Jornalismo feito em casa: sem o "olho no olho", profissionais dividem opiniões sobre o home office - Revista Esquinas

Jornalismo feito em casa: sem o “olho no olho”, profissionais dividem opiniões sobre o home office

Por Vinicius Novais : abril 24, 2020

Apesar de a profissão ter sido classificada como essencial para o enfrentamento da pandemia, muitos jornalistas tiveram que migrar das redações para suas casas

A atividade da imprensa, ao lado de serviços funerários, de saúde, entre outros, foi tida como essencial para o enfrentamento da pandemia de coronavírus. Muitos jornalistas ainda têm que ir às ruas em busca de informação, mas a maioria deles foi levada a trabalhar de casa aderindo ao regime home office, o que obrigou Celso Unzelte, membro do programa BB Debate da ESPN, a transformar seu escritório em um estúdio de TV.  “Isso aqui não é um estúdio de TV, tive que fazer várias adaptações”, conta.

Celso está em casa desde 12 de março e, mesmo com a ajuda da tecnologia, não está tendo boas experiências com a transmissão do programa. “Não é o modelo ideal, pelo menos não é como a gente trabalhava até hoje, mas é o que dá para fazer”, diz o jornalista. Fazer um programa de televisão ao vivo de seu escritório implica tomar vários cuidados que estariam sob a responsabilidade dos técnicos do estúdio.  Junto disso, outros pequenos detalhes do dia a dia fazem do home office uma prática cansativa para o comentarista esportivo. “Você está sempre com a sensação de que está devendo trabalho”, afirma.

A necessidade de trabalhar em casa incomoda o jornalista, que já era familiarizado com a rotina. Ele não vê a hora de tudo voltar ao normal, mesmo com medo das possíveis mudanças do jornalismo após esse período. “Essa questão do coronavírus mostrou que a vida continua a mesma com menos recursos. Eu só espero que ele não mude para pior”.

O home office já era realidade para vários profissionais da área que prestam serviços a vários veículos de informação, os chamados freelancers. Com a pandemia, o que era opção se tornou obrigação.

Alexandre da Costa, fotojornalista e produtor da Fanzine Portrait, cobriu seu último evento no dia 15 de março. Ele já trabalhava de casa, mas agora, com o mundo esportivo paralisado, não tem material para trabalhar. “O site está parado”, conta o produtor.

Alexandre da Costa antes da quarentena fotografando
Acervo Pessoal

Em relação ao seu lado fotógrafo, Alexandre sente falta de sair: “Sou homem para a rua, preciso de gente. Tudo o que fotografo agora é da minha janela”. Ele diz estar cansado de ficar em casa e confessa não estar gostando do home office. O jornalista quer poder voltar a fotografar na rua e fazer suas entrevistas pessoalmente. “A entrevista por Skype é muito legal, mas só para agora. Não sou contra a tecnologia, mas não quero para o resto da vida”, afirma.

O uso de aplicativos de mensagens e videoconferências para discutir pautas e fazer entrevistas é a saída que muitos jornalistas encontram nesse período. A velocidade da internet, a qualidade das câmeras e do áudio dos microfones, a luminosidade do ambiente, e outras questões técnicas têm sido alvo de reclamação dos profissionais que tiveram que transformar suas casas em redações e estúdios de rádio ou TV.

Por outro lado, Hairton Ponciano Voz, repórter do Jornal do Carro, portal do Estadão, está de home office desde 11 de março e diz estar gostando da experiência. “Tem várias vantagens: você ganha no deslocamento, está em casa, fica próximo da família — com tudo que isso tem de bom e ruim, tem uma convivência melhor  e dá para trabalhar de chinelo”, pontua.

Hairton trabalhou de casa por dois anos quando era freelancer. A prática que adquiriu o ajuda agora que não há outra opção. “Precisa ser disciplinado: saber a hora que vai começar, e terminar em um horário razoável para não ficar esgotado. É uma experiência que, com um pouco de disciplina e organização, é legal”, explica.

Questionado sobre o impacto do isolamento social na produção jornalística, ele diz que as ferramentas digitais devem ser usadas. “Sempre privilegiei o olho no olho, mas é possível fazer o olho no olho ainda nessas condições pelos meios digitais”, afirma. Para ele, a tecnologia é muito importante: “Com um telefone você resolve 80% das coisas. É um caminho sem volta, e acho que vai ser melhor”. O jornalista ainda arrisca um palpite sobre o futuro da profissão: “Passada essa crise, acho o home office uma tendência”.