Por meio do Ciência Aberta, o CNPEM apresenta o funcionamento do Sirius e reforça a importância da divulgação científica no Brasil
O Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas (SP), voltou a abrir suas portas ao público na décima edição do Ciência Aberta, iniciativa que reuniu estudantes, professores, pesquisadores, famílias e interessados em tecnologia em uma programação voltada à divulgação científica e à aproximação entre a sociedade e a produção de conhecimento no país.
O que é o CNPEM e para que serve o Sirius?
O Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) é uma instituição de pesquisa supervisionada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). O local abriga laboratórios e equipamentos que contribuem significativamente para o avanço científico nacional, servindo de cenário para pesquisas que impactam áreas como sustentabilidade, ecologia, saúde, energia e materiais renováveis.
Atualmente, o CNPEM é responsável pelo projeto Orion, que investigará patógenos, e reúne uma série de Laboratórios Nacionais que atuam de forma integrada: o Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), o Laboratório Nacional de Biociências (LNBio), o Laboratório Nacional de Nanotecnologia (LNNano) e o Laboratório Nacional de Biorrenováveis (LNBR). O complexo também conta com sua unidade de Tecnologia (DAT) e com a Ilum Escola de Ciência, curso de bacharelado em Ciência e Tecnologia apoiado pelo Ministério da Educação (MEC).

Maquete do CNPEM.
Foto: Elisa Nuñez
O grande destaque do evento é a estrutura do acelerador de partículas Sirius, que funciona como uma grande fonte de luz. Diferentemente dos colisores de partículas europeus, como o CERN (Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear), cujo objetivo é provocar o choque entre partículas, o Sirius utiliza a aceleração de elétrons para gerar um tipo de radiação extremamente específico chamado luz síncrotron. Essa luz interage com amostras de materiais e permite desvendar os segredos da matéria. A partir dela, é possível analisar desde o ordenamento atômico de uma substância até estruturas mais complexas, como grandes moléculas, proteínas e tecidos de seres vivos.
Laboratórios e o gigante Sirius
Na edição mais recente do Ciência Aberta, cerca de 30 mil pessoas visitaram o espaço e participaram de tendas e atividades interativas voltadas a todas as idades. As iniciativas tinham um objetivo em comum: despertar a curiosidade e ampliar o interesse do público pelo conhecimento científico produzido no Brasil. Além disso, diversos laboratórios do complexo receberam visitas guiadas por estudantes e profissionais das áreas de engenharia, física, química e matemática que atuam no CNPEM.

