A infância “de verdade” realmente existe?

A infância “de verdade” realmente existe?

Por Maitê Olyntho : novembro 3, 2026

Brincar ao ar livre, com outras crianças, influência no desenvolvimento. /Imagem: Pexels

Você já disse ou escutou alguém afirmar que as crianças de hoje “não têm uma infância de verdade”? O assunto chega até profissionais para entender se existe, de fato, um jeito certo de ser criança e como está o cenário infantil atualmente

Durante toda a história da humanidade, a forma como as sociedades se portavam foi se alterando de acordo com suas necessidades. Para as crianças, a situação é a mesma: suas infâncias são frutos diretos de seu tempo.

Devido à grande presença de jogos online, trends, skincare, TikToks e isolamento, além da ausência de brinquedos na vida das crianças da Geração Alpha, discutir a existência de uma infância de verdade, muitas vezes motivado por um saudosismo das gerações anteriores, vem ficando cada vez mais popular.

A INFÂNCIA E AS MUDANÇAS SOCIAIS

Diferentemente do que muitos pensam, o conceito de que existe uma fase singular da vida quando se é criança é um pensamento relativamente moderno (nascido em meados dos séculos XVII e XVIII) e não significa exatamente ter brincadeiras melhores ou consumir mais produtos infantis durante os primeiros anos de vida. Segundo o historiador Peter Stearns (em sua obra “A Infância”, de 2006), o sentimento da infância está muito mais ligado ao entendimento empático das ações e brincadeiras infantis, características da fase, do que a uma simpatia pelos mais novos.

De acordo com a psicóloga e psicopedagoga Valéria Narducci, existem dois fatores principais para que haja esse estranhamento entre a infância atual e a de gerações anteriores: os diferentes contextos sociais vividos e o número reduzido de crianças em cada família. “Não é possível dizer que a minha infância foi melhor que a tua; a gente vivia contextos diferentes”, diz a especialista. O enraizamento de celulares e tecnologia em geral na vida das crianças começou na Geração Z (de 1995 a 2010, considerados os primeiros nativos digitais), por isso é natural que esse aspecto moderno se mostre tão presente na infância de hoje.

Além disso, segundo o IBGE, entre 2000 e 2022 o percentual de filhos por família caiu de 49,6% para 41,8%. Para a psicóloga, a grande quantidade de filhos únicos impacta diretamente o desenvolvimento das crianças:

“As famílias, elas não são mais tão numerosas, então, é muito comum as crianças crescerem sozinhas, sem irmãos, e consequentemente sem conflito para resolver ou companhia infantil”.

O PREÇO DO ABUSO DE TELAS

Segundo o levantamento realizado pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal em parceria com o Datafolha, 78% das crianças na faixa de 0 a 3 anos estão expostas diariamente às telas e 94% dos pequenos entre 4 e 6 anos se encontram no mesmo cenário. Apesar de a recomendação oficial da Sociedade Brasileira de Pediatria ser de que o uso de telas seja evitado ao máximo, a média entre as famílias é de duas horas diárias de conteúdo digital para bebês de 0 a 2 anos.

“O grande problema não é a tecnologia em si, é o uso indeterminado dela”, diz a Professora Marília Amaral

Durante a entrevista, a profissional que leciona há mais de duas décadas com crianças na faixa etária de 4 a 6 anos apontou o uso de aplicativos de vídeos, como o YouTube, como uma espécie de “babá”:

“Para que os pais tenham uma hora em silêncio, por exemplo, a criança fica inteiramente com o celular, a babá que é o YouTube, neste caso, se torna responsável pela atenção da criança, e isso é o tempo que a mãe ou o pai consegue respirar um pouco, sem perguntas, ou intervenção daquela criança. Porém, isso traz muitos problemas.”

Junto a isso, a professora relata o aumento no número de famílias que comentam dificuldades em lidar com comportamentos agressivos, nervosos ou extremamente aéreos dos filhos. Mas isso tem uma causa: o uso excessivo de telas.

Infância

(As telas estão presentes em maior parte do cotidiano das crianças./Imagem: Pexels)
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Apesar do alerta severo da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre os riscos da exposição prolongada às telas (que está diretamente ligada ao aumento de casos de ansiedade, irritabilidade e depressão), uma pesquisa da Brazil Journal One Health mostra que mais de 60% das crianças ultrapassam o limite estipulado.

“As famílias relatam que vão dormir e, às vezes, acordam às 3 da manhã e ele ainda tá no celular, jogando ou vendo TV”, relata a professora. Além de comprometer a formação saudável de habilidades socioemocionais, esse vício normalizado coloca em jogo o desenvolvimento motor das crianças.

FALTA DE HABILIDADES MOTORAS

Um tópico alarmante envolvido na problemática do abuso de telas é o comprometimento das habilidades motoras das crianças. Durante a Education Week (principal evento de debate sobre educação nos Estados Unidos), foi apresentado que 77% dos educadores relatam que os alunos têm mais dificuldade em manusear materiais escolares como canetas e tesouras e 69% dizem perceber um aumento nos problemas deles para amarrar os próprios sapatos em relação a alguns anos atrás.

Mas, além da responsabilidade do uso abusivo de dispositivos eletrônicos na estagnação plena do desenvolvimento motor, discute-se também a interferência das famílias nas atividades das crianças por meio de uma superproteção que limita a exploração normal de ambientes e brincadeiras por medo de o filho se machucar ou destruir objetos:

“Hoje, muitas das crianças não se sujam, não brincam de coisas que podem levar a supostos riscos leves. Isso prejudica as habilidades motoras dessas crianças, que também influenciam as habilidades cognitivas e escolares”, comenta Marília

A psicóloga Valéria comenta a perda de habilidades antes consideradas banais e diz que, quanto maior o estímulo, mais a criança responde: “Um exemplo é: muitos pequenos não conseguem jogar o saquinho para cima e pegar, porque ela não está treinada. Tem habilidades que ela não tem mais. Aí a gente diz: ‘Não tem problema. Nós estamos ensinando o seu cérebro. Você vai jogar o saquinho. Uma hora você vai conseguir pegar. Só jogar um’. Mostrando para o indivíduo que é um processo, que a gente precisa insistir. Que o cérebro vai aceitar aquela informação.”

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CRIATIVIDADE TERCEIRIZADA

Junto com a diminuição das atividades motoras, há outro limitante envolvido: a falta de criatividade, proveniente de um consumo intenso de conteúdos online que massificam gostos e mitigam a habilidade de pensamento crítico e “fora da caixa”.

Um exemplo do tema, apresentado pela psicóloga Valéria, é a moda dos livros de colorir Bobbie Goods, situação na qual as crianças buscavam, em blogueiras que acompanhavam, referências de como deveriam colorir, devido à falta de iniciativa criativa própria.

“Uma das tarefas que eu faço no consultório com elas é analisar o que fazer na hora do tédio, quer dizer, onde está a criatividade dessa criança”, relata a psicopedagoga

Muitas crianças, ao chegarem ao consultório dela, contam que, ao “ficarem sem o que fazer”, recorrem imediatamente ao celular para se entreter. Mas, segundo a especialista, é justamente nesses momentos de ócio que a criatividade deve ser estimulada.

Por mais superficial que possa parecer, brincar é uma das ferramentas mais poderosas para a formação de uma criança e deve ser praticado nessas lacunas, em vez de telas.

O BRINCAR NO DESENVOLVIMENTO

O direito de brincar, além de imprescindível para o desenvolvimento infantil, está integrado às leis do país. No Brasil, a Constituição Federal, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e o Marco Legal da Primeira Infância asseguram o bem-estar infantil e a liberdade para o exercício desse direito, sendo o Estado, inclusive, obrigado a garantir espaços adequados e seguros para brincar.

“Existe um grupo de psicólogos infantojuvenis que tem um grupo chamado ‘Brincadeira de Coisa Séria’. Quer dizer, o brincar da criança, quando ela brinca sozinha, que ela está lá pensando, que ela está falando sozinha, que ela está resolvendo questões. Mas a gente está tirando isso delas”, comenta a psicóloga

A professora Marília complementa que o brincar infantil está sendo influenciado pela internet. “Na época do Labubu, por exemplo, as crianças brincavam de ‘Labubu’. Quem não tinha a pelúcia usava suas bonecas convencionais, mas batizando com o mesmo nome, para se incluir. Então, até o imaginário das crianças, o faz de conta, as construções, as relações sociais estão padronizados pela influência da internet.”

Muito além de exercitar somente a criatividade (que já é algo muito importante), a psicóloga defende o poder do brincar no desenvolvimento social e pedagógico. Segundo ela, o desenvolvimento que o tempo gasto em brincar com tabuleiros e outros jogos traz para o público infantil não se compara às habilidades adquiridas por meio de telas (que também desenvolvem, mas em escala muito menor), ensinando atenção, raciocínio lógico, habilidades sociais e, principalmente, desenvolvimento neuropsicológico.

Crianças vão sempre ser crianças

Apesar de a dúvida sobre a existência de uma “infância de verdade” ter sido combatida, ao observar o cenário atual do desenvolvimento infantil, muitos outros questionamentos surgem: os pais devem pôr maiores limites aos filhos? As empresas responsáveis por aplicativos com conteúdos que apelam a esse público devem ser restringidas? Como estará o quadro da infância das próximas gerações, cada vez mais conectadas ao mundo digital?

Infelizmente, não é fácil entender os rumos que o desenvolvimento infantil cercado de telas está tomando. Durante as entrevistas, tanto a psicóloga e psicopedagoga Valéria Narducci quanto a professora Marília Amaral atestam que a internet está, sim, influenciando (e muito) a vida dos pequenos, mas que os malefícios vêm muito mais de um ambiente de rotina corrida e abuso de telas (em um mundo muito diferente de como era 10 ou 20 anos atrás) do que do uso de plataformas digitais isoladamente. Como diz Narducci:

“O homem vive de acordo com o contexto social em que ele vive”

Então, fica a pergunta: é de fato justo e saudável cobrar de crianças um comportamento que não faz parte de suas realidades, brincadeiras, famílias e tempo?

A infância, conceito moderno como mencionado anteriormente, é algo muito subjetivo de cada indivíduo, principalmente de acordo com suas referências. Portanto, esperar que crianças modernas que brincam com Bobbie Goods, Labubus e dancinhas do TikTok brinque de amarelinha e de pular corda, quando isso não faz parte de seus cotidianos, é negar que os tempos mudaram e que a forma de brincar e de sentir a infância também mudou.

Editado por Mariana Lima

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