75 anos depois, relembre o desfecho da Segunda Guerra Mundial - Revista Esquinas

75 anos depois, relembre o desfecho da Segunda Guerra Mundial

Por Mateus Omena : outubro 23, 2020

Os seis anos de conflito provocaram coalizões históricas entre grandes nações e marcaram a ascensão dos Estados Unidos e da União Soviética como superpotências

Em 2020, o fim da Segunda Guerra Mundial completa 75 anos. O conflito envolveu todos os continentes do planeta e custou milhares de vidas. De um lado, havia o grupo dos Aliados — Estados Unidos, União Soviética (URSS) e Inglaterra. Do outro, estavam as forças do Eixo — Alemanha, Itália e Japão — encabeçadas pelo ditador nazista Adolf Hitler. Além dos horrores de uma guerra que não poupou civis de nenhuma das partes, a guerra foi marcada pelo assassinato em massa de judeus pelos nazistas e outras brutalidades questionadas até hoje.

A maior de todas as guerras

Num primeiro momento, a Alemanha parecia não ter adversários à altura de seu poderio bélico. Utilizando uma grande força aérea, a Luftwaffe, e empregando a estratégia de ataques-surpresa — blitzkrieg (guerra-relâmpago) –, em poucos meses as tropas alemãs conquistaram diversos países do continente: Noruega, Dinamarca, Luxemburgo, Bélgica e Holanda. Não demorou muito para que, em 1940, os alemães invadissem a França.

Com a ocupação da França, a Inglaterra — cujo primeiro-ministro Winston Churchill, do Partido Conservador, acabara de ascender ao poder — ficou isolada. Na Itália, Mussolini, empolgado com o sucesso nazista, abandonou a neutralidade e, em junho de 1940, entrou no conflito ao lado dos alemães. No mesmo ano, o Eixo Roma-Berlim ganhou a adesão do Japão.

Resistência britânica

Disposto a dominar toda a Europa, Hitler lançou-se contra a Inglaterra. A partir de agosto de 1940, os alemães bombardearam de forma sistemática o território britânico. Mais de 600 mil aeronaves da Luftwaffe lançaram toneladas de bombas sobre portos e cidades inglesas, principalmente sobre a capital, Londres.

Mas os ingleses não cederam. Valendo-se do radar, instrumento de localização desconhecido dos alemães, e da Real Força Aérea (RAF), eles conseguiram barrar a ofensiva nazista. Os ingleses também contavam com outros dois fatores que, segundo a historiadora Vanessa Bortulucce, foram decisivos para a estabilidade de suas forças: a posição insular (ou seja, ilhada) do Reino Unido e medidas governamentais de proteção aos civis.

“Por estar localizada em um arquipélago, a Grã Bretanha nunca foi invadida por terra pelos nazistas como aconteceu com os países europeus. Após declarar guerra à Alemanha, o governo britânico agiu rápido para atenuar os danos da guerra com ações como enviar crianças às zonas rurais, construir abrigos, estocar alimentos e criar propagandas nacionalistas de incentivo à colaboração dos civis nos combates ”, explica Vanessa.

Com as dificuldades para conquistar o Reino Unido, Hitler se voltou para outras regiões, como o Mediterrâneo, os Bálcãs e o norte da África. No início de 1941, ele já havia conquistado a Grécia, a Iugoslávia e a Albânia e ameaçava o domínio britânico na região do Canal de Suez, no Egito.

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Invasão da União Soviética

Com mais de um milhão de soldados, em junho de 1941, Hitler deu início à invasão da União Soviética. Em setembro, os alemães estavam às portas de Moscou, capital do país. Diante da catástrofe iminente, o líder soviético Josef Stálin — que, poucos meses antes, mandara executar os melhores generais do Exército Vermelho, acusados de ligações com dissidentes do regime — mobilizou a população contra os invasores. Em pouco tempo, milhares de civis passaram a lutar ao lado das tropas regulares.

Para a historiadora, a participação do povo soviético na luta pela defesa de sua nação foi um dos fatores decisivos para a resistência aos nazistas, mas esse processo se deu por vias autoritárias. “O código militar soviético era bastante severo e aplicava a sentença de morte para aqueles que mostrassem hesitação, medo ou inclinação à deserção. Como os soldados eram proibidos de recuar, só existia uma saída para eles: avançar”, explica.

Outro forte adversário dos nazistas foi o clima hostil soviético. Com a chegada do inverno, as tropas do Eixo tiveram de enfrentar temperaturas de até 21 graus negativos, para as quais não estavam preparadas. Golpeados pelo frio e pela resistência do povo soviético, os alemães começaram a recuar de Moscou em dezembro de 1941. Essa derrota foi um sinal de que eles não eram imbatíveis.

Fim da neutralidade norte-americana

Até dezembro de 1941, tanto os Estados Unidos quanto o Japão permaneceram à margem do conflito. Contudo, o então presidente norte-americano Franklin Roosevelt não escondia sua simpatia em relação aos Aliados, países que lutavam contra o nazifascismo.

Já o governo japonês, após a ocupação da França pelos nazistas, em 1940, recebera de Hitler a Indochina, colônia francesa no Extremo Oriente. Temendo o expansionismo japonês, que punha em risco a segurança de sua costa oeste, o governo norte-americano impôs sanções comerciais ao Japão e exigiu que as tropas japonesas saíssem da China, invadida em 1937. Em resposta, no dia 7 de dezembro de 1941, os japoneses desfecharam um fulminante ataque aéreo contra Pearl Harbor, base militar norte-americana no Pacífico. O governo de Roosevelt declarou, então, guerra ao Japão e aos outros países do Eixo.

