Entre promessas de performance e padrões vendidos nas redes sociais, até que ponto o mundo fitness incentiva a saúde?
Creatina, glutamina, multivitamínico, whey, vitamina C, colágeno: todos esses são suplementos que muitos influenciadores do mundo fitness incentivam as pessoas a comprar todos os dias. Mas será mesmo tudo isso necessário?
Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos para Fins Especiais e Congêneres (ABIAD), mais da metade das casas brasileiras (cerca de 54%) consomem algum tipo de suplemento alimentar, sendo 24% com finalidade de emagrecimento. Além disso, o mercado global de suplementos pré-treino atingiu cerca de US$ 20 bilhões em 2024 e deve crescer para US$ 25 bilhões até 2029. Será que esses dados representam uma sociedade genuinamente preocupada com a saúde ou apenas uma população cada vez mais seduzida por um estilo de vida vendido nas redes sociais, em que consumir suplementos virou símbolo de disciplina e pertencimento?
A importância da saúde em primeiro lugar
Hoje em dia, há quem confunda ter uma rotina de treinos e uma alimentação saudável com a necessidade de ingerir suplementos. Em entrevista para Esquinas, a nutricionista esportiva Monique Gazoli afirma que o principal foco de alguém que inicia uma rotina de treinos deve ser uma alimentação balanceada.
“Muitos iniciantes acreditam que precisam de suplementação assim que começam a treinar. Eles acham que, assim que pisam na academia, precisam comprar um pote de whey, uma creatina ou um pré-treino, sendo que, na realidade, o foco deles deve ser uma alimentação equilibrada, balanceada e ajustada de acordo com os objetivos e a realidade dessa pessoa.”
A nutricionista afirma que o uso da suplementação é uma necessidade individual e deve sempre ocorrer por meio de acompanhamento profissional. Já em situações em que o uso de suplementos realmente é necessário, é preciso ter atenção à dosagem, visto que o consumo excessivo pode causar riscos à saúde.
“Se a pessoa toma algum medicamento, há risco de haver interação entre o medicamento e o suplemento. Às vezes, um consumo excessivo de whey protein, por exemplo, entre outras proteínas, pode acabar fazendo com que essa pessoa aumente também a quantidade de gordura corporal, porque isso pode ser usado como fonte de energia para o nosso corpo”, afirma Monique.
Desde 2020, as redes sociais vêm se tornando um ambiente de compartilhamento de treinos e dicas relacionadas ao mundo fitness, com milhares de influenciadores na área. Hoje, esses criadores de conteúdo já alcançam um público amplo, que se identifica e se motiva pelo conteúdo, além de atrair grandes marcas em busca de parcerias. Com isso, muitos deixam em segundo plano a criação de conteúdos educativos e motivacionais voltados aos treinos para se dedicar às publicidades de marcas, principalmente de suplementos.
Em uma época em que as redes sociais exercem grande influência sobre hábitos e comportamentos, torna-se cada vez mais necessário que o público desenvolva um olhar crítico sobre os conteúdos consumidos, especialmente quando envolvem saúde. É importante compreender que, muitas vezes, o que está sendo divulgado se encaixa apenas na vida e na rotina daquele influenciador, já que nem todos os criadores de conteúdo têm propriedade para falar sobre determinados assuntos, como dietas e suplementação.
“Alguns influenciadores acabam passando ao público informações que não são consistentes com a realidade ou que não são baseadas em boas evidências científicas. Além disso, acabam superestimando o efeito de certos suplementos e não associam isso a outros aspectos que levam a pessoa a ter um bom resultado”, ressalta Monique.

Em geral, marcas do mundo fitness buscam aqueles que já possuem uma grande comunidade e apresentam ética e credibilidade ao divulgar os produtos e serviços da marca.
