Como a pandemia desafinou a Galeria do Rock, ícone da música alternativa em São Paulo - Revista Esquinas

Como a pandemia desafinou a Galeria do Rock, ícone da música alternativa em São Paulo

Por Bruna Sales : julho 16, 2020

Durante o mês de julho, ESQUINAS publica reportagens especiais sobre o impacto da covid-19 no comércio e serviços. Este é o 3º texto da série

Antônio de Souza Neto, o Toninho, de 68 anos, não imaginava que a sexta-feira de 20 de março seria o primeiro dia dos quase três meses que a Galeria do Rock ficaria fechada. O síndico do centro comercial afirma que cerca de dez lojas fecharam as portas por causa da crise provocada pela pandemia. “Nos últimos anos, mais ou menos 20 a 30 lojas fecharam. Aí vem a pandemia e mata tudo. Estamos no frigir dos ovos.”

Por mês, uma média de 510 mil pessoas caminhava pelo número 439 da Avenida São João. Com esse número reduzido a zero, as contas de quem depende da venda “de balcão” não fecham. “Não tem saída, não tem alternativa de vida para muitos. Alguns falaram até em suicídio”, diz Toninho que, por ser graduado em Psicologia, considera que seu papel agora é o de consolar esse grupo. “Essa é a pior doença: desemprego.”

Na administração da Galeria, foram feitas parcerias com o Instituto Renova Empresarial, com financiamento a juros de 4% ao ano, número consideravelmente baixo em relação aos bancos tradicionais. Toninho reduziu o custo de condomínio em 20% e demitiu três funcionários de manutenção e segurança. “É triste. Mas eu gosto muito de desafios. Para mim, esse é mais um. Desafio de manutenção, perseverança e garra.”

Naquele mesmo 20 de março, Luiz Calanca, 67 anos, fechou o seu misto de loja de discos e selo Baratos Afins para seguir direto a sua chácara em São Roque, interior de São Paulo. “Eu sou um cara muito covarde para encarar essas coisas de perto”, desabafa. Nas palavras dele, a redução de 20% dos custos não é motivo de comemoração da administração. “Neste período não tivemos despesas, nem de água, nem de luz. E já que os prestadores de serviços terceirizados foram demitidos, nem de funcionários”.

Atualmente, há 15 lojas de discos no centro comercial, 82% a menos do que na segunda metade da década de 1990. “Aqui já foi a Galeria do Rock. Cheguei a ter 17 funcionários. Hoje tenho oito, sendo que dois pediram para sair na quarentena para receber dinheiro de indenização”. Em maio, Luiz, sua mulher e sua filha voltaram a trabalhar duas ou três vezes por semana na loja 318.

Edições do Jornal Folha de S.Paulo acumuladas na casa de Luiz Calanca, que deixou de recebê-las enquanto se isolava no interior
Acervo pessoal

A Baratos Afins já tinha um site para o comércio digital, mas com um aumento de apenas 12% nas vendas, os pedidos online não compensaram a falta do varejo, que vendia em média 1300 discos por mês. “O lado bom da internet é que o cliente que só ficava em um canto na loja antes, acaba comprando produtos que não eram de seu hábito.” Só com a venda digital, Luiz confessa que a loja se sustentaria por apenas mais 3 ou 4 meses. Depois disso, quebraria. “Graças a Deus a gente não tinha nada pendente para pagar. Até aqui, aguentamos.”

O contato com “os clientes fiéis do rock n’roll” faz muita falta. “Eu sou daquele tipo que recebe todo mundo, abraça, tira foto. Me desmancho de alegria por isso”. Para o proprietário da Aqualung Records, Dionísio Febraio, 62 anos, conhecido como Johnny Magrão, a “turma do rock n’roll” é motivo de esperança. “Somos muito unidos. Muita gente vai voltar, e quem não vinha mais vai passar a vir”, diz.

Luiz Calanca em sua loja, Baratos Afins
Acervo pessoal

Dentre CDs, DVDs, LPs e pôsteres, a Aqualung vendia em torno de 500 itens por mês. Com as vendas online, mal chega a 50. Por enquanto, o lojista não teve que demitir seus dois funcionários. “Ainda tô com isso na cabeça: ter que fechar as portas. Dependo das negociações com a imobiliária, meu aluguel está atrasado”, admite. “A venda online está salvando as continhas pessoais e a sobrevivência.”

Foi a sua imagem que ajudou Johnny Magrão a continuar tocando a loja 301 do segundo andar. “Eu fiz alguns filminhos meus avisando que continuaríamos vendendo pelo site. Divulguei no Facebook, no Instagram. Foi isso que deu resultado”. O aumento do uso do recurso digital foi de 300%, de acordo com ele. “Agora, a tendência vai ser investir cada vez mais no online, mesmo depois da pandemia. Para que o rock n’ roll permaneça para sempre.”

 

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Na quinta-feira de 11 de junho, a Galeria do Rock reabriu com horário de funcionamento de 4h por dia, conforme liberação da Prefeitura de São Paulo. O protocolo de segurança continua sendo: marcas no piso para distanciamento social, pedais de álcool em gel, aferição de temperatura e segurança 24h por dia. “Seguimos com mais coragem e vontade para enfrentar essa barra”, diz o síndico Toninho. “Não podemos perder a missão de vida que é manter a Galeria em cima, viva”, finaliza.