Entre experiências coletivas e estratégias de marketing: como a identidade musical influencia o público - Revista Esquinas

Entre experiências coletivas e estratégias de marketing: como a identidade musical influencia o público

Por Beatriz Egreja e Raffaela Menta : junho 23, 2026

De acordo com o G1, os brasileiros ouvem em média 25 horas de música por semana. Foto: Gigxels/Pixabay

Ao transformar sentimentos coletivos em produto, artistas e gravadoras aproximam o público enquanto movimentam o mercado musical

“É importantíssimo saber escrever no sentido de emocionar alguém, de apontar uma direção para alguém e até para ser contestado”, opina Marcelo Nova, cantor e compositor brasileiro, sobre a influência das letras de música no público.

As músicas construídas com letras inspiradas em experiências coletivas têm se tornado cada vez mais populares entre os ouvintes. Em uma sociedade que valoriza produtos com os quais se identifica, as canções que exploram a experiência humana cativam as pessoas. Por mexerem com o íntimo dos indivíduos, artistas utilizam esse sentimento para lucrar, transformando temáticas universais em estratégias de mercado.

O sucesso da identificação

A música é, e sempre foi, um sucesso. A combinação de uma boa melodia com uma voz cativante atrai fãs por todo o mundo. De acordo com o G1 (2023), os brasileiros ouvem, em média, 25 horas de música por semana, o que mostra como esse consumo se tornou um hábito. Mas um estilo específico vem ganhando destaque no mercado musical: as canções com temática universal. Letras que abordam traição, amor, amizade e diversas outras situações vividas pela maioria das pessoas tornam-se cada vez mais populares.

Giovanna Dias, jovem de 19 anos, é uma dessas fãs e afirma que “quando você escuta algo que viveu, sabendo que o artista que fez ou canta aquilo nem te conhece, cria uma sensação de ‘eu não estou sozinho nessa'”.

Essa conexão emocional aproxima o público da música, que deixa de ser um simples entretenimento para se tornar uma forma de verbalizar sentimentos. Isso faz com que o fã se sinta validado e crie uma relação afetiva tanto com a canção quanto com o artista. É por meio desse afeto que o estilo se populariza e ganha espaço. João Filizola, especialista formado em música, diz que “a combinação perfeita para atrair popularidade normalmente envolve temas muito comuns à experiência humana”.

Com um efeito quase terapêutico, a identificação proporciona a sensação de que a música expressa exatamente o que o ouvinte sente. O musicoterapeuta ainda afirma que “o ouvinte busca uma música cuja letra tenha algum conteúdo importante para ele naquele momento, algo com que ele se identifique ou se sinta contemplado pela temática que está vivendo”.

Dores e alegrias: como mexem com o ouvinte

Por trás da popularidade dessas músicas existe também um fator psicológico. Em uma sociedade marcada pela exposição constante de sentimentos nas redes sociais, ouvir alguém cantar exatamente aquilo que se está vivendo cria uma sensação de pertencimento. Giovanna comenta que se sente compreendida quando escuta letras que retratam experiências parecidas com as dela. “Eu gosto muito dessa parte da identificação com a música, ela te conecta totalmente consigo mesma”, afirma.

Segundo a psicóloga Marina Ruiz, esse tipo de identificação acontece porque a música desperta emoções e memórias pessoais.

 “Quando o indivíduo se reconhece em uma música ou letra, ele cria uma certa conexão com aquela narrativa, trazendo uma sensação de conforto.”

A especialista afirma ainda que músicas baseadas em experiências coletivas costumam ter mais impacto porque trabalham com sentimentos compartilhados pela maioria das pessoas.

“Questões como amor, perda, insegurança e outros sentimentos comuns fazem parte da vivência humana e, quando esses temas aparecem em uma canção, o público tende a criar uma conexão.”

A força dessa conexão emocional também ajuda a explicar por que músicas baseadas em experiências coletivas frequentemente viralizam. Temas como términos, inseguranças, amores frustrados e superação atravessam diferentes realidades e permitem que milhares de pessoas se enxerguem na mesma narrativa. Dessa forma, a identificação deixa de ser apenas uma consequência da música e passa a se tornar um dos fatores para o sucesso comercial no mercado musical atual.

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Sentimento ou negócio?

Apesar de girarem em torno de tópicos sensíveis na vida de muitos ouvintes, letras que promovem identificação também podem ser usadas como estratégia de marketing. Um grande exemplo do lucro que esse estilo musical gera é o sertanejo. A dupla Henrique e Juliano, com canções voltadas para temas como traição e paixão, hoje realiza um dos shows mais caros do Brasil, atingindo cachês de R$ 1,5 milhão.

O mecanismo da identificação atrai fãs, que se interessam pela música por se sentirem representados. Os artistas, por sua vez, podem se beneficiar dessas sensações.

Mas esse benefício nem sempre retrata a realidade vivida pelo cantor, mesmo que seja justamente essa imagem que atraia tanta popularidade. Novamente, João comenta a questão: “Talvez o conteúdo da letra fique menos verossímil em relação ao que o compositor realmente vive. Às vezes, ele cria uma letra muito mais com um objetivo comercial do que para transmitir uma experiência pessoal.”

O interesse em divulgar uma canção rentável, que o público queira ouvir, pode ser mais forte do que a veracidade daquilo que o artista vivencia. Um exemplo é a dupla sertaneja Matheus e Kauan, que fazia sucesso com músicas românticas, mas teve a imagem abalada quando Matheus revelou ter cometido infidelidades e anunciou o fim de seu casamento de 14 anos.

As pessoas tendem a ter mais afinidade com aquilo em que se sentem representadas, e essa afinidade molda o mercado da música. As canções expressam sentimentos e verbalizam sensações. Mas o público nem sempre consegue decifrar se o cantor que tanto admira está desabafando como eles ou apenas executando uma estratégia de marketing pessoal.

Editado por Enzo Cipriano

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