Revanche

A entrada das tropas norte-americanas e soviéticas no conflito ao lado dos britânicos desestabilizou as forças dos países que formavam o Eixo. Segundo Vanessa Bortulucce, a união entre essas nações não foi estimulada apenas para deter seu inimigo em comum, mas também para assegurar seus interesses de hegemonia política. “As motivações dos países que formavam os Aliados concentraram-se na manutenção de zonas de influência para proteger seus mercados e domínios. Mas, diante da guerra, não havia outra alternativa senão garantir uma aliança, porque os alemães até então conquistaram um território gigantesco, tratava-se de uma questão urgente”, afirma a historiadora.

Em outubro de 1942, no norte da África, tropas alemãs foram derrotadas por forças anglo-americanas sob o comando do general Eisenhower, futuro presidente dos Estados Unidos. Em fevereiro de 1943, os soviéticos conseguiram expulsar os alemães de Stalingrado. Em seguida, deram início a seu avanço em direção a Berlim. A caminho da Alemanha, libertaram diversos territórios sob o poder dos alemães: Polônia, Romênia, Bulgária, Noruega, Hungria e Tchecoslováquia.

Um ano depois, em 6 de junho de 1944 — Dia D, conforme o código secreto dos militares –, cerca de 3 milhões de soldados anglo-americanos, contando com o apoio de 5 mil aviões e 6400 navios, desembarcaram nas praias da Normandia, no litoral norte da França. No dia 26 de agosto, as tropas aliadas entraram em Paris. A derrocada nazista era uma questão de tempo.

(Quase) o fim da guerra

Em abril de 1945, Berlim caiu em mãos soviéticas. Hitler, sua mulher e vários generais nazistas se suicidaram. Diante da bancarrota alemã, Mussolini tentou fugir para a Suíça, mas no dia 28 de abril foi preso e fuzilado por combatentes da Resistência Italiana. Em 7 de maio de 1945 o alto comando alemão rendeu-se incondicionalmente aos Aliados.

Contudo, a rendição dos alemães não significou o fim do conflito. Na Frente do Pacífico, norte-americanos e japoneses ainda continuavam lutando. Entre dezembro de 1941 (ataque a Pearl Harbor) e maio de 1942, o Japão havia conquistado sucessivamente as Filipinas, Cingapura, Hong Kong, as Índias Orientais Holandesas (atual Indonésia) e outras regiões.

Em junho de 1942, no entanto, a frota japonesa foi derrotada pela esquadra norte-americana na batalha de Midway. A partir de então, as forças estadunidenses passaram à ofensiva na Guerra do Pacífico. Para selar sua vitória, nos dias 6 e 8 de agosto de 1945, aviões norte-americanos lançaram sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki a maior e mais letal arma até então desenvolvida: a bomba atômica.

As duas explosões causaram a morte instantânea de mais de 200 mil pessoas e arrasaram as duas cidades. Em setembro de 1945, o Japão assinou sua rendição incondicional. Até hoje, alguns especialistas apontam que a retaliação norte-americana teve também a finalidade de intimidar a União Soviética, forçando-a a não fomentar revoluções comunistas em países ocidentais. “A bomba atômica também serviu como teste de uma arma letal para uma nova situação de guerra. Além disso, os EUA a usaram como propaganda de sua força bélica. Após 1945, os americanos intimidaram muitas potências com ameaças de novas bombas”, explica Vanessa Bortulucce.

Ascensão de duas superpotências

Com a rendição alemã, os líderes dos Estados Unidos, da União Soviética e da Inglaterra — os chamados Três Grandes — reuniram-se entre julho e agosto de 1945 em Potsdam, nos arredores de Berlim, para discutir os termos da paz. E pela Conferência de Potsdam ficou acertada a divisão da Alemanha em quatro zonas de influência, sob controle dos EUA, França, Inglaterra e URSS. Berlim, que ficaria situada na zona soviética, sofreria o mesmo tipo de divisão em quatro partes.

Vanessa afirma que, entre os Aliados, os EUA e a URSS foram os que mais se fortaleceram e expandiram seus poderios militar e político, que os transformou em superpotências. No entanto, a historiadora defende que diante de tantas barbaridades em seis anos de conflito não houve vencedores. “As vitórias dos Aliados foram obtidas a um custo humano terrível, na base do cálculo frio e burocrático. Até que os soviéticos chegassem a 100 metros do bunker de Hitler, milhões de vidas russas foram perdidas. É desafiador pensar em quais são os ‘verdadeiros vencedores’, quando todos são, cada qual à sua maneira, perdedores”.

A Segunda Guerra Mundial chegou ao seu fim com números aterradores: cerca de 50 milhões de mortos, dentre eles 15 milhões de militares e 35 milhões de civis. Somente a URSS perdeu 20 milhões de habitantes. E cerca de 6 milhões de judeus morreram nos campos de concentração nazistas.

“Essa guerra sempre estará marcada de modo especial no imaginário da humanidade. Ela não apenas reconfigurou geografias, como também trouxe o Holocausto, genocídios, o terror atômico e ideologias extremistas. O fascismo e o nazismo ainda são defendidos por muitas pessoas, incentivando crimes de ódio e intolerâncias. Os legados da guerra são tantos e certamente perdurarão por muitas gerações”, finaliza a historiadora.