Foto: silviarita/Pixabay
O papel dos influenciadores
É impossível falar de mundo fitness sem dar destaque aos influenciadores de redes como TikTok e Instagram. Eles estão ali para promover um estilo de vida saudável e, consequentemente, produtos que ajudam a alcançar esse lifestyle.
O consumo de produtos fitness é uma parte significativa do trabalho dos influenciadores.
“No fundo, todo mundo sabe que o nosso trabalho é fazer as pessoas quererem copiar a gente. É assim que a gente ganha dinheiro”, disse Maria Luiza Sanches (@maludailylife), influenciadora de corrida com mais de 180 mil seguidores acumulados nas redes e fundadora da assessoria de corrida Zyla, em entrevista à Esquinas.
“Sei que tem influenciadores que não entendem o nível de responsabilidade que a gente tem, e acho que, na verdade, é um jeito de eles se livrarem dessa responsabilidade.”
A influência não tem interruptor, ou seja, o influenciador exerce esse papel a todo momento, mas cabe ao consumidor filtrar o que deve ser comprado ou não. A tarefa, porém, não é simples, pois, em uma rotina normal de stories, é possível encaixar até dez produtos diferentes em um único dia.
“Não é justo colocar na conta do influenciador ou da internet, se você acha que todos os produtos que as influenciadoras indicam vão resolver os seus problemas”, reforça Malu.
No fim, a influenciadora resume sua postura diante dos produtos que divulga em uma pergunta simples, feita antes de assinar qualquer contrato: “Se eu precisasse comprar com o meu dinheiro, eu compraria?”. Para ela, essa é a linha que separa uma indicação honesta de mais um produto em um feed que já tem produtos demais.
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O poder do conteúdo sobre a influência
Com o desenvolvimento da publicidade e das estratégias de marketing, as marcas têm deixado de vender apenas o produto para vender também um estilo de vida. Cada vez mais, os consumidores não compram algo por necessidade, mas procuram atrelar significado e sentimento a determinado produto. Em entrevista, o especialista em marketing Guilherme Cedran afirma que, hoje em dia, não se vende apenas o produto em si.
“Precisamos vender o que ele causa dentro de uma sociedade — economicamente e socialmente —, pois o sentimento de pertencimento, principalmente na área digital, faz uma grande diferença.”
Para Guilherme, é importante entender que há uma diferença entre criador de conteúdo e influenciador. Um criador de conteúdo possui uma comunidade de seguidores conquistada por meio da segurança e da sinceridade na divulgação de suas publicidades. Já um influenciador tem milhões de seguidores e, na maioria das vezes, está apto a divulgar qualquer coisa.
Em geral, marcas do mundo fitness buscam pessoas que já possuem uma comunidade consolidada e apresentam ética e credibilidade ao divulgar produtos e serviços. Além disso, as empresas procuram criadores que se encaixem na proposta da marca. Ao contrário de influenciadores famosos, a publicidade feita por um criador de conteúdo tende a soar de forma mais natural, por meio de conteúdos educativos e informativos voltados para quem realmente precisa daquilo. Quando a publicidade ensina o “porquê” e o “como”, e não apenas o “compre”, ela se torna parte do lifestyle de forma orgânica.
O desafio para o consumidor é entender que o pertencimento a um grupo fitness não deve vir da prateleira de suplementos ou de um armário cheio de roupas de treino, mas do compromisso real com a própria saúde.
No fim, o verdadeiro problema não está nos suplementos ou nos influenciadores que os divulgam, mas na maneira como o consumo é tratado hoje: como algo fundamental, quase indispensável para que alguém seja considerado “saudável”. O mundo fitness pode, sim, ensinar disciplina e autocuidado, mas essa influência passa a ser negativa quando a saúde vira um produto de pertencimento a uma comunidade.
Mais importante do que seguir a dieta da blogueira que viralizou ou comprar o inibidor de apetite que está sendo recomendado é entender que uma vida saudável se constrói com hábitos, constância, informação confiável e equilíbrio, e não com um carrinho cheio de compras.