamento inteiro. Mesmo sendo maior, o novo Sujinho não tinha espaço para os que o mantiveram até lá. Os pobres e deslocados saíram e mais funcionários entraram. A velha Consolação se tornou outra. A especulação imobiliária e os apartamentos de alto padrão fizeram dela moradas. E o Sujinho não ficou para trás. O “Bar das Putas” tinha se tornado uma inconveniente memória.

 

O trio de jornalistas bêbadas e velhas de guerra, Bia, Marília e Luiza, que lá exercitavam seus longevos fígados, deixou claro que o lugar não é mais o mesmo. “As porções diminuíram e os preços só aumentaram. Mas não trocamos por nada, isso aqui tem história”, afirmam. Auras e estigmas se mantêm, talvez seja essa a razão da fidelidade de tantos clientes. Porém, os cheiros característicos, a aparência rústica, o público duvidoso e algumas sutilezas grosseiras fazem falta na somatória da comanda e no legado da marginalidade do local. Nem o mais sujo dos adeptos à gentrificação pode negar.