Super-heroínas: um espelho da realidade - Revista Esquinas
REVISTA DIGITAL LABORATÓRIO
DA FACULDADE CÁSPER LIBERO

Super-heroínas: um espelho da realidade

Por Stephanie Cid : fevereiro 14, 2019

Uma pequena contextualização sobre como o mundo mudou e sua consequente influência sob as histórias das personagens femininas de histórias em quadrinhos

A década de 1940 foi um momento extremamente delicado para a história da humanidade. Ocorreu a Segunda Guerra Mundial, alocando o poder bélico no continente europeu, para onde a população masculina também foi enviada. É o momento em que as mulheres são incentivadas a arrumar empregos e ter uma renda, já que a mão de obra masculina estava em combate. Neste contexto, surgem as primeiras super-heroínas nas histórias em quadrinhos. Mulheres protagonistas, que tem um poder próprio e conseguem salvar o dia sem nenhuma interferência masculina.

Dentre as muitas personagens daquela época, surge a icônica Mulher Maravilha. Seu nome verdadeiro é Diana Prince e suas origens remontam aos deuses gregos. Quando um soldado americano cai na Ilha das Amazonas, Diana vai para o mundo humano, onde estava ocorrendo a Segunda Guerra e ao perceber toda a situação caótica pela qual os humanos passavam, ela decide permanecer entre eles, lutando do lado americano, contra os nazistas.

Natania Nogueira é historiadora e especialista em quadrinhos, notadamente no surgimento das super-heroínas. De acordo com ela, a Mulher Maravilha serviu realmente como fonte de inspiração para muitas meninas americanas crescendo naquela época, por conta da força e autonomia da heroína. No final de cada edição da revista havia uma minibiografia de alguma mulher que fez a diferença na história. Isso foi feito para estimular a participação feminina em atividades das quais elas eram excluídas até aquele dado momento.

Nogueira também comenta sobre uma das primeiras super-heroínas já criadas, a Miss Fury. Criada em 1940 por June Tarpé Mills, foi a primeira super-heroína imaginada por uma mulher, com o propósito similar ao da Mulher Maravilha. Ela tinha uma roupa especial, que a proporcionava superpoderes. No entanto, a heroína tinha ressalvas em usá-la, pois sabia da responsabilidade que a vestimenta trazia. Suas histórias eram vendidas junto com os jornais e faziam um sucesso estrondoso. Seus quadrinhos começaram a ser publicados em 1941 e tiveram um fim em 1952. Ao mesmo tempo que essas personagens femininas surgiam, começava-se a acreditar que as mulheres podiam conquistar muita coisa.

De volta aos lares

No entanto, tudo muda quando a Segunda Guerra acaba. Os homens voltam para casa e querem seu lugar de volta. A inserção das mulheres no mercado de trabalho acaba ficando cada vez mais difícil e muitas acabam regressando aos lares. Uma onda de conservadorismo começa a crescer na década de 1950 e as histórias da Mulher Maravilha, por exemplo, começam a ser vistas como uma afronta à família e aos bons costumes da época. Por uma questão de autopreservação, em 1954, as editoras adotam o Comic Code Authority (CCA), algo parecido como uma autocensura na publicação de quadrinhos, principalmente aqueles de super-heroínas.

Apesar de ter sido vista como uma afronta aos bons costumes na década de 50, a Mulher-Maravilha é hoje símbolo de feminismo entre as super-heroínas
Reprodução

Por conta disso, muitas personagens femininas que haviam se popularizado na década de 40 acabam sumindo, sendo a Miss Fury um exemplo disso. A própria Mulher Maravilha teve que passar por transformações intensas para conseguir sobreviver a esse período nebuloso, o que acabou infantilizando suas histórias em quadrinhos.

Contudo, em meio ao conservadorismo, nasce a SuperGirl em 1958. Uma adolescente órfã de Krypton, mandada para a Terra a fim de manter viva a herança da família. Por ser uma jovem em um lugar desconhecido e confuso, ela acaba sob os cuidados do Super-Homem, seu parente distante. Em razão de seu grau de parentesco com o super-herói, ela é obrigada a viver sob uma identidade secreta e suas únicas amizades são também pessoas com superpoderes que o Super-Homem aprove.

Devido à existência do CCA, essa maior fragilização da mulher continuou existindo por um bom tempo. De acordo com Lilian Robinson, em seu livro Wonder Woman: Feminism and Superheroes, as coisas só começam a mudar em 1986, quando é lançado o quadrinho Crise nas Infinitas Terras. Nesta história, a cronologia de todas as narrativas dos super-heróis é zerada. É um novo começo e várias personagens ganham uma maior complexidade, tratando de temas mais sérios, e isso se estende para as personagens femininas.

É na década de 80 também que surge a Mulher-Hulk, como bem destaca Dani Marino, colunista do site sobre cultura geek Minas Nerds. O nome verdadeiro da super-heroína é Jennifer Walters e ela é prima de Bruce Banner, o Hulk. Sua história começa ao sofrer um acidente de carro e precisar de um transplante de sangue e a única pessoa possuidora de sangue compatível para fazer uma transfusão é seu primo. No entanto, Hulk tem sangue radioativo e por conta disso Jennifer acaba ganhando os mesmos poderes que seu primo. Com uma diferença, ao se transformar em Mulher Hulk, ela continua tendo a mesma consciência de quando está na condição de Jennifer, enquanto Bruce Banner perde completamente o controle.

Força feminina

Aos poucos, as mulheres vão conquistando seu espaço nos quadrinhos. No final dos anos 90, a D.C. Comics toma um passo importante e cria as Aves de Rapina, é o que nos diz Rebeca dos Santos Puig, dona do site Nébula, o qual aborda questões sobre filmes, livros e quadrinhos. Um grupo composto majoritariamente por mulheres, lideradas inicialmente pela Batgirl, que também traz uma representatividade LGBT, por ser lésbica.

As Aves de Rapina são um dos mais importantes grupos de super-heroínas modernas
Reprodução

Avançando um pouco mais no tempo, durante os anos 2000, com o advento da internet, as mulheres leitoras obtiveram um canal facilitador para expressar suas vontades e insatisfações sobre o conteúdo dos quadrinhos.

Neste cenário surge a nova heroína, Mis Marvel. Uma adolescente estadunidense, filha de pais paquistaneses. Ela vive nos EUA, mas ainda se mantém ligada às suas raízes da comunidade muçulmana. A menina é muito fã de super-heróis e se chama Kamala Khan. Seu maior ídolo é a super-heroína Capitã Marvel, a qual lhe cede o título “Miss Marvel”. Pela sua origem muçulmana e ter um corpo mais esguio e comprido, Kamala foge dos tão conhecidos padrões estéticos das heroínas.

As super-heroínas são também espelhos. Elas expressam muito do que as mulheres gostariam de ser. O jeito como as mulheres são representadas nos quadrinhos pode mudar conforme o tempo passa, e realmente mudou, mas a força delas continua a mesma.