Um dos laboratórios do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas (SP), durante o evento Ciência Aberta.
Foto: Elisa Nuñes
Em uma dessas visitas, tivemos a oportunidade de conversar com Raul, de 31 anos, engenheiro de materiais e doutorando em Física pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que trabalha com materiais semicondutores no Sirius. Segundo ele, a relevância do CNPEM vai muito além de atender às demandas da região metropolitana de São Paulo ou do território nacional.
“O Sirius, por exemplo, é uma instalação que está constantemente aberta a receber propostas de pesquisa de usuários, ou seja, pessoas que vêm aqui fazer pesquisa, que podem ser de quaisquer institutos do Brasil, da América Latina e do mundo, na verdade. Qualquer pesquisador, qualquer cientista que tenha uma boa proposta científica para vir estudar aqui, pode vir sem um custo associado a isso. (…) Em geral, pesquisadores da comunidade científica podem vir aqui pesquisar, mas além disso nós temos sim muitas parcerias com institutos de pesquisa no Brasil e na América Latina, e também com empresas, sobretudo empresas nacionais.”
Segundo ele, o CNPEM prioriza o estabelecimento de parcerias nacionais com o objetivo de fortalecer o parque tecnológico brasileiro, sendo o Centro um importante colaborador nesse processo. Algumas linhas de estudo também envolvem cooperações internacionais, como o exemplo apresentado por Guilherme Sobral, engenheiro físico pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e coordenador dos grupos de elementos ópticos das linhas de luz.
Ele cita a linha Mogno, uma das principais frentes de pesquisa do Centro, desenvolvida em parceria com a Petrobras e a empresa norueguesa Equinor. A iniciativa é dedicada ao estudo do pré-sal, investigando a forma como líquidos penetram diferentes tipos de rochas e solos. Suas aplicações se estendem a áreas como geociências, ciências biológicas, ciência dos materiais, agricultura, alimentos, engenharia civil, bioengenharia, química, paleontologia, arqueologia e patrimônio cultural.
Funcionamento e contribuição do Sirius para o meio científico
Eventos como o Ciência Aberta oferecem à população uma oportunidade que, em muitos contextos, ainda é pouco explorada: compreender como funcionam estruturas de pesquisa que recebem investimentos públicos e produzem conhecimento de impacto nacional. Nesse sentido, iniciativas de divulgação científica assumem um papel fundamental na democratização do acesso ao conhecimento.
O acelerador de partículas Sirius consiste em uma estrutura de grande porte capaz de armazenar elétrons — partículas subatômicas de carga negativa — e acelerá-los a velocidades muito próximas à da luz. Nesse processo, os elétrons emitem diferentes tipos de radiação de alto brilho, como raios X, infravermelho e luz visível, utilizados por pesquisadores para analisar características específicas de uma amostra.
Cada tipo de material exige níveis distintos de energia. Para investigar uma rocha, por exemplo, são necessárias energias mais elevadas do que aquelas empregadas na análise de células humanas.
Por fim, cada objeto de estudo pode ser investigado com equipamentos específicos responsáveis pelo tratamento da luz produzida no acelerador. As chamadas Linhas de Luz, por meio de ferramentas de isolamento e focalização, direcionam os feixes para as condições mais adequadas a cada experimento.
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Qual é o papel do Ciência Aberta para a sociedade?
Para muitos funcionários e pesquisadores presentes no evento, a parte mais gratificante da iniciativa é observar o brilho nos olhos do público, especialmente dos mais jovens, que demonstram não apenas admiração pelo universo científico, mas também o desejo de fazer parte dele.
Com apenas seis anos, Helena conta que, além de ser sua matéria favorita na escola, a ciência lhe oferece a oportunidade de se divertir e compreender melhor o mundo ao seu redor. Ela e outras crianças participaram de oficinas e dinâmicas como lançamento de foguetes, competições de dança com robôs, plantio de árvores e jogos desenvolvidos para estimular a curiosidade infantil.
Os pais de Helena, Camila e Thiago, sempre viveram nos arredores da região, mas conheceram o evento apenas neste ano.
“Ah, eu vejo que a tecnologia está agindo aqui no CNPEM. As pesquisas não acontecem apenas no meio molecular e atômico, trata-se de uma questão de saúde e desenvolvimento; algo que, principalmente depois da pandemia, se tornou um assunto muito importante para todos”, comentou Camila.

Frascos e materiais de laboratório expostos durante atividades do Ciência Aberta no CNPEM, em Campinas (SP).
Foto: Elisa Nuñes
Além disso, o evento exerce uma função social importante ao democratizar a divulgação científica. Quando pesquisadores e profissionais se reúnem para apresentar e explicar em detalhes o trabalho desenvolvido em uma instituição mantida majoritariamente por recursos públicos, a transparência se transforma em confiança.
Mais do que uma ferramenta de comunicação para disseminar conhecimento, o CNPEM busca aproximar a sociedade de um espaço frequentemente percebido como distante e complexo. Afinal, tudo aquilo que é pesquisado, descoberto e compreendido — dos microscópios aos grandes túneis do acelerador Sirius — pertence, em última instância, à população. O Ciência Aberta se consolida, assim, como um elo entre ciência e sociedade, cumprindo o papel de prestar contas e despertar o interesse pelo pensamento